Há temperaturas perante as quais o corpo humano deixa, simplesmente, de funcionar. Numa altura em que estamos bem perto da peregrinação de 12 e 13 de Maio a Fátima, esta constatação científica ganha particular actualidade. Um estudo recente apresentado nesta quinta-feira na União Europeia de Geociências mostra que, perante o calor extremo, nem a fé, nem a vontade, nem a preparação física conseguem ultrapassar limites biológicos absolutos — uma realidade observada no Hajj, em Meca, mas com implicações claras para outras grandes peregrinações religiosas.
O trabalho, intitulado Quando a fé se depara com o calor: riscos das alterações climáticas durante a peregrinação do Hajj, é liderado por Atta Ullah e por investigadores dos Serviços Meteorológicos e Climáticos do Paquistão e da Climate Analytics, em Berlim. Parte de uma constatação simples e incómoda: muitas práticas religiosas decorrem em locais e com calendários fixos e, num planeta em aquecimento, o risco físico associado a essas concentrações está a aumentar rapidamente.
A investigação analisou as condições de temperatura e humidade durante o Hajj de 2024, a maior peregrinação religiosa do mundo, que todos os anos leva milhões de muçulmanos a Meca. As conclusões são perturbadoras: durante várias horas daquele período, a combinação extrema de calor e humidade ultrapassou o chamado “limite [térmico] de sobrevivência humana”.
Em Meca com 51,8 graus Celsius
Os resultados mostram que, durante o Hajj de 2024, esses limites foram ultrapassados durante várias horas consecutivas em cada dia da peregrinação — inclusive para adultos jovens entre os 18 e os 40 anos. Em termos simples, houve momentos em que o corpo deixou de conseguir arrefecer através da transpiração, tornando a exposição prolongada ao ar livre potencialmente fatal sem acesso imediato a sombra, água ou refrigeração.
No dia 17 de Junho de 2024, identificam os autores, registaram-se cerca de quatro horas consecutivas em que o esforço físico associado aos rituais — caminhar longas distâncias, permanecer de pé ao sol, circular em multidões densas — colocou os peregrinos numa zona de risco extremo.
O Dia de Arafat, um dos momentos centrais do Hajj, é apontado como particularmente perigoso: passado quase integralmente ao ar livre, numa planície com escassa sombra natural, tornou-se, segundo o estudo, o ritual mais vulnerável ao impacto das mudanças no clima.
Sim, podemos aplicar este estudo a Portugal. A situação é semelhante. As pessoas também viajam a pé, percorrem longas distâncias.
Atta Ullah, investigador e principal autor do estudo
Na sua apresentação pública dos resultados, Atta Ullah foi claro quanto à gravidade do cenário actual. “Em 2024, observámos um evento de calor extremo durante o Hajj. As temperaturas atingiram cerca de 51,8 graus Celsius e foram reportadas mais de 1300 mortes. Isto mostra claramente que o calor extremo não é um risco futuro — já está a acontecer.”
Estudos anteriores citados pela equipa de Atta Ullah mostram que, num mundo dois graus Celsius mais quente, o risco de insolação durante o Hajj poderá aumentar até dez vezes. Limitar o aquecimento global a 1,5°C reduziria esse aumento para cerca de cinco vezes — ainda assim um agravamento significativo. A equipa recorreu a modelos climáticos regionais (Cordex) para simular esses cenários futuros e concluiu que os limites de sobrevivência serão ultrapassados com maior frequência.
O que tem Meca que ver com Fátima?
Questionado pelo Azul sobre a aplicabilidade do estudo a outros contextos religiosos, incluindo Portugal, Atta Ullah foi directo: “Sim, podemos aplicar este estudo a Portugal. A situação é semelhante. As pessoas também viajam a pé, percorrem longas distâncias. Podemos analisar quanta actividade física conseguem realizar e como a humidade altera o quadro geral, hoje e no futuro.”
A resposta ganha particular relevância à luz da peregrinação internacional de 12 e 13 de Maio ao Santuário de Fátima, a primeira grande celebração anual no templo mariano. Neste ano, a peregrinação será presidida pelo patriarca de Lisboa, Rui Valério, pela primeira vez desde que foi nomeado para a Sé Patriarcal, em 2023.
Segundo o santuário, esta é a peregrinação mais participada, tendo acolhido no ano passado mais de 450 mil pessoas, muitas das quais fazem o percurso a pé durante vários dias. Felizmente, as previsões meteorológicas apontam este ano para dias relativamente amenos, com temperaturas abaixo dos 20 graus Celsius, e até para a possibilidade de chuva fraca em Fátima nos principais dias da peregrinação.
Peregrinos chegam a Fátima depoís de longas caminhadas que exigem muito esforço físico
Adriano Miranda
Embora o clima do centro de Portugal não se compare aos extremos registados em Meca, os ingredientes de risco alinham-se: grandes concentrações humanas, esforço físico prolongado, exposição solar e uma tendência clara para ondas de calor mais precoces e intensas.
Para Tiago Correia, professor de saúde pública global do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, esta tensão exige uma mudança de olhar. “Quando se analisa uma peregrinação, é preciso reconhecer que existe uma dimensão de sacrifício que é valorizada pelos próprios fiéis.”
“A fé não se regula”
O investigador adianta que “mesmo uma pessoa saudável tem um limite quando a combinação de calor e humidade se torna extrema”. E acrescenta: “A fé não se regula, mas o que não pode acontecer é ignorarmos riscos que hoje são diferentes dos do passado.”
O paralelo entre Meca e Fátima não pretende equiparar contextos, mas sublinhar uma responsabilidade comum. As entidades religiosas, as autoridades de saúde pública e os próprios fiéis terão de repensar algumas práticas que durante séculos foram assumidas como imutáveis.
No caso do Hajj, algumas adaptações já estão em curso, como a realização de certos rituais em espaços interiores climatizados ou a construção de infra-estruturas mais permanentes em zonas de estadia. No entanto, os autores do estudo são claros: a adaptação reduz riscos, mas não elimina a ameaça se o aquecimento global continuar.
Também em Portugal se colocam questões semelhantes. Deve haver mais pontos de água ao longo dos percursos para Fátima? Mais sombras artificiais? Horários ajustados em dias de calor anómalo? E até que ponto a tradição admite mudanças quando a saúde está em causa?
A Direcção-Geral da Saúde tem, nos últimos anos, reforçado recomendações para peregrinos e participantes em grandes eventos religiosos, especialmente em contextos de calor. Entre os conselhos mais repetidos estão a hidratação frequente, mesmo sem sede, o uso de roupa leve e clara, chapéu ou boné, e a aplicação de protector solar. A DGS alerta também para a importância de reconhecer sinais precoces de exaustão pelo calor — como tonturas, náuseas, dor de cabeça ou confusão — e de procurar ajuda médica ao primeiro sintoma.
Dois níveis de intervenção: as pessoas e as autoridades
“Quando se analisa uma peregrinação, mais do que noutros eventos colectivos, é preciso perceber que existe uma parte do sacrifício humano que é valorizada pelas próprias pessoas”, sublinha Tiago Correia. Segundo o investigador, esta lógica faz parte da experiência religiosa: “Quanto mais difícil, maior o sacrifício e, para muitos fiéis, maior também a devoção.”
Assim, a conciliação entre fé e saúde pública passa por dois níveis de intervenção, defende o editor-chefe do European Journal of Public Health. “Por um lado, temos de pensar nas pessoas. As pessoas devem estar informadas sobre o seu estado de saúde e sobre as suas condições físicas. Não é qualquer pessoa, com qualquer condição, que está em condições de fazer uma peregrinação, independentemente de estar calor ou não.”
O investigador sublinha que, em contexto de temperaturas elevadas, esse risco é amplificado: “Uma pessoa saudável a superar os seus limites é uma coisa; alguém com doença crónica, limitações de mobilidade ou idade avançada é outra.” Mesmo uma pessoa saudável, debaixo de calor intenso, tem um limite, sublinha Tiago Correia. “E isso obriga-nos a adaptar comportamentos, horários e condições, tal como já fazemos noutras actividades colectivas.”
Peregrinos no santuário de Fátima
Paulo Pimenta
As alterações climáticas já não são apenas uma questão ambiental abstracta ou um problema para as próximas gerações. Estão a reconfigurar práticas religiosas, eventos culturais e encontros de massas que dependem do ar livre e da resistência física humana.
Por outro lado, lembra Tiago Correia, há também uma responsabilidade clara das autoridades e das estruturas no terreno. “É essencial assegurar respostas de saúde pública nos caminhos de peregrinação — com voluntários, bombeiros, equipas médicas — capazes de monitorizar e responder rapidamente às necessidades das pessoas.”
Embora reconheça que existem já apoios organizados, Tiago Correia assinala uma lacuna importante: “Não tenho conhecimento de dados sólidos de saúde pública sobre o perfil dos peregrinos, as doenças que têm e as complicações a que estão sujeitos. E isso é um problema.”
A ciência não questiona a devoção, apenas lembra os limites do corpo que a move. Em Meca, em Fátima ou em qualquer outro lugar de peregrinação, caminhar continuará a ser um acto de entrega — mas terá de ser, cada vez mais, um acto consciente, informado e protegido. Porque, até para quem acredita que a fé pode mover montanhas, é preciso deixar claro que a devoção e o sacrifício não baixam a temperatura do corpo quando o planeta aquece.