Dos radares na Gronelândia aos depósitos nucleares na Turquia, conheça a complexa teia militar que faz da Europa uma fortaleza e por que razão o apoio americano é o seu único sistema operativo
A recente decisão norte-americana de retirar cinco mil soldados das suas bases na Alemanha deixou várias capitais em alerta, intensificando os receios de que a atual arquitetura da NATO possa estar em risco. Apesar de o número de efetivos poder começar a descer, a Europa continua a contar com uma força de cerca de 80 mil militares americanos, espalhados por mais de 40 instalações ativas. Desde a gigantesca base aérea de Ramstein ao escudo antimíssil Aegis, passando por depósitos de armamento nuclear tático e “exércitos fantasma” prontos a responder num cenário de guerra, esta é a complexa infraestrutura dos Estados Unidos na Europa, uma teia militar e logística inigualável que nenhum país europeu consegue, para já, substituir.
“Cinco mil é um número muito grande. A redução em cinco mil tem uma leitura de natureza política que é muito superior à leitura de natureza militar. Os europeus conseguem substituir cinco mil tropas americanas? Com muita dificuldade”, afirma o major-general Arnaut Moreira.
Longe vão os tempos em que o confronto com a União Soviética motivava o governo norte-americano a destacar mais de 350 mil soldados no continente europeu. Os números caíram a pique, atingindo o seu valor mais baixo em 2020, quando o número de soldados americanos caiu para aproximadamente 68 mil. Foi preciso Vladimir Putin invadir a Ucrânia pela segunda vez, a 24 de fevereiro de 2022, para que o então presidente americano Joe Biden desse ordem para aumentar o contingente para cerca de 86 mil militares, com a maior parte desta força destacada na Alemanha.
Na década de 1980, os Estados Unidos operavam uma vasta rede de bases com mais de 800 instalações militares espalhadas pela Europa, que incluía desde minúsculos postos de rádio e guarnições rurais até aos grandes centros de blindados, esmagadoramente concentrados na antiga Alemanha Ocidental. Hoje, essa gigantesca dispersão territorial foi condensada na atual rede de pouco mais de 40 bases principais altamente especializadas, trocando a quantidade pela eficiência de superestruturas centralizadas e por posições estratégicas mais próximas do Flanco Leste.
O “cérebro” da NATO
É precisamente na Alemanha que toda a operação das forças armadas americanas na Europa é coordenada. O planeamento estratégico americano é feito na base de Patch Barracks, em Vaihingen, onde opera o Comando Europeu dos Estados Unidos da América (EUCOM). A poucos quilómetros, na base de Kelley Barracks, opera o comando americano em África (AFRICOM) e as Forças de Operações Especiais (SOCEUR).
A estrutura militar ramifica-se, com o exército a ser comandado a partir da base de Lucius D. Clay Kaserne, em Wiesbaden, processando inteligência tática e comunicações seguras para as tropas terrestres, enquanto as infraestruturas de Nápoles, em Itália, ditam as movimentações da emblemática Sexta Frota e a projeção de poder naval no Mediterrâneo.
Mas um grande número de operações militares americanas não seriam possíveis sem a sua principal base no coração da Europa: a Base Aérea de Ramstein. Esta infraestrutura é muito mais do que um simples aeroporto militar. Os locais chamam-lhe a “Pequena América”. É uma pequena metrópole autossuficiente em solo alemão. Existem dezenas de restaurantes americanos, incluindo alguns dos principais nomes do fast food americano, pistas de bowling, cinemas e o maior hotel das forças armadas norte-americanas no mundo, capaz de acomodar o enorme fluxo de militares que passa por aquela base para todos os cantos do mundo.
Apesar de ser o quartel-general da Força Aérea dos EUA na Europa e o coração da aviação da NATO, não tem qualquer caça de combate permanentemente estacionado nas suas pistas, dedicando o seu asfalto em exclusivo ao trânsito de colossais aviões de carga e missões de evacuação médica.
Para garantir que a máquina de guerra se mantém ligada ao território continental americano, a logística americana depende de duas “âncoras” oceânicas que garantem a ponte sobre o Atlântico. Nos Açores, a Base das Lajes, na ilha Terceira, funciona como a estação de serviço vital no meio do oceano, permitindo o reabastecimento de caças e aviões de carga em trânsito, além de servir de base para a patrulha marítima que vigia o corredor central do Atlântico. Já no topo do mundo, na Gronelândia, a Base Espacial de Pituffik atua como a primeira linha de vigia espacial, com um radar ultra-potente que monitoriza o Ártico em busca de mísseis balísticos.
Controlo dos céus
Se a base de Rammstein acaba por servir como polo logístico e de comando para as forças americanas, é no Reino Unido, Itália e Turquia onde a sua força aérea concentra o seu poder de fogo. No Reino Unido, a RAF Lakenheath é vital por albergar esquadrões de ataque modernos, com os caças furtivos F-35 e F15E, que é apoiada pela base de Spangdahlem, responsável pela projeção tática com os seus F-16, e pela base de Mildenhall, que funciona como polo de reabastecimento aéreo e de operações especiais.
“As bases aéreas e as bases terrestres seguem uma linha diagonal que vai do Reino Unido e acaba na Turquia. É nesta linha que se encontram as grandes bases do exército e da força aérea. Sendo que as da Força Aérea se encontram nos extremos, tanto no Reino Unido como na Turquia”, explica Arnaut Moreira.
A sul, a Base Aérea de Aviano, em Itália, assegura patrulha e resposta armada no Mediterrâneo com os seus F-16, e a Base Aérea de Incirlik, na Turquia, serve como ponte estratégica para o flanco sul da NATO e o Médio Oriente. Foi a partir desta base que as forças americanas intercetaram vários mísseis balísticos iranianos no início de março. Esta base é também responsável pelo armazenamento de “até 50” bombas nucleares táticas americanas B61.
Para proteger esta vasta rede e as capitais europeias de ameaças externas, os Estados Unidos montaram uma arquitetura de defesa antimíssil que opera como um escudo integrado, o sistema Aegis. Esta rede é composta por duas bases terrestres, as chamadas “Aegis Ashore” em Deveselu, na Roménia, e em Redzikowo, na Polónia, que abrigam sistemas de radar e intercetores prontos a anular mísseis balísticos em pleno voo.
No entanto, este sistema de defesa não está limitado a duas infraestruturas estáticas. A partir da Base Naval de Rota, em Espanha, os EUA operam uma frota de contratorpedeiros equipados com o sistema Aegis que patrulham o Mediterrâneo e o Atlântico. Estes navios trabalham em sintonia com os “olhos” da NATO na Turquia. Em concreto o radar de banda X de Kürecik, que deteta lançamentos hostis em segundos, até três mil quilómetros e envia os dados para o comando central na Alemanha. Sem esta rede de sensores e intercetores americanos, a Europa ficaria vulnerável a ataques de longo alcance que os seus sistemas de defesa aérea atuais ainda não conseguem travar sozinhos.
O “exército fantasma” e a dissuasão nuclear
Talvez esta seja uma das capacidades mais subestimadas da força americana na Europa: o sistema APS-2 (Army Prepositioned Stocks). Os planeadores militares americanos perceberam que transportar tanques de navio através do Atlântico durante uma crise seria um processo demasiado lento e potencialmente perigoso. Por isso, criaram o que se assemelha a um “exército fantasma” com armazéns de grandes dimensões climatizados espalhados em várias bases.
A instalação mais moderna da Europa, capaz de albergar sozinha todo o equipamento de uma brigada blindada, está em Powidz, na Polónia. Mas o exército americano opera outras instalações em Dülmen, na Alemanha, Eygelshoven, nos Países Baixos e Zutendaal, na Bélgica.
Estas bases não albergam soldados, mas guardam centenas de tanques M1 Abrams, veículos de combate Bradley e artilharia pesada, todos com a manutenção rigorosamente em dia. Num cenário de guerra, milhares de soldados americanos voam dos Estados Unidos em aviões civis, aterram nestas bases, e têm quase todo o equipamento de que necessitam, estando prontos para combater em menos de 48 horas. Esta capacidade logística de transformar um armazém numa divisão blindada rapidamente é algo que nenhuma outra potência mundial consegue igualar em solo europeu.
Igualmente impossível de igualar atualmente é a capacidade de dissuasão nuclear americana. Apesar de o continente contar com a presença de duas potências nucleares, nem o Reino Unido nem França têm armamento nuclear táctico. Este armamento é considerado crucial por parte dos analistas militares para dissuadir qualquer ataque contra o velho continente. Além de Incirlik, estima-se que cerca de 100 bombas nucleares B61 estejam armazenadas em segurança em seis bases de cinco países: Alemanha, Bélgica, Itália, Países Baixos e Turquia.
Estas armas permanecem sob controlo direto dos EUA, mas, em caso de conflito extremo, seriam transportadas e lançadas por aviões dos países anfitriões. Esta “partilha nuclear” obriga estas bases a ter fortes protocolos de segurança e infraestruturas técnicas que os europeus não têm autonomia para gerir sozinhos.
A “ponta da lança”
Mas toda a vasta infraestrutura norte-americana serve de pouco sem unidades prontas para combater. Em Itália, a 173.ª Brigada Aerotransportada (os “Sky Soldiers”) mantém-se como a força de resposta rápida por excelência, capaz de projetar paraquedistas para qualquer cenário de crise em apenas 18 horas. Na Alemanha, o 2.º Regimento de Cavalaria em Vilseck garante uma força de infantaria mecanizada permanente, equipada com blindados Stryker que oferecem o equilíbrio ideal entre velocidade e poder de fogo.
Mais a leste, na Polónia, o recém-estabelecido V Corpo do Exército em Poznań serve como o “músculo” blindado, coordenando brigadas de tanques Abrams e veículos Bradley que rodam continuamente pelas fronteiras da NATO para garantir que o material mais moderno está sempre na linha da frente.
A sul, a arquitetura militar estende-se ao domínio marítimo através da Sexta Frota, comandada a partir de Nápoles, Itália. Esta estrutura não depende apenas de navios em trânsito e conta com bases estratégicas como Sigonella, na Sicília, que funciona como o grande eixo de patrulha marítima e logística, e Souda Bay, em Creta, um porto de águas profundas vital para o reabastecimento de submarinos e porta-aviões.
“Cinco mil tropas americanas correspondem a 15 mil ou 20 mil tropas europeias, porque o nível de apoio de um soldado americano é diferente, há toda uma logística e um sistema de armas e de intelligence que não permite comparações”, sublinha o major-general.