Da fadiga emocional à perda de auto-estima, há sinais que não devem ser ignorados.

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As aplicações de encontros prometeram revolucionar a forma como nos relacionamos. E, durante algum tempo, pareceram mesmo fazê-lo: mais opções, mais acessibilidade, mais oportunidades de encontrar alguém compatível. Mas, para muitos utilizadores, a experiência digital do amor começa agora a ter um lado menos romântico e bastante mais desgastante.
O termo “dating burnout” tem vindo a ganhar força para descrever um estado de exaustão emocional associado ao uso prolongado de apps de relacionamento. O fenómeno não é oficialmente considerado uma condição clínica, mas já está a ser estudado por investigadores e discutido por psicólogos, sobretudo entre millennials e geração Z.
Na prática, trata-se daquela sensação de cansaço constante perante o ciclo repetitivo de “swipes”, conversas superficiais, ghosting, encontros sem continuidade e expectativas frustradas. O que começou como uma experiência entusiasmante transforma-se, aos poucos, numa obrigação emocional.
Um estudo publicado na revista New Media & Society acompanhou quase 500 utilizadores de aplicações de encontros durante 12 semanas e concluiu que os níveis de exaustão emocional aumentavam com o tempo de utilização. Pessoas com sintomas prévios de ansiedade, solidão ou depressão mostraram-se particularmente vulneráveis.
Segundo especialistas, há vários sinais que podem indicar este desgaste. Entre os mais comuns estão a sensação de apatia perante novos encontros, o uso compulsivo das aplicações mesmo sem entusiasmo, irritação frequente, perda de esperança em criar ligações genuínas e uma tendência para interpretar rejeições digitais como falhas pessoais.
E há um detalhe curioso: muitas pessoas continuam nas aplicações mesmo quando já não retiram prazer delas. Alguns utilizadores descrevem o processo como “automático”, quase viciante, movido mais pelo hábito do que pela vontade real de conhecer alguém.
Nas redes sociais e fóruns online, multiplicam-se os testemunhos de quem sente que as aplicações deixaram de servir para criar conexões e passaram apenas a alimentar uma lógica de validação constante.
Especialistas apontam ainda que o excesso de opções pode criar aquilo a que se chama “paradoxo da escolha”: quanto mais perfis disponíveis, mais difícil se torna investir verdadeiramente numa ligação. O resultado é uma cultura de substituição rápida, em que qualquer pequena incompatibilidade parece motivo suficiente para voltar ao “swipe”.
Isto não significa, necessariamente, que as aplicações sejam “más” para toda a gente. Muitos casais continuam a conhecer-se online e há quem consiga estabelecer relações saudáveis através destas plataformas. A diferença pode estar na forma como são utilizadas e nas expectativas colocadas sobre elas.
Para evitar o chamado dating burnout, psicólogos recomendam algumas estratégias simples: fazer pausas regulares das aplicações, limitar o tempo de utilização, apostar mais na qualidade das interações do que na quantidade de matches e, sobretudo, não deixar que a validação digital se torne uma medida de autoestima.