David venceu Golias. A Licores do Vale venceu a gigante de luxo Louis Vuitton num processo de direito de propriedade intelectual, que se arrastava há um ano. O pequeno produtor português de licores de Monção era acusado pela casa de moda francesa de utilizar um logótipo no rótulo das suas garrafas que se dizia ser semelhante ao conhecido LV. “O L e o V são de toda a gente”, celebra a Licores do Vale, que dá conta da vitória nas redes sociais.

A pequena empresa era acusada de “imitação de marca” pela Louis Vuitton que argumentava que o pedido de registo da Licores do Vale no Instituto de Propriedade Industrial “propicia concorrência desleal” — a LVMH, dona da casa de moda, também está na categoria das bebidas espirituosas.

Todavia, o Tribunal da Propriedade Intelectual decidiu, a 4 de Maio, a favor da Licores do Vale, validando o registo nas categorias de licores e compotas, biscoitos e bolachas e mel que havia sido solicitado em Agosto de 2024, cita o Jornal de Notícias (JN), que avança a notícia.

Os fundadores do projecto, André Ferreira e Tânia Afonso, esperavam que a marca francesa viesse interpor um recurso da decisão judicial, mas ainda não chegou até agora. “Os últimos meses foram intensos. Houve desafios, dúvidas e dias difíceis… mas também houve esperança, união e uma vontade enorme de continuar”, declara o casal em comunicado, lembrando que a Louis Vuitton não é dona das letras do abecedário.

O processo judicial foi ainda mais surpreendente para a dupla por a Licores do Vale ainda ser um projecto embrionário, que ambos criaram nos tempos livres, vendendo licores e comportas em feiras de artesanato e produtos locais. “Uma coisa feita de forma não profissional e sem segundas intenções acabou por ser um drama. Foi assustador”, confessa André Ferreira ao JN.

Mais: o logótipo em questão, desenhado por Tânia Afonso, pouco se assemelha ao da Louis Vuitton. “O L é de licores e o V de vale, e foi virado ao contrário para simbolizar as montanhas envolventes à freguesia de Longos Vales; as folhinhas representam a natureza”, descreve a jovem, que estudou Organização e Gestão de Empresas.




À esquerda, o logótipo dos Licores do Vale; à direita, o logótipo da Louis Vuitton
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Mas o projecto, inspirado pelas origens de ambos de Longos Vales e Vale de Mouro, em Monção, acabou por ganhar visibilidade graças ao insólito e agora vai mesmo avançar para outra escala — há um ano, quando a polémica estalou tinham 400 seguidores no Instagram e hoje são mais de 2000. “Sentimos que este projecto já não é só nosso, é de todos os que acreditam na nossa história, nas nossas raízes e no sabor da nossa terra”, escrevem ainda na mesma nota, levando o véu sobre o que segue: o processo vai ser usado para marketing e promoção da linha de licores.

Para já, aproveitando a exposição mediática, a Licores do Vale está a fazer um passatempo no Instagram para oferecer três licores aos novos seguidores. “Os pequenos também derrubam os grandes. Parabéns Licores do Vale e que este vosso negócio tenha muito sucesso”, comenta um utilizador. E outro afiança, com humor: “Eu nem bebo, mas vou seguir-vos.”