Havia uma máxima que se ensinava nas academias militares da nossa geração: “A história militar é para o oficial de Estado-maior o que o cadáver é para o estudante de Medicina.” Aprende-se com os mortos para salvar os vivos. Estudavam-se guerras passadas para sobreviver às futuras.
Mas o mundo mudou de tal forma que essa equação já não fecha. As guerras de amanhã pouco se parecem com as de ontem, e as soluções que hoje se propõem para reforçar as nossas Forças Armadas parecem saídas, essas sim, de um manual desatualizado.
Há algo profundamente contraditório no que se passa no Parlamento: os mesmos políticos que há 20 anos, nas juventudes partidárias, militaram pelo fim do Serviço Militar Obrigatório são hoje os que mobilizam essas mesmas juventudes para um novo “desígnio patriótico.” O mundo mudou. Eles, aparentemente, não. Oferecer uma carta de condução numa era em que os veículos serão brevemente autónomos tem o mesmo valor simbólico que distribuir cartas topográficas a tropas que já usam GPS, ou ensinar datilografia na era da Inteligência Artificial. O gesto é bonito, quase nostálgico, mas pertence ao catálogo do passado. E é um mau serviço à Nação, à República, às Forças Armadas e à juventude, desde logo porque não perceberam que o problema dos efetivos não é das Forças Armadas — é do País.
A questão do recrutamento não se coloca apenas em Portugal. Em todos os países da NATO, após a queda do Muro de Berlim, o desinvestimento nas Forças Armadas e a ilusão de uma paz perpétua conduziram ao mesmo resultado. O exemplo britânico é elucidativo: as Forças Armadas do Reino Unido, frequentemente apontadas como referência, contam hoje com 136.960 militares no ativo — em 1975 eram 338.000, uma redução de cerca de 60% em meio século. O efetivo operacional real, treinado e experiente, não andará acima dos 125.000, e existe ainda um défice de 8.590 pessoas face ao número estipulado pelo governo. Em Portugal, com apenas 24.000 militares, a proporção é ainda mais preocupante. Por isso, quando se discute o não envolvimento direto na abertura do Estreito de Ormuz, a razão não é tanto o Direito Internacional — é que só se dá o que se tem.
Fecharam-se fábricas de armamento, desativaram-se unidades militares no interior, curiosamente onde os jovens mais aderem ao serviço militar, reduziram-se efetivos, e de repente o mundo desabou.
Os deputados da Comissão de Defesa, depois de finalmente perceberem que existe um novo paradigma lá fora, decidiram mostrar trabalho. Fizeram-no da maneira que sabem, na convicção de estarem a prestar um serviço às Forças Armadas — quando de facto não é assim. Isto não se resolve por geração espontânea nem com medidas à margem do conhecimento e da experiência. O desfasamento entre a solução proposta e a realidade é revelador: ignoram que todos os militares já saem das Forças Armadas habilitados com carta de condução. A verdadeira lacuna está nos condutores de veículos especiais, pesados, articulados, de matérias perigosas e de combate — e para isso seis semanas não chegam. Quanto aos demais, arriscam engrossar as plataformas TVDE com formação intensiva e experiência insuficiente.
Se me permitem a ironia, o único ponto verdadeiramente útil do programa seria a recomendação sobre Saúde Mental, mais pela possibilidade de aplicação aos próprios deputados, dado o espetáculo a que temos assistido.
O desacerto é profundo: os três principais partidos não foram capazes de perceber, desde o início da discussão, que o drama dos efetivos é uma questão de Cidadania. O que é verdadeiramente imoral é que, após o fim do SMO, se continuem a atribuir às Forças Armadas missões em número e exigência operacional crescentes, sem lhes atribuir os meios correspondentes. Vimo-lo nas recentes tempestades: mais militares e mais meios significariam maior empenhamento e menor sacrifício das populações. Os militares fazem falta ao País, e é o País que deve decidir como quer, e se quer, que os jovens façam parte desse esforço coletivo. Para isso, o Comandante Supremo das Forças Armadas tem de sinalizar esse desígnio nacional, o primeiro-ministro de liderar o processo, e o ministro, com os Chefes, de operacionalizá-lo.
É necessário falar verdade aos jovens, e com clareza. Estas medidas são uma forma engenhosa de adiar a discussão, e nada mais.
Importa reconhecer que o atual ministro Nuno Melo e os Chefes militares têm feito um trabalho sério, dentro do possível. Muito se avançou. Mas é precisamente aqui que reside o nó górdio: se queremos que os jovens sirvam o País, o País tem de estar à altura, garantir condições dignas, formação com valor futuro, reconhecimento social e liberdade de escolha informada. Servir não deve ser imposição, mas possibilidade: uma entre várias formas de contribuir, seja nas Forças Armadas, na Proteção Civil, no voluntariado ou noutras áreas essenciais.
A melhoria dos salários, ainda que aquém das médias europeias, e a dignificação da função já inverteram o ciclo de perdas. É por aí o caminho. Se é caro, sim, é. Na Defesa nada é barato, e o mais caro de tudo são as vidas dos militares. Os partidos atribuem nas suas propostas alguns milhões de euros, lavando as mãos como Pilatos, sem reparar que a lei dos efetivos ainda não foi aprovada, porventura por falta de cabimento orçamental, e que isso tem tanto ou mais impacto na gestão dos recursos humanos como a própria escassez de pessoal. Os Ramos sem poderem admitir praças em quadro permanente, com concursos condicionados ou suspensos, ficam paralisados na sua atividade futura. O que os políticos deviam fazer, na dúvida, era discutir princípios e valores, e deixar aos Chefes aquilo que eles sabem fazer melhor: gerir a coisa militar.
É aqui que a máxima de Kennedy recupera toda a sua força: “Não perguntem o que o vosso país pode fazer por vocês perguntem o que vocês podem fazer pelo vosso país.” Mas este apelo só faz sentido se for acompanhado de respeito, escuta e oportunidades reais. Os jovens de hoje não são menos comprometidos, são mais conscientes, mais informados e mais exigentes quanto ao sentido das escolhas que lhes são pedidas. Os meus filhos, à questão se gostariam de ir para a tropa, disseram-me com uma simplicidade que me desarmou: “Oh pai, eu até ia, pela experiência, pela aventura, para tu não ires.” Nessa frase cabe tudo o que a política tem ignorado.
No final, a pergunta que fica não é técnica nem orçamental.
É moral.
Estamos dispostos a ser honestos com os nossos jovens? A dizer-lhes não o que é fácil de ouvir, mas o que é verdadeiro? A exigir-lhes algo, mas também a merecer essa exigência?
Uma sociedade que só fala de deveres através de incentivos materiais perdeu algo essencial: o seu sentido de comunidade.
Não se mobiliza pessoas com ofertas, mobiliza-se com convicção, preparação e confiança no país que representam.
Que escolhas têm os jovens ucranianos perante uma lei marcial? A resposta a essa pergunta deveria bastar-nos.
Servir o país não é uma transação.
É uma escolha, e para que seja livre, consciente e duradoura, tem de ser construída desde cedo: na família, na escola, na forma como a República se relaciona com os seus cidadãos mais jovens.
O país tem primeiro de se mostrar digno dessa pergunta. É essa confiança que está em falta. E isso chama-se Cidadania!
Coronel, Consultor de Defesa