Aprendeu a jogar futebol no parque perto de casa dos avós maternos, no Barreiro. Foi na mesma localidade que começou a jornada que culminou este domingo na conquista de mais um Campeonato. João Cancelo tornou-se no primeiro jogador a conseguir vencer a Serie A, a Premier League, a Bundesliga e a La Liga.
No período de formação, nunca levou o futebol “tão a sério quanto devia”. Assumiu-o no podcast 1 para 1 com Pedro Pinto, há cerca dois anos e meio, ainda antes de fazer história. Só passou a apostar tudo depois da morte da mãe e isso, garante o jogador, deu-lhe uma “mente blindada”, indispensável para ser a pessoa e o jogador que é hoje. João Cancelo seguia no mesmo carro que a mãe, na madrugada de 5 de janeiro de 2013. O automóvel despistou-se e o acidente levou a mãe do atleta. “A partir do falecimento da minha mãe, quando tive de ser o pilar da minha família, aí sim, disse que ia levar o futebol a sério”, revelou.
Aquela perda podia ter afetado João Cancelo mas o lateral via no futebol algo para agarrar-se. Até porque garantiu não ter “outra alternativa”, porque não sabia “fazer mais nada a não ser jogar futebol”.
A longa caminhada iniciou-se no Barreirense e, ainda na formação, passou para o Seixal. O Benfica resgatava o destro e anexava-o a uma “fornada” com Tiago Silva, Ivan Cavaleiro e Bruno Gaspar. Mais tarde juntaram-se a ele, no mesmo escalão, Bruno Varela, Fábio Cardoso, Ricardo Horta ou Bernardo Silva. O período de formação terminou na época 2013/2014, quando João Cancelo se estreou na equipa principal do Benfica, numa partida a contar para a Taça da Liga, diante do Gil Vicente. Já nessa altura era visto como uma grande promessa do Seixal. À frente de Bernardo Silva, por exemplo. Foi no mesmo jogo que ambos se estrearam na Liga, frente ao… FC Porto, que venceu o clássico no Dragão por 2-1. A última jornada já não teria consequências classificativas: o Benfica já era matematicamente campeão e o FC Porto já não ia sair do terceiro lugar. Jorge Jesus aproveitou para lançar a prata da casa e isso valeu aos dois jogadores a medalha de campeão nacional.
Cancelo nunca chegou a assumir um papel de grande protagonismo na Luz. No verão de 2014, o Valencia de Peter Lim chegou a Portugal com 15 milhões de euros para levar o lateral direito. Não era o primeiro jogador dessa posição que os espanhóis tinham recrutado em Portugal: também João Pereira, contratado ao Sporting no verão de 2012, estava nos quadros dos che. Este último era o “dono” da posição desde que havia chegado ao Mestalla, mas estava prestes a sair. O clube, na altura orientado por Nuno Espírito Santo, via em Cancelo um substituto. A troca não foi tão automática quanto se antevia. O espanhol Antonio Barragán agarrou a posição deixada por João Pereira e não deu grande margem de manobra ao barreirense: 13 jogos em 42 do Valência, na época 2014/2015.
Essa margem chegaria na época seguinte, com João Cancelo a realizar 39 jogos, durante os quais conseguiu quatro golos e três assistências. Na época seguinte, 38. O Valencia não conseguiu ir além do 12.º lugar nas duas edições em que o internacional português assumiu a titularidade da equipa espanhola. O lateral parecia estar talhado para mais. Um empréstimo ao Inter antecedia, mais tarde, uma saída em definitivo do atleta para Itália. Primeiro, Milão: no fim da época 2017/2018, a cláusula opcional de compra não foi acionada. Depois, Turim: no verão de 2018, a campeã Juventus não deixou escapar a oportunidade e resgatou João Cancelo para os seus quadros a troco de 40 milhões de euros, ainda antes de protagonizar a “bomba” do mercado ao contratar Cristiano Ronaldo ao Real Madrid. Foi na Vecchia Signora que o lateral juntou ao seu palmarés o primeiro dos quatros títulos nacionais que fazem de Cancelo caso único no futebol mundial. Apenas uma época nos bianconeri bastou para o jogador conquistar a Serie A.
Também bastou a Pep Guardiola uma época para saber o que queria. O que queria tinha um nome: João Cancelo. E também tinha um preço: 65 milhões de euros. Cancelo só não foi a contratação mais cara do Manchester City no verão de 2019 porque Rodri foi contratado ao Atlético de Madrid por 70 milhões de euros. O efeito da chegada de Cancelo não foi imediato. Os citizens ficaram em segundo lugar da Premier na época 2019/2020, atrás do Liverpool, que nesse ano acabou com um jejum do título da Premier de 30 anos, com 99 pontos. No entanto, nas três épocas seguintes, três Ligas inglesas seguidas para Cancelo, Bernardo Silva e companhia, que ainda conseguiram, pelo caminho, vencer a Liga dos Campeões de 2023.
Ainda estava longe do que culminou no último domingo, mas cada passo que Cancelo dava, parecia um passo em cheio. O próprio disse na mesma entrevista que tinha a mãe a abençoar cada um deles. Nada fazia prever que, de um acidente de viação em 2013, nasceria um campeão europeu de clubes e o primeiro jogador conseguir quatro das cinco principais ligas europeias. O segredo é “fé e resiliência”. João tem o “segredo” tatuado no corpo. “São duas palavras com que me identifico bastante. Fé foi o que a minha mãe me ensinou – ‘por muito difíceis que sejam os caminhos, temos de lutar’. Ela é o meu maior exemplo, porque lutou toda a vida e trabalhava bastante. A fé vem dela. É o meu maior exemplo. É a pessoa que eu mais idolatro, sem dúvida. Acredito muito que ela hoje abençoa os meus passos e abençoa a minha caminhada”, revelou.
“Tenho uma tatuagem da minha mãe na parte superior do braço e o nome dela, Filomena, na parte inferior. A bênção dela deu-me força e segurança. Quando estou em casa, em Portugal, a primeira coisa que faço é visitar a campa da minha mãe. Sinto-me bem, ali. Posso dizer-lhe tudo aquilo que sinto. Parece-me que ela ainda está connosco, apesar de não responder”, destacou em entrevista mais tarde.
Foram as circunstâncias em que se encontrou depois dessa tragédia que o envolveram numa “defesa” e o fizeram crescer mais depressa, moldando a “personalidade forte” que já tinha desde cedo. “Tenho um escudo. Um tipo de defesa. Com as coisas que passei na minha vida, a minha mãe faleceu quando tinha 18 anos, tinha um irmão com dez… Tive de ser o pilar da família, porque o meu pai também estava numa depressão. Não estava nas melhores condições a nível mental. Tive de ser eu o pilar da família. Isso também me fez crescer. Fez com que tivesse uma defesa diferente da que teria se tivesse a minha mãe presente. Tive de dar o exemplo ao meu irmão. Tive de mostrar ao meu pai que estava ali para eles. Ao fim ao cabo, tive de sustentar a minha família a partir daí. É verdade, era um adolescente, mas aos 18 anos seres o líder de uma família não é fácil. Houve coisas com as quais sofri bastante, mas tive de ser a pessoa mais estável, mais forte da família. A mentalidade que eu tenho hoje de vencer vem daí“, afirmou.
Essa “personalidade forte” acabou por chocar com outra. Durante a temporada em que o City venceu a única Liga dos Campeões da sua história, João Cancelo teve “um bate boca, uma discussão” com Pep Guardiola, em janeiro de 2023, pouco depois do Mundial no Qatar. “Aconteceu. Ele não me queria mais lá”, revelou João Cancelo em entrevista ao Canal 11 em abril deste ano. “Decidi sair para o Bayern e até hoje não me arrependo”, explicou. Mais tarde, numa entrevista para o site oficial do clube alemão, João Cancelo, ao falar sobre a sua personalidade, admitiu ser “difícil explicar”. “Sou muito impulsivo e sentimental e, provavelmente, muito fácil de perceber, porque digo sempre o que sinto. Pessoas transparentes como eu nem sempre têm vida fácil neste mundo acelerado e implacável de hoje”, disse.
Não fosse esse conflito e talvez Cancelo nunca chegasse a conquistar a Bundesliga – vital para conquistar quatro dos títulos das Big 5. Cancelo chegou em janeiro a Munique e em maio celebrava o título de campeão da Alemanha, já depois de confirmado o título que ajudou a conquistar em Inglaterra, onde “a nível futebolístico” foi o mais feliz.
Pouco antes da conquista do Campeonato alemão, João Cancelo voltou a lembrar a mãe e as dificuldades que enfrentou para chegar a Munique. “Sou um lutador. A vida em Portugal é muito mais difícil do que na Alemanha. A minha mãe trabalhava em três locais diferentes como empregada de limpeza. E como o salário mínimo é muito baixo em Portugal, era difícil pagar a renda. Durante os primeiros 16 anos da minha vida, vivi com a minha família na casa dos meus avós, porque não tínhamos dinheiro para ter o nosso próprio apartamento. O meu pai era construtor e trabalhava seis meses de cada vez na Suíça, passando depois um mês connosco”, revelou.
Como o Inter em 2017, o Bayern optou por não acionar a cláusula de compra no final dessa época. Thomas Tuchel, à data treinador dos bávaros, garantiu que “não foi por razões futebolísticas”, mas sim por “uma questão de finanças e posições”. O espaço que se tinha fechado no Etihad, durante o conflito com Pep Guardiola, nunca mais voltou a abrir-se. Seguia-se o Barcelona – o clube dos sonhos de João Cancelo e a equipa do seu ídolo: Ronaldinho Gaúcho. Era mais um passo na já longa carreira do lateral de 30 anos. Queria-se certo, mas acabou por resultar sem qualquer troféu – algo que não acontecia desde que Cancelo tinha chegado ao Inter.
O Médio Oriente abriu as portas para Cancelo mas o jejum de troféus continuou. O Al Hilal contratou o lateral por 25 milhões de euros ao Manchester City. Na única época completa em que esteve na Arábia Saudita, o jogador português não conseguiu conquistar títulos. Mas o “mau perder”, que a mulher de João Cancelo garante que o marido tem, fez com que o jogador voltasse a dar uma ‘segunda oportunidade’ aos culés. No decorrer da atual temporada, o Barcelona pagou ao clube árabe cerca de quatro milhões de euros pelo empréstimo do atleta. No último domingo, foi titular diante do grande rival Real Madrid, num clássico que podia ditar o título do Barcelona em caso de vitória dos blaugrana. Foi assim que aconteceu: o Barça venceu os blancos por 2-0. Mais uma vez, Cancelo estava presente. Era o quarto título diferente de campeão nacional de cinco possíveis das Big 5.
“Gosto de novos desafios. Gosto de provar às pessoas e a mim mesmo que consigo adaptar-me a qualquer a qualquer liga, em qualquer clube do mundo, e que, apesar das adversidades, eu consigo sempre voltar. Quanto maior a queda, maior a força que tenho”, afirmou no podcast. As declarações poderão ter mais de dois anos, mas poderão ajudar a explicar o que Cancelo já antecipava bem antes de se tornar no primeiro jogador a alcançar o feito. A isto, juntam-se a “fé” da mãe Filomena, o “mau perder” apontado por Daniela, a mulher, a “resiliência” que aquele acidente em 2013 o obrigou a ter e a autoconfiança nas suas habilidades. “Sempre fui um jogador que confia nas suas habilidades. Continuo a confiar muito em mim. Porque, para o bem e para o mal, sou eu. Quando me criticam sou eu, vai ser sempre o meu nome. E, quando estou bem, também vai ser sempre o meu nome”, explicou. “Para o bem e para o mal”, o nome de João Cancelo é o primeiro a ser gravado na conquista de quatro dos cinco principais campeonatos europeus.
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Miguel Feraso Cabral