A primeira vez que vi uma foto do Richard, tive a sensação de estar olhando para algo muito brasileiro sem cair nos estereótipos que normalmente acompanham esse tipo de imagem. As fotos tinham textura, personalidade e um senso de realidade que parecia fugir daquele polimento excessivo que domina parte da fotografia de moda hoje. Era uma linguagem muito própria: corpos, brilho, flash, baile funk, praia, rua, desejo e juventude brasileira coexistindo na mesma imagem. Meses depois, encontrar o Richard pessoalmente e acompanhá-lo trabalhando durante a Rio Fashion Week tornou tudo ainda mais interessante. Existe uma calma muito particular na forma como ele observa as pessoas antes de fotografar.
Aos 27 anos, criado no Cantagalo-Pavão-Pavãozinho (PPG), no Rio de Janeiro, o fotógrafo construiu uma estética profundamente ligada à vivência periférica, aos códigos visuais da rua e à memória da própria comunidade. Muito da sua fotografia vem das mulheres que cresceu observando, da cultura do baile funk, das CyberShots de brechó, da espontaneidade dos amigos que viraram modelos, stylists e colaboradores ao longo do caminho. Hoje, seu trabalho chama atenção justamente por transformar esse universo em imagem sem suavizar suas origens.
Em entrevista à FFW, o fotógrafo fala sobre representatividade, identidade visual, o atual momento da fotografia brasileira e o desejo de construir um legado através das imagens que cria.

Onde e quando você nasceu e como foi o seu primeiro contato com a fotografia?
Eu nasci em 1999 e fui criado no Rio de Janeiro, na comunidade do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, e isso influencia tudo no meu trabalho até hoje. Desde pequeno eu tinha muito contato com imagem, mesmo sem entender que aquilo era fotografia. Eu lembro muito das minhas tias se arrumando pra ir pro baile funk, aquelas roupas, marcas tipo Gangue, HBS, a estética, o brilho, a atitude. Eu ficava ali no meio, observando tudo. Isso ficou muito forte na minha memória e hoje eu vejo o quanto isso aparece no que eu faço, até nessa coisa mais “vintage”, meio crua.
O baile, a rua, a comunidade sempre fizeram parte do meu olhar. Então, quando comecei a fotografar, eu só estava registrando um universo que já era meu. Eu comecei de forma bem natural, sem planejar virar fotógrafo. Eu trabalhava numa hamburgueria e tenho um amigo, o Abacaxi, que é estilista e tem uma marca bem periférica, muito forte. A gente começou a montar uns looks juntos, fazer styling, e aí eu comecei a garimpar CyberShot em brechó e fotografar nossas produções. Nisso, várias amigas nossas tinham o sonho de ser modelo, e a gente começou a fotografar elas também.
Meio que foi surgindo uma equipe, um movimento. Elas entraram pro casting dele e a gente começou a criar junto. No começo era muito sobre isso: criar oportunidade pra gente mesmo e para as pessoas ao nosso redor. Então eu virei fotógrafo meio que sem perceber, mas ao mesmo tempo a fotografia sempre esteve comigo. Na escola eu já fotografava com celular, sempre fui muito curioso com imagem. E até hoje eu carrego isso, uma forma muito intuitiva de fotografar, usando o que eu tenho. Pode ser CyberShot, pode ser telefone, pra mim o mais importante sempre foi o olhar e o momento.

Como você define a sua linguagem visual hoje?
Eu acho que é muito mais sobre o olhar. Porque antes de qualquer coisa, antes até da CyberShot, eu já tinha esse interesse de observar, de reparar nas pessoas, nos detalhes, no que estava acontecendo ao meu redor. Eu já fotografava com celular, já me interessava por imagem, então isso sempre veio muito de dentro.
Hoje, quando eu idealizo um trabalho, eu penso em tudo. Eu gosto de estar presente em todos os processos, desde o casting, o styling, a escolha da locação, até a direção das pessoas e a edição final. Pra mim, a imagem não começa no clique, ela começa muito antes. Eu sou uma pessoa muito observadora. Eu tiro muita referência dos meus amigos, da rua, das feiras, dos brechós, de tudo que está ao meu redor. Então minha linguagem vem muito desse cotidiano, desse olhar atento mesmo.
A CyberShot é importante, claro, porque foi com ela que eu comecei a construir uma identidade mais forte. Ela virou uma espécie de assinatura. Mas, ao mesmo tempo, ela não define o meu trabalho. Ela complementa. Se eu tivesse que resumir, eu diria que o que define tudo é a forma como eu visito e construo as coisas, muito mais do que a câmera em si.
Qual foi o maior desafio de levar sua estética sem perder a essência?
Acho que o maior desafio é justamente não suavizar demais a estética para caber nesses espaços. Quando você vem de um lugar muito real, muito raiz, existe sempre uma expectativa de adaptar, de deixar mais limpo, mais universal. E eu sempre tive muito cuidado pra não perder essa força. Porque o que faz o meu trabalho ser o que é vem exatamente desse lugar: da rua, das pessoas, da forma como elas se expressam, da estética que muitas vezes não é vista como luxo, mas que pra mim tem muito valor.
Então, quando eu trabalho com artistas ou marcas maiores, pra mim é muito importante que isso não se perca. E eu tive a sorte de trabalhar com pessoas e equipes que entenderam isso e me deram liberdade criativa. Acho que o desafio vira equilíbrio: conseguir levar essa estética para outros contextos sem descaracterizar, sem transformar em algo genérico. No fim, não é sobre adaptar meu trabalho pro mercado, é sobre o mercado entender e abrir espaço pra essa linguagem também.

O que você busca comunicar com seus retratos?
Meu trabalho vem muito das mulheres que sempre estiveram ao meu redor. Eu cresci rodeado por mulheres, minhas tias, minhas primas, e lembro muito delas se arrumando pra ir pro baile funk. Aquela estética, a forma como elas se produziam, a atitude, isso tudo me marcou muito. Então é natural que meu trabalho tenha essa presença feminina muito forte.
E também vem de um lugar de propósito. Eu sempre quis criar espaço para pessoas negras como eu. Nos meus trabalhos autorais, isso é muito presente. Eu fotografo pessoas que fazem parte da minha realidade. Muitas vezes são minhas amigas, pessoas que começaram comigo, ou até gente que eu encontro na rua. Às vezes tô na comunidade, na praia, andando por aí, vejo alguém e sinto vontade de fotografar. É muito orgânico.
Também tem essa troca. Muitas dessas pessoas cresceram junto comigo, a gente se ajudou no começo, construiu tudo junto. Então eu faço questão de continuar trazendo elas pros meus trabalhos, indicando, fortalecendo essa base. Na forma como eu fotografo, eu quero exaltar essas pessoas, mostrar beleza, força, desejo, presença, de um jeito que fuja dos estereótipos. Mas, no fundo, é mais do que estética, é sobre criar memória também. Criar imagens que daqui a alguns anos outras pessoas pretas possam olhar e se reconhecer, se sentir representadas. É sobre deixar um legado.
Qual o papel desses lugares na sua identidade criativa?
O papel desses lugares na minha identidade criativa é total, é de onde tudo vem. Eu nasci e cresci numa comunidade da Zona Sul, então meu olhar foi formado ali, na forma como as pessoas se vestem, se expressam, ocupam os espaços. Isso definiu muito da estética que eu carrego hoje.
Quando eu morei na Zona Norte, eu entendi que, mesmo com diferenças, existe uma continuidade. São os mesmos códigos, os mesmos costumes, a mesma energia. Isso ampliou minha visão e fez eu perceber que meu trabalho não está preso a um lugar específico, mas a uma vivência. Esses espaços me ensinaram a observar, a valorizar o que é cotidiano e a transformar isso em imagem. A estética que aparece no meu trabalho não é algo que eu crio do nada, ela já existe nesses lugares.
Hoje, morando em Copacabana, eu também começo a olhar pra cidade de outra forma. E isso vai se somando. Eu tenho vontade de misturar esses diferentes territórios no meu trabalho, justamente pra não me limitar e pra mostrar que tudo isso faz parte da mesma construção. Então o papel desses lugares é esse: eles não são só cenário, eles são a base do meu olhar, da minha estética e da forma como eu crio.

Como você enxerga o atual momento da fotografia brasileira?
Eu acho que a fotografia brasileira está num momento muito potente. Tem muita gente nova criando, trazendo outros olhares, outras referências, principalmente de lugares que antes não tinham tanta visibilidade. E isso muda tudo. Hoje não existe mais essa ideia de que você precisa ter uma certa idade ou seguir um caminho tradicional pra estar nesse mercado.
Eu vejo muitos amigos meus, de idades diferentes, muito talentosos, ocupando espaço, sendo chamados por marcas, criando coisas fortes. Isso mostra uma abertura maior. Também sinto que hoje existe menos pressão em relação ao equipamento. As pessoas valorizam mais o olhar do que a câmera em si. Pode ser celular, pode ser uma CyberShot, pode ser qualquer coisa. Isso abre caminho pra muita gente começar e se expressar.
E, ao mesmo tempo, existe uma troca muito importante entre gerações. Eu, por exemplo, já fui muito abraçado por fotógrafos mais antigos, que reconheceram esse movimento e valorizaram isso. Então não é uma ruptura, é uma continuidade também. E no Rio isso fica ainda mais forte. A cidade tá muito visada, tem muita gente de fora olhando, muitos turistas, e ao mesmo tempo existe uma valorização diferente do que é daqui, da cultura, da estética, das pessoas. Claro que ainda existem desafios, nem todo mundo tem o mesmo acesso. Mas eu sinto que a gente tá num momento muito importante, de crescimento mesmo.
Qual a sua maior ambição?
Eu acho que tem alguns sonhos muito claros pra mim. Um deles é fotografar uma capa de revista. Pra quem trabalha com moda, isso é algo muito forte e eu ainda não cliquei uma capa, então com certeza está no topo da minha lista.
Mas, ao mesmo tempo, o meu maior sonho é lançar um photobook, um livro com as minhas fotos. Ter algo físico que as pessoas possam tocar, colecionar, isso muda tudo. É uma forma de eternizar o trabalho de um outro jeito. Também tenho vontade de ver meu trabalho em grandes exposições e fotografar nomes que sempre me inspiraram, como a Gisele Bündchen. Eu cresci vendo muito o trabalho dela com o Mario Testino, então isso também faz parte do meu imaginário.
Mas acho que, acima de tudo, minha maior ambição hoje é ser reconhecido pelo meu trabalho. Que as pessoas olhem uma imagem e saibam que fui eu que fiz. E junto com isso vem uma busca por estabilidade. Eu vivo de fotografia há pouco tempo, tudo ainda é muito recente pra mim, e é uma área que pode ser instável. Então também existe esse desejo de me sentir mais seguro, de continuar crescendo e consolidando meu espaço. No fim, é sobre continuar evoluindo, conquistar esses sonhos, mas sem perder o que me trouxe até aqui.
