No seu último dia no cargo, Roberto Cingolani defendeu que os resultados financeiros comprovavam a eficácia da estratégia e afirmou que se surpreenderia se a nova liderança alterasse o rumo seguido

O antigo responsável da empresa italiana de defesa Leonardo foi afastado do cargo após uma gestão marcada pela forte aposta em tecnologia militar de nova geração, uma estratégia que agradou aos investidores mas gerou tensões políticas e desconforto no setor da defesa e entre aliados internacionais.

Segundo o Financial Times, a saída de Roberto Cingolani ocorre num contexto de críticas ao rumo da empresa, especialmente devido a projetos como o sistema de defesa aérea “Michelangelo Dome”, baseado em inteligência artificial. Embora apresentado como uma solução complementar às estruturas já existentes, o projeto levantou reservas em vários países europeus e nos Estados Unidos, onde chegou a ser visto como potencial concorrente de sistemas como os intercetores Patriot.

Para o agora ex-responsável, a aposta em alianças com empresas como a turca Baykar e a alemã Rheinmetall permitiria à Leonardo ganhar maior relevância na nova arquitetura de defesa europeia. No seu último dia no cargo, Cingolani defendeu que os resultados financeiros comprovavam a eficácia da estratégia e afirmou que se surpreenderia se a nova liderança alterasse o rumo seguido.

“Os nossos resultados financeiros mostram que a visão ‘balas e bytes’ foi a acertada”, afirmou aos jornalistas, acrescentando que “ficaria surpreendido se a nova administração mudasse de rumo”.

As críticas, no entanto, apontam para um foco excessivo na inovação tecnológica em detrimento do reforço de capacidades mais imediatas, como a produção de drones, munições e plataformas militares. Especialistas do setor, ouvidos pelo FT, sublinham ainda a necessidade de equilibrar o papel da empresa enquanto entidade privada e, ao mesmo tempo, ativo estratégico do Estado italiano.

A polémica intensificou-se com o projeto “Michelangelo Dome”, apresentado em novembro, que terá gerado fricções adicionais entre Roma, Bruxelas e Washington. Apesar de Cingolani ter garantido que mais de 20 países demonstraram interesse e que a primeira entrega prevista à Ucrânia ocorreria até novembro, autoridades norte-americanas terão manifestado preocupação em encontros diplomáticos sobre o impacto da tecnologia no equilíbrio de sistemas de defesa existentes.

Também as parcerias internacionais suscitaram debate, nomeadamente a ligação à Baykar, devido à proximidade da empresa ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o acordo com a Rheinmetall, que levantou dúvidas sobre a autonomia industrial italiana.

A mudança na liderança da empresa acaba também por refletir equilíbrios políticos dentro do governo italiano. O novo presidente executivo da Leonardo, Lorenzo Mariani, era apontado pelo ministro da Defesa, Guido Crosetto, como a escolha preferida para liderar a empresa quando Giorgia Meloni chegou ao poder. No entanto, a primeira-ministra optou, na altura, por nomear Cingolani, uma figura respeitada no Executivo de Mario Draghi e antigo responsável tecnológico da própria Leonardo.