Quando confrontada sobre se os navios são locais onde o contágio de vírus é mais fácil, a especialista em Medicina do Viajante Andreia Castro diz que é difícil dar uma resposta direta, até porque depende sempre da “comparação com algum outro tipo de ambiente”.
Se compararmos com um avião, por exemplo, a especialista aponta para os diferentes tipos de filtros que existem em cada um destes meios. “Ao falarmos de aviões, falamos de algumas horas em que há um contacto próximo entre os passageiros. Mas os aviões têm, na sua circulação, uns filtros — os filtros HEPA — que facilitam a filtragem de microorganismos de forma altamente eficiente”.
Ou seja, “apesar de o mesmo ar estar em circulação, está a ser devidamente filtrado, por isso a disseminação de algo [como um vírus] é muito mais difícil”. O mesmo não acontece num navio — ou pelo menos não com a “mesma facilidade”. No entanto, destaca a médica, algumas empresas já estão a instalar estes filtros nos seus navios.
Mas há ainda um outro pormenor: “Nos cruzeiros, as pessoas estão sempre em circulação, a subir ou descer pisos, as pessoas às vezes fazem muitos quilómetros dentro de um navio e nem sabem”. Por outro lado, nos aviões, os passageiros não se mexem com tanta facilidade, pelo que se torna mais difícil disseminar qualquer vírus.
Sobre o protocolo que existem nos cruzeiros em caso de doença, a médica começa por explicar que “todos os cruzeiros, hoje em dia, têm uma clínica médica no interior em permanência, com uma equipa de enfermagem e uma equipa médica“. Esta clínica “dá resposta à maioria das situações”, garante a especialista, salientando que o espaço inclui salas de observação e permite, por exemplo, fazer análises, raio-X e até ecografias.
“Quando acontece algo a bordo, normalmente faz-se uma chamada da cabine (ou de um espaço comum) e é ativado um dos enfermeiros, caso a pessoa não vá diretamente à clínica. A seguir, um enfermeiro vai ter com o passageiro e, se necessário, ativa-se depois a equipa médica.” Segundo a especialista, uma de duas situações podem registar-se. Pode haver “uma situação aguda que se resolve no momento, como por exemplo uma queda com fratura”. Andreia Castro explica que situações deste género resolvem-se frequentemente “no navio ou, caso não seja possível, a pessoa sai na paragem seguinte ou é retirada de helicóptero”.
Por outro lado, pode também registar-se “uma situação mais progressiva, em que a pessoa se sente um pouco doente, com mal estar, febre, diarreia, vómitos, etc. E é feita observação depois dá-se medicação e, para certas situações, é recomendado isolamento na cabine, para se evitar um risco de contágio”. Se a pessoa doente estiver a partilhar a cabine (por exemplo com o companheiro), “muitas vezes as duas pessoas ficam juntas”.
Seja como for, Andreia Castro garante que em casos de isolamento — como se verificou no caso do hantavírus detetado no navio MV Hondius — “a equipa médica vai sempre acompanhando a situação e, inclusivamente, tem fatos de proteção individual e algum grau de segurança para entrar no quarto”. Contudo, isto pode não se verificar em casos excecionais. Tudo depende das situações, até porque “ninguém espera que haja [num navio] um vírus com mortalidade de 40% [como o hantavírus] não é algo que acontece todos os dias”.
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