O recente surto de hantavírus no navio MV Hondius e os casos de norovírus em dois cruzeiros distintos levantaram questões sobre a segurança das viagens de cruzeiro e a transmissão de doenças a bordo. Mas, afinal, quão comum é e porque acontece?

Petros Giannakouris/AP
A bordo do MV Hondius seguiam 147 pessoas – entre passageiros e tripulação. O navio cruzeiro partiu da Argentina a 1 de abril rumo à Antártica, mas um surto de hantavírus obrigou a interromper a viagem mais cedo do que o esperado.
Durante mais de uma semana, o mundo esteve de olhos postos no navio e na operação de segurança montada para o desembarque dos passageiros. Enquanto isso, surgiam notícias de outros dois surtos – desta vez de norovírus – num cruzeiro nas Bahamas e noutro em Bordéus.
Mas, afinal, quão comum é a transmissão de doenças a bordo de um navio e por que razão acontece?
O surto de hantavírus no MV Hondius é o primeiro deste tipo registado num navio cruzeiro – embora os hantavírus estejam identificados há mais de cinco décadas -, mas episódios de transmissão de outras doenças contagiosas são relativamente comuns em viagens de cruzeiro.
Passageiros do MV Hondius abandonam o navio com fatos de proteção e máscaras durante a operação de desembarque em Tenerife, nas Canárias.
Borja Suarez
O Centro de Controlo de Doenças (CDC) norte-americano explica que a maioria dos surtos detetados em navios cruzeiro são referentes a gastroenterites com origem viral. É, precisamente, o caso do norovírus.
Falamos de um vírus altamente contagioso que provoca quadros de gastroenterite aguda, com episódios de diarreia, náuseas e vómitos, dor abdominal e febre. A transmissão ocorre através do consumo de água ou alimentos contaminados ou por via fecal-oral, isto é, por contacto direto através de superfícies e objetos contaminados.
Segundo um estudo publicado na revista científica ScienceDirect, o norovírus é responsável por cerca de 90% dos surtos de gastroenterite em navios de cruzeiro.
Isto acontece, sobretudo, por se tratar de um ambiente fechado onde há contacto próximo com outras pessoas durante um período de tempo prolongado. Falamos de centenas, senão milhares de passageiros, a partilharem zonas de refeição e espaços de lazer.
Serviço de buffet num navio cruzeiro
Jeff Greenberg/GETTY
“Os momentos das refeições, em estilo de buffet, com utensílios partilhados e muitas pessoas a tocarem nas mesmas superfícies, torna mais fácil o contágio”, explica o especialista em saúde pública Vikram Niranjan, da Universidade de Limerick.
Em 2025, o CDC identificou 18 surtos de norovírus em viagens de cruzeiro com partida ou paragem nos Estados Unidos. Um dos casos mais mediático foi o do Navigator of the Seas, um cruzeiro da Royal Caribbean onde mais de 140 pessoas foram afetadas.
Navigator of the Seas
Joe Hendrickson / GETTY IMAGES
Importa sublinhar que, apesar disto, surtos de norovírus também são comuns em terra – em restaurantes, hotéis, escolas e até estabelecimentos de saúde. O Reino Unido, por exemplo, registou neste último inverno uma média de 1.000 internamentos por dia relacionados com casos de norovírus.
Vou viajar num cruzeiro: o que devo fazer?
Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde disponibiliza a consulta do viajante, onde são fornecidas informações de medidas a adotar antes, durante e depois da viagem, “em função do destino e de quem viaja”, explica a DGS.
Deve ser marcada um a dois meses antes da viagem e inclui aconselhamento sobre vacinação, medicação e cuidados a ter, por exemplo, com o consumo de água e alimentos.
Além da consulta do viajante, deve também seguir as recomendações de etiqueta respiratória: cobrir o nariz e a boca ao tossir e espirrar, utilizar máscara em locais muito frequentados, lavar ou desinfetar as mãos frequentemente, limpar e desinfetar equipamentos e superfícies e, sempre que possível, arejar e ventilar espaços.