Talentoso desde jovem, é considerado um produto de Santa Maria da Feira. O natural da Figueira da Foz abraçou o projeto e lá subiu a profissional em 2020. Em ano e meio, mesmo ao serviço de líderes, destacou-se pelo trabalho, comandando pelotões, sendo requisitado pela Glassdrive-Q8-Anicolor. Lá, teve poucas chances de liderar face ao plantel que teve, por exemplo, o título e ainda o segundo e o terceiro postos na Volta a Portugal. Na ABTF-Betão Feirense, foi o escudeiro de António Carvalho para o terceiro posto na Volta a Portugal de 2023. “O meu menino de ouro”, elogiava, Carvalho, projetando o futuro promissor do jovem.

Mas o regresso a Santa Maria da Feira tinha voos maiores à espreita. O sétimo lugar na Corrida da Paz, o quinto em Ordizia e o segundo na Prova de Abertura despertaram curiosidade dos olheiros. Saiu com um top-5 das Astúrias em 2023, foi segundo no Troféu Joaquim Agostinho e entrou na Volta a Portugal com a convicção de que iria para o estrangeiro. Mas foi na Volta que fez o país acreditar numa vitória portuguesa. Comandou desde o final da etapa da Torre, onde foi segundo, até à Senhora da Graça, em Mondim de Basto. Nessa 9.ª etapa, viu ataques de todo o lado, até do anterior vencedor da prova, Colin Stussi, em 2023. Seria a Sabgal/Anicolor, por Nych, a dar o golpe de misericórdia nas ambições do jovem português, mas Eulálio impressionou pela fibra. Chegou exausto, mas a solo foi à procura dos rivais, tentando, por tudo, manter a amarela. O desgaste pesou no contrarrelógio de Viseu e caiu de sexto a décimo.

Aos 22 anos conseguiu dar o salto, pouco comum atualmente. As equipas World Tour preferem jovens sub-19 e Eulálio passou do terceiro escalão para uma equipa profissional na primeira divisão. E a ambição sempre foi essa, tendo até um treinador estrangeiro. Assume-se como trepador, mas, particularmente, para provas íngremes. Nunca foi líder efetivo da equipa em provas de uma semana, mas é para lá que aponta na Bahrain, além de clássicas mais onduladas.

É tido como um jovem com imenso talento e, em Portugal, tanto se elogiava a sua coragem a correr como se apontava alguma rebeldia em certos momentos, onde a estratégia devia imperar. A viver essa mesma dualidade, mas com mais maturidade, Eulálio corre com a camisola rosa e vai testar-se ao mais alto nível em montanhas onde ainda teve oportunidade e num contrarrelógio de 42 km na etapa 10 que é, até, mais difícil à partida do que dias com colinas. Liderar a prova não surpreende quem o conhece bem, não só pelo potencial, mas por ter o “descaramento” de atacar de longe e de procurar fugas.

Portugal deve estar atento. A seleção já está. Depois do top-6 na Grã-Bretanha, Eulálio foi aos Mundiais do Ruanda ser nono classificado. Um grande resultado para a prova em linha tendo em conta ser o primeiro ano de World Tour. Explosivo, atacante, é a sonhar com uma clássica ou com um grande Mundial que Portugal pode contar. Com as devidas distâncias para Rui Costa, que, quando foi campeão do mundo, já tinha um enorme palmarés em provas de um dia e de uma semana. Sem contrato ainda para 2027, tem uma oportunidade de ouro para se mostrar. João Almeida quando andou de rosa em 2020, durante 14 dias, já tinha feito quatro top-10 em provas por etapas. Como tal, não seria um líder tão inesperado quanto Eulálio é hoje. Tem a palavra o jovem da Figueira da Foz.