O investigador Leonardo Cotts, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, liderou um estudo no qual é documentado, pela primeira vez, um caso de leucismo nos jacarés-de-papo-amarelo (Caiman latirostris).

Nativa da América do Sul, ocorrendo no Brasil, Uruguai, Bolívia, Argentina e Paraguai, a espécie, da ordem Crocodylia, é caracterizada por uma coloração verde-acastanhada e ventre amarelado, daí o seu nome vulgar. Até agora, não existiam quaisquer registos de anomalias cromáticas nesta espécie.

Num artigo publicado recentemente na revista ‘Amphibia-Reptilia’, liderado por Cotts, é apresentada a primeira descrição de um jacará-de-papo-amarelo com uma condição genética rara que resulta na perda parcial de pigmentação, e que confere ao animal uma coloração esbranquiçada.

O cientista explica que, ao contrário do albinismo, em que há ausência total de pigmentos por todo o corpo do animal, “o leucismo pode apresentar ausência em algumas regiões, mas pigmentos presentes e em níveis muito baixos em outras”.

Leonardo Cotts, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Nas fotografias partilhadas pelo CE3C, o jacaré, uma fêmea ainda jovem, apresenta olhos escuros. Se fosse realmente albino, seriam avermelhados devido à falta de pigmentação na íris, que torná-la-ia translúcida, permitindo ver os vasos sanguíneos na região da retina. A jovem fêmea foi encontrada numa estação de tratamento de águas residuais de Balneário Camboriú, no estado de Santa Catarina no Brasil, e posteriormente foi encaminhada para o Zoológico de Balneário Camboriú.

Além de ser o primeiro caso de um jacaré-de-papo-amarelo com leucismo, é também apenas o terceiro a nível mundial a ser registado no género Caiman.

Os autores do artigo dizem que a ausência de registos anteriores de leucismo em jacarés-de-papo-amarelo pode ser explicada pela reduzida taxa de sobrevivência de indivíduos em estado selvagem com esta condição genética. Explicam os cientistas que “a coloração clara pode aumentar a vulnerabilidade à predação, dificultar a reprodução e conduzir à exclusão social”.

No mesmo estudo, reflete-se sobre a ocorrência de alterações cromáticas brancas em indivíduos da ordem Crocodylia ao longo do tempo, incluindo casos de albinismo, leucismo e

Neste estudo, os autores discutem a ocorrência de alterações cromáticas brancas em indivíduos da ordem Crocodylia ao longo do tempo, incluindo casos de albinismo, leucismo e piebaldismo noutras espécies, como o aligátor-americano (Alligator mississippiensis).

Indicadores da saúde dos ecossistemas

A equipa afirma que, ainda que sejam raras, estas condições têm sido associadas a fatores genéticos e ambientais, como a poluição, a fragmentação de habitat e o isolamento populacional, pelo que têm o potencial de serem utilizadas como bioindicadores.

A presença de indivíduos com pigmentação anómala, como este jacaré leucístico, tem sido observada em áreas sujeitas a uma forte pressão humana, o que sugere uma possível ligação entre o stress ambiental e as alterações genéticas. No caso agora descrito, o facto de o animal ter sido encontrado num ambiente urbano reforça esta hipótese, acreditam os cientistas.

Como tal, o estudo defende a importância de monitorizar sistematicamente a ocorrência deste tipo de animais com alterações na cor, especialmente em espécies que coexistem em ambientes antropogénicos. Registar estes casos pode, consideram os investigadores, ajudar a identificar sinais precoces sobre o estado de saúde dos ecossistemas e compreender melhor como as atividades humanas estão a afetar a biodiversidade.

“Os animais com colorações anómalas registados podem servir como bioindicadores de alterações ambientais, indicando regiões potencialmente impactadas ajudando-nos em investigações de diferentes perfis, principalmente ecológicas e conservacionistas”, conclui Leonardo Cotts.

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