De baixas catastróficas na frente de combate a um descontentamento popular impossível de abafar, a máquina de guerra da Rússia está a mostrar sinais de que não está nas melhores condições. Especialistas e até os mais fervorosos propagandistas do regime admitem que o presidente russo está sem opções

Os sinais de insatisfação começam a multiplicar-se em Moscovo. Quando uma influencer com 13 milhões de seguidores fez um vídeo a falar da frustração popular, os alarmes começaram a soar no Kremlin. E o pior é que esta jovem não está sozinha. Para dezenas de milhões de russos a guerra deixou de ser um evento televisivo e passou a ser uma realidade diária. Os apagões de internet impostos pelo regime estão mesmo a acontecer, a inflação tornou-se impossível de mascarar e os ataques de drones ucranianos de longo alcance desfizeram o mito da supremacia militar russa. Algo está a mudar na Rússia de Putin e os especialistas alertam que esta espiral de desgaste pode colocar em causa a própria sobrevivência do regime, encurralando o presidente.

“Há uma palavra alemã que define bem a situação de Vladimir Putin: Zugzwang. É uma expressão utilizada no xadrez que significa que o jogador tem de jogar mas não tem boas opções para o fazer. Todas as opções de mexer as peças de Putin são más. Vladimir Putin mostrou ao mundo que o seu regime é vulnerável”, analisa Manuel Serrano, especialista em Assuntos Europeus.

Os sinais da fragilidade do regime de Putin estão a aparecer de onde menos se espera e o caso de Ilya Remeslo é prova disso. Durante uma década, este advogado foi um dos braços armados do regime na perseguição a Alexei Navalny, mas tudo mudou abruptamente em março, quando Remeslo exigiu publicamente a demissão de Putin, apelidando-o de “criminoso de guerra e ladrão”. O que aconteceu a seguir foi um desvio insólito para um país habituado a uma das mais eficientes máquinas de repressão. Após ser internado à força num hospital psiquiátrico, Remeslo foi libertado em apenas 30 dias, beneficiando do que parece ser “um conflito aberto” entre dois dos grupos mais poderosos do aparelho russo.

Numa entrevista ao jornal Washington Post, o advogado admite que existe “uma grande batalha pelo poder” que opõe o aparelho de segurança, liderado pelo todo poderoso FSB, e a própria administração. “A dimensão da insatisfação é colossal. Tenho a impressão de que parte do sistema já está a começar a virar-se contra Putin”, afirmou o advogado, após ser libertado.

De um lado, a ala dura dos serviços de segurança e os ultranacionalistas exigem mais do regime, com uma nova mobilização militar e civil, a repressão implacável de qualquer dissidência e um esforço renovado para conquistar, de uma vez por todas, toda a região do Donbass. Do lado oposto estão os tecnocratas da administração presidencial, liderados por Sergei Kiriyenko, que tentam a todo o custo travar um desastre económico que pode agravar ainda mais as perspectivas russas na guerra, mas também no palco internacional.

E os números dão razão a esta fação pragmática. Esta semana, o Ministério do Desenvolvimento Económico reviu em baixa as perspetivas de crescimento, afundando-as de 1,3% para uns anémicos 0,4%, e isto apesar dos preços elevados do barril de petróleo. Em simultâneo, a inflação teima em não descer dos 5,4%, furando a meta de 4% definida pelo governo. Tudo isto acontece enquanto milhares de empresas desesperam para cumprir as suas obrigações financeiras, esmagadas pelas elevadas taxas de juro de 14,5% impostas pelo Banco Central da Rússia. O cenário é tão crítico que o próprio vice-primeiro-ministro, Alexander Novak, admitiu publicamente que a degradação da economia se deve à escassez de mão de obra – sugada para a linha da frente -, aos gastos excessivos da máquina de guerra e ao peso das sanções ocidentais.

“Chega a um momento em que a decadência é tão grande que chega a ser difícil de esconder. Nada disto que está a acontecer seria possível sem a posição da Rússia ser altamente frágil. Os russos estão muito piores do que estavam antes da guerra”, refere Manuel Serrano.

A uma fragilidade económica cada vez mais difícil de esconder soma-se agora um cenário complicado na linha da frente. Desde que o acesso das tropas russas aos terminais de internet por satélite Starlink foi cortado, a Ucrânia conseguiu estabelecer um domínio tecnológico sobre o campo de batalha. O uso maciço e coordenado de drones criou uma “zona de morte” que bloqueou os avanços de Moscovo, fazendo disparar as baixas diárias e consumindo quase toda a capacidade mensal de recrutamento da Rússia, atirando o exército para um massacre lento e sem vitórias táticas.

A dimensão das perdas russas tem vindo a intensificar o criticismo, num grupo que não costumava ser conhecido por protestar. Uma investigação dos meios independentes russos Mediazona e Meduza, que cruzou o registo nacional de heranças com processos judiciais, concluiu que 352 mil soldados russos morreram em combate desde o início da invasão. Cerca de 90 mil destes militares foram declarados mortos pelos tribunais sem que o corpo tivesse sido recuperado ou devolvido às famílias.

Esta realidade está a fazer com que as críticas comecem a surgir até entre aqueles que mais defenderam a decisão de Vladimir Putin de invadir a Ucrânia. Os chamados “Z-bloggers”, seguidos por milhões de russos no Telegram, estão a adotar um tom cada vez mais crítico perante a diferença de capacidades no terreno. Rybar, o mais influente analista militar russo, admitiu recentemente o fim dos assaltos mecanizados com tanques e alertou que a Rússia está a perder todo o progresso feito no último ano na região de Zaporizhzhia, uma das quatro anexadas num referendo não reconhecido internacionalmente. O motivo é a superioridade dos drones ucranianos e dos seus operadores. Pior do que isso, Rybar confessa que, neste momento, mesmo que as tropas de Moscovo consigam avançar, “isso não mudaria nada”.

Mas está longe de ser o único da linha dura que partilha esta opinião. Alexei Larkin, um conhecido blogger que passou anos a defender de forma ferrenha a guerra, descreve agora cenários onde “drones-mãe” ucranianos, guiados por Inteligência Artificial, sobrevoam posições russas para largar enxames de pequenos drones FPV que atingem indiscriminadamente as posições russas. Nikita Tretyakov, que combateu na Ucrânia, escreveu um desabafo sombrio no aniversário do Dia da Vitória onde se queixava de que os novos drones de médio alcance estão a “sugar o sangue” às tropas russas através de “assaltos irreversíveis” nas suas linhas logísticas. Tretyakov assume que a Rússia continua a ficar para trás na corrida armamentista e admite, sem rodeios, que o exército não tem qualquer hipótese de vitória nestas condições.

Mas para Moscovo, o problema é que a guerra já não está confinada ao território ucraniano. A Ucrânia fez questão de “levar a guerra até à Rússia”, numa estratégia calculada para estrangular a indústria que suporta a máquina de guerra. Quase todos os dias surgem notícias de um novo ataque a cidades russas, infraestruturas críticas e os vitais pontos de exportação petrolífera. Para o blogger Yevgeny Golman, a realidade é revoltante. Os ucranianos “estão a voar dois mil quilómetros” para dentro do território russo, enquanto no interior do país “reina a incompetência”.”Eles estão a ultrapassar-nos. Estamos lixados, é tudo fumo e espelhos”, atira o blogger, que admite que já nem a região dos Urais está a salvo das capacidades de longo alcance ucranianas.

“No início, para a maior parte da população russa, a guerra era longínqua. Era uma operação militar especial lá ao longe. Agora, isso deixou de ser verdade com os ataques ucranianos que atingem quase todo o país. E o facto de esses ataques terem obrigado as autoridades a restringir a internet impactou ainda mais. Além disso, a economia começa a sentir bem o efeito da guerra. Os impactos da guerra tornaram-se nacionais”, relembra Manuel Serrano.

Perante este cerco total, económico, militar e tecnológico, a inação do Kremlin está a exasperar até os seus mais fiéis apoiantes. Como ironiza Larkin, perante um inimigo que inova diariamente, o comandante-em-chefe russo reage “prendendo engenheiros, banindo a internet e pedindo aos ucranianos que o deixem fazer um desfile” sem sobressaltos, chegando ao ponto de precisar de norte-coreanos para reconquistar a região de Kursk.

E é precisamente neste turbilhão de contestação que Vladimir Putin chega a um inevitável Zugzwang. Sem vitórias para apresentar à sua elite ou à população, as opções do líder russo esgotam-se nas respostas mais perigosas. Como alerta Manuel Serrano, “os ditadores caem muitas vezes quando menos se espera”, mas a reação a esta fragilidade passa quase sempre por recorrer àquelas que são “as ferramentas mais comuns dos ditadores”, apertando com a população “através de repressão” e ocupando as elites começando “outras guerras”. Segundo esta receita, o especialista antecipa que o cenário mais provável é que Putin decida “reprimir mais internamente e escalar a guerra na Ucrânia”.