Os moinhos tradicionais surgem no imaginário coletivo como ruínas pitorescas ou vestígios de um mundo desaparecido. O seu trabalho propõe uma leitura muito mais complexa: a de estruturas integradas em sistemas ecológicos, sociais e produtivos. O que é que estes engenhos ainda revelam sobre a forma como as comunidades aprenderam historicamente a habitar os rios e a negociar com o território?

Os moinhos e as infraestruturas hidráulicas tradicionais associadas, como açudes, levadas, canais, caldeiras, pesqueiras, passadeiras, portos ou pequenos dispositivos de regulação da água, não devem ser entendidos apenas como “ruínas pitorescas” ou “vestígios do passado” sem qualquer utilidade. Essa é uma visão redutora sobre estruturas com séculos de diálogo permanente com as dinâmicas hidrográficas do rio. Acho que devem ser entendidos como um livro aberto para o conhecimento sobre como devemos gerir os recursos hídricos, habitar os rios e adaptarmo-nos às condições ecológicas de cada território.

No caso do Vale do Guadiana, este aspeto torna-se particularmente importante porque estamos perante um território marcado por longos períodos de escassez hídrica, estiagens severas, cursos de água intermitentes, influência das marés e episódios de cheias de grande intensidade, por vezes violentas e destrutivas. Construir, manter e operar moinhos neste contexto exigia um conhecimento profundo sobre o comportamento do rio, das margens, dos leitos, das correntes, dos ciclos sazonais, e sobretudo sobre a gestão do recurso hídrico em diferentes dimensões: social, industrial, energética, agrícola, ecológica, náutica, piscatória, entre outras. 

É esse conhecimento, inscrito na arquitetura, na implantação, nos dispositivos hidráulicos e na paisagem, que nos interessa estudar. Não para repetir o passado de forma nostálgica, mas para compreendermos como estas estruturas podem informar problemas atuais de gestão hidrográfica, conservação da biodiversidade, valorização patrimonial e requalificação das paisagens ribeirinhas.

Em Mértola, a paisagem molinológica nasce da relação com o Guadiana e com as ribeiras afluentes, num território marcado pela escassez hídrica e pela dureza climática. O que distingue os sistemas de moagem do sul do país face a outras geografias portuguesas? Existe uma “cultura da água” especificamente alentejana inscrita nestes moinhos?

Os moinhos hidráulicos tradicionais, em Portugal como no resto da Europa, são o resultado de uma contínua adaptação da atividade humana ao contexto hidrográfico, climático, geológico e cultural de cada território. Os moinhos do Norte, do Centro, do Sul, do Litoral ou do Interior não são iguais porque os rios são organismos dinâmicos com características particulares em cada região. Cada moinho resulta de uma adaptação precisa a um determinado rio, a uma determinada paisagem e a uma determinada economia local.

Importa também sublinhar que, embora associemos imediatamente os moinhos à moagem de cereais, o universo molinológico é muito mais amplo. As estruturas hidráulicas tradicionais estiveram ligadas a múltiplas atividades protoindustriais, como por exemplo a moagem de cereais, o têxtil [lã, linho ou seda], a serração de madeira, a produção de azeite, o fabrico de papel, o descasque de arroz, a metalurgia, a serração de pedra, entre muitas outras. Por isso, quando falamos de moinhos, não falamos apenas de pequenos edifícios rurais. Falamos de tecnologia produtiva, de arquitetura especializada e de sistemas territoriais de gestão hidrográfica.

Moinho submergível do Guadiana.

Moinho submergível do Guadiana.
Créditos: Bruno Matos

E no Vale do Guadiana, como se manifesta essa especificidade?

No Vale do Guadiana, essa especificidade é particularmente expressiva. Os moinhos implantados no grande rio do Sul e nas suas ribeiras afluentes respondem a condições muito distintas das que encontramos, por exemplo, nos rios de caudal mais regular do Norte Atlântico. Aqui, a água é simultaneamente escassa e excessiva. Durante uma parte significativa do ano pode faltar; noutros momentos, pode adquirir uma força torrencial. Esta alternância obrigou à criação de dispositivos hidráulicos muito particulares: açudes adaptados ao leito rochoso, canais de derivação, albufeiras, caldeiras, levadas, golas, passadeiras, pesqueiras, portos e outros elementos que permitiam captar, reter, conduzir, dissipar ou atravessar a água.

Cada moinho resulta de uma adaptação precisa a um determinado rio, a uma determinada paisagem e a uma determinada economia local.

É neste sentido que podemos falar de uma verdadeira “cultura da água” no Baixo Guadiana. Uma cultura construída ao longo de séculos, com raízes profundas no mundo romano, islâmico, medieval e moderno, e que permaneceu ativa durante grande parte da história da monarquia portuguesa. Esta “cultura” não se expressa apenas nos edifícios, mas também nos modos de uso, nas técnicas de construção, nos direitos da água, nos percursos, nas práticas agrícolas, nas formas de circulação e na vida ribeirinha. Os moinhos são, por isso, muito mais do que estruturas produtivas: são marcas de uma inteligência territorial que soube transformar a dificuldade climática em resiliência, a escassez em gestão e o rio em eixo de vida comunitária.

O Festival Terras sem Sombra agenda para sábado, 16 de maio (15h00), a visita guiada “Engenhos, Memórias, Paisagens: Os Moinhos de Mértola”, com ponto de encontro na Achada de São Sebastião (Parque de Estacionamento da Estrutura Residencial, Santa Casa da Misericórdia) e orientação do arquiteto e investigador Bruno Matos.

No concelho, destaca-se o moinho do Alferes, na Ribeira do Vascão, ativo até à década de 1960 e hoje reconvertido para fins de sensibilização ambiental, ilustrando a transição de função destes engenhos. Já o moinho de São Miguel preserva a dimensão viva deste património, mantendo práticas artesanais de moagem e produção de pão ainda enraizadas no quotidiano local.

Grande parte do discurso contemporâneo sobre sustentabilidade apresenta-se como descoberta recente, mas muitos destes sistemas tradicionais assentavam já numa lógica de adaptação ao meio, gestão de recursos e equilíbrio ecológico. O que poderá a contemporaneidade aprender com este património sem cair numa visão romantizada do passado?

A história das civilizações é marcada por processos de continuidade, transformação e reinvenção cultural. A sustentabilidade foi durante muitos séculos uma questão de sobrevivência, equilíbrio e adaptabilidade. Eu até hoje ainda não encontrei uma pessoa mais sustentável do que a minha avó materna, que viveu até aos 90 anos e tinha uma horta, galinhas, coelhos e controlava de forma exemplar os ciclos de produção, separava o lixo orgânico e reutilizava-o para alimento dos animais e compostagem, tinha um poço sempre com água, carne, ovos, legumes, frutos. Tinha um fogão a lenha e apanhava o combustível na floresta durante o verão. O dinheiro da sua reforma era basicamente para mercearia, medicamentos e manutenção da casa.

Qual é a lição que tiramos destes exemplos?

Considero isto um exemplo de sustentabilidade. A chave do problema é saber tirar o melhor partido destes ensinamentos para os integrar nas exigências da vida quotidiana, reduzindo assim os impactos e a nossa pegada no planeta. Gosto, neste contexto, de recordar a expressão do arquiteto Fernando Távora: é necessário “continuar inovando”. “Continuar” porque temos muito a aprender com o nosso passado em muitos aspetos da vida, mas em particular na gestão sustentável dos recursos naturais. 

Moinho de São Marçal, em Famalicão.

Moinho de São Marçal, em Famalicão.
Créditos: Bruno Matos

A lição não é regressar ao passado. A lição é recuperar conhecimentos que podem ser uteis para os problemas atuais de gestão hidrográfica, ecológica e cultural dos nossos rios. A sustentabilidade contemporânea não deve ser apenas tecnológica; deve ser também cultural. E estes moinhos recordam-nos que a inovação mais consistente é muitas vezes aquela que sabe dialogar com a memória longa dos lugares. É precisamente esta leitura que temos vindo a desenvolver nos projetos de investigação: compreender o património hidráulico tradicional não apenas como objeto arquitetónico ou arqueológico, mas como parte de um sistema territorial, ecológico e paisagístico. Em alguns contextos, estas estruturas podem funcionar como pequenas infraestruturas de retenção de água, como refúgios ecológicos em períodos de estiagem ou como elementos relevantes para a heterogeneidade dos habitats fluviais. Noutros casos, podem constituir obstáculos à conectividade ecológica e exigir soluções de adaptação. O essencial é que cada caso seja estudado de forma rigorosa, interdisciplinar e contextualizada.

Até hoje ainda não encontrei uma pessoa mais sustentável do que a minha avó materna, que viveu até aos 90 anos e tinha uma horta, galinhas, coelhos e controlava de forma exemplar os ciclos de produção, separava o lixo orgânico e reutilizava-o para alimento dos animais e compostagem.

Tem defendido que a reabilitação ecológica dos rios não pode ignorar a memória humana das paisagens. Num tempo em que a conservação tende, por vezes, a separar natureza e presença humana, como se evita transformar o património molinológico em mera peça museológica ou, no extremo oposto, apagar completamente a sua existência?

Essa é uma questão central. Durante muito tempo, a conservação da natureza e a salvaguarda do património cultural foram tratadas como campos separados, por vezes até em oposição. De um lado, a ideia de restaurar os rios a um estado supostamente “natural”; do outro, a preocupação em preservar construções, ruínas ou estruturas desativadas. Mas nas paisagens fluviais tradicionais, especialmente em territórios como o Vale do Guadiana, esta separação pode trazer consequências irreparáveis para ambas as partes.

Os rios que hoje observamos são também paisagens culturais. Os moinhos, açudes, levadas, pesqueiras, portos, passadeiras e espaços termais fazem parte desse “caldo” cultural. Não são elementos desintegrados da paisagem, nem tão pouco do recurso hídrico. Em muitos casos ainda participam na gestão da água, embora aparentemente não pareça. Fazem parte da formação da paisagem, da memória da região e, em muitos casos, da própria dinâmica ecológica do rio.

Mas também não podemos cair no extremo oposto: apagar estas estruturas em nome de uma ideia abstrata de “renaturalização”. A remoção de barreiras ou a reabilitação ecológica dos rios pode ser necessária em muitos contextos, sobretudo quando existem impactos severos sobre a conectividade fluvial ou sobre as espécies migradoras. No entanto, essa decisão deve resultar de uma avaliação caso a caso, baseada numa análise técnica sobre a estrutura e as dinâmicas fluviais, e não devemos cair no erro de generalizar a solução que, em muitos casos, significa tábua rasa.

Os rios que hoje observamos são também paisagens culturais. Os moinhos, açudes, levadas, pesqueiras, portos, passadeiras e espaços termais fazem parte desse ‘caldo’ cultural.

Nesse sentido, que abordagem defendem para que a intervenção no património molinológico esteja em linha com o que acaba de referir?

O que temos defendido é uma abordagem interdisciplinar. Antes de intervir, é necessário compreender o valor arquitetónico, histórico, arqueológico, hidráulico, ecológico e paisagístico de cada estrutura. Algumas poderão justificar conservação integral; outras poderão admitir adaptação; outras, eventualmente, poderão ser objeto de remoção parcial ou de soluções híbridas que compatibilizem conectividade ecológica, memória histórica e leitura da paisagem.

A ideia principal é reintegrar o património em vez de o remover ou apagar. E nessa matéria a disciplina da arquitetura é fundamental para imaginar novos programas de visitação e interpretação, monitorização ecológica, educação ambiental, envolvimento das comunidades locais, recuperação de percursos ribeirinhos ou projetos demonstrativos de adaptação climática.

O objetivo não é transformar cada moinho num museu fechado, mas integrá-lo numa narrativa viva sobre o rio, a água, a biodiversidade, a história e o futuro do território. E, no caso dos moinhos de Mértola e do Baixo Guadiana, essas relações cruzam natureza e cultura de uma forma tão profunda que qualquer intervenção que ignore uma destas dimensões ficará sempre incompleta.

Arquiteto Bruno Matos.

Arquiteto Bruno Matos.
Créditos: Joana Couto

Mértola é um território onde diferentes camadas históricas – islâmicas, mediterrânicas, rurais e mineiras – permanecem ainda muito visíveis. De que forma os moinhos ajudam também a compreender a longa duração histórica deste lugar e a relação entre circulação, subsistência e organização comunitária ao longo dos séculos?

Mértola é um território extraordinário precisamente porque conserva, de forma muito expressiva, a sua relação histórica com o Guadiana. Os moinhos são o testemunho mais evidente dessa relação. Ajudam-nos a compreender como a ocupação do território acompanhou os diferentes períodos históricos e, sobretudo, como a atividade socioeconómica colocou sempre o rio no centro do desenvolvimento da região. A protoindústria, em especial a moagem, ou a pesca eram atividades essenciais à alimentação das comunidades, articuladas com a produção cerealífera, os ciclos agrícolas e a economia rural. Os moinhos localizavam-se em pontos estratégicos do rio e das ribeiras, muitas vezes associados a travessias, caminhos, portos fluviais e redes de contacto entre margens e povoações. Este modelo remete para uma organização comunitária, porque a gestão da água: nos ciclos sazonais, ou seja, água de verão, água de inverno e vento; na intercomunicação entre margens nas relações transversais –travessias em barca ou a vau –; na interconetividade fluvial entre os açudes, de jusante para montante, na retenção, conservação e distribuição da água; implicou, ao longo dos séculos, regras, direitos, conflitos, cooperação e formas de administração local.

Por isso, quando estudamos os moinhos de Mértola, não estamos apenas a estudar edifícios em ruína. Estamos a ler uma paisagem histórica em movimento, adaptada continuamente ao contexto local. E é justamente essa leitura integrada que pode devolver atualidade a este património porque permite compreender o passado, mas também imaginar novas formas de relação entre a comunidade, o rio, os ecossistemas e o território.

Num tempo em que Mértola se afirma pela valorização do seu património arqueológico, cultural e natural, os moinhos acrescentam uma nova dimensão: a simbiose entre o património e natureza. Mostram que a história deste lugar não está apenas nos monumentos ou nos grandes acontecimentos, mas também nas infraestruturas discretas que sustentaram a vida quotidiana, a circulação, a alimentação, a energia e a relação profunda das comunidades com o Guadiana.