Em 1907, Pablo Picasso reuniu um pequeno grupo de artistas e amigos em seu ateliê, em Paris, para mostrar uma nova pintura na qual trabalhava havia cerca de seis meses. A reação foi, em grande parte, de espanto e rejeição. O pintor francês Georges Braque teria comparado a experiência a beber gasolina, enquanto Henri Matisse chamou as figuras retratadas de “horríveis”. A obra, recebida com choque e repulsa, só seria exibida publicamente em 1916.

Mais de um século depois, essa mesma pintura se consolidou como uma das obras mais reconhecidas e controversas da arte moderna: “Les Demoiselles d’Avignon”. Ao mesmo tempo em que se tornou símbolo de ruptura estética e marco do nascimento do cubismo, ela também passou a ser revisitada sob novos olhares, especialmente em debates sobre influência africana, apropriação cultural e representação feminina.

A tela mostra cinco mulheres nuas em um bordel de Barcelona, posicionadas de forma a confrontar diretamente o espectador. Três delas encaram quem observa, enquanto duas possuem rostos que lembram máscaras. Seus corpos aparecem irregulares, fragmentados e distorcidos, rompendo com a lógica tradicional da representação anatômica e da perspectiva clássica.

Segundo Joanne Snrech, curadora do Museu Nacional Picasso, a obra representou uma ruptura decisiva na trajetória de Picasso. “Picasso afastou-se da pintura figurativa e emocional, passando a desconstruir as formas e a repensar a maneira como o espaço e os corpos são representados”, disse à BBC. “Essa mudança foi fundamental para o desenvolvimento do Cubismo e da arte moderna em geral.”

Inicialmente, a pintura se chamava “Le Bordel d’Avignon” (“O Bordel de Avignon”), mas o título foi alterado em 1916 para evitar maior controvérsia. O novo nome, “Les Demoiselles d’Avignon” (“As Moças de Avignon”), suavizava a referência explícita ao bordel, embora o caráter provocativo da obra permanecesse intacto.

A pintura é considerada central para o surgimento do cubismo, movimento artístico do século 20 que abandonou formas realistas em favor de estruturas geométricas e fragmentadas. Assim como em “Les Demoiselles d’Avignon”, o cubismo passou a reunir múltiplos pontos de vista de uma pessoa ou objeto em uma única imagem.

“Mesmo para artistas que já estavam experimentando novos estilos, isso pareceu um passo longe demais”, afirmou Joanne Snrech. “Parte do que tornou a reação tão forte é que Picasso não mudou apenas uma coisa: ele mudou tudo de uma vez”.

Picasso e uma de suas obras / Crédito: Getty Images

Apesar da aparência radicalmente inovadora, muitos estudiosos apontam que parte dessa transformação foi profundamente influenciada pela arte africana. Meses antes de pintar a obra, Picasso havia desenvolvido forte interesse por máscaras e esculturas africanas, motivado por uma pequena estatueta originária da atual República Democrática do Congo, adquirida por Matisse em Paris, em 1906.

A partir disso, o artista passou a frequentar regularmente a seção africana do Musée d’Ethnographie du Trocadéro, onde produziu centenas de esboços preparatórios para sua nova pintura.

“O que o impressionou não foi apenas a aparência, mas a forma como funcionavam: os rostos são simplificados, distorcidos, às vezes bastante intensos ou até mesmo perturbadores”, explica Snrech. “Ele foi claramente inspirado por essa abordagem diferente do rosto humano, que lhe permitiu se afastar do naturalismo e se aproximar de algo mais abstrato e confrontador.”

Ainda assim, Picasso ficou conhecido por minimizar essa influência. Em 1920, chegou a dizer a um crítico que preparava uma série sobre arte africana que “nunca tinha ouvido falar disso”. Essa recusa em reconhecer o impacto da arte africana em sua produção alimentou críticas posteriores sobre apropriação cultural.

Os questionamentos se concentram no fato de que o artista se beneficiou diretamente de formas e referências visuais carregadas de significados culturais, religiosos e sociais, sem reconhecer sua origem ou contexto. A crítica também se conecta à visão predominante da época, que tratava a arte africana como algo “primitivo”, desconsiderando sua complexidade e importância.

Cem anos depois, o artista americano Henry Taylor propôs uma nova leitura dessa mesma obra. Em 2007, durante sua primeira exposição individual na Europa, ele criou “Do Congo ao Capitólio, e negro novamente”, uma releitura direta de “Les Demoiselles d’Avignon”, atualmente em exibição no Museu Nacional Picasso, em Paris, na mostra “Henry Taylor: Onde os Pensamentos Provocam”.

Taylor preserva a estrutura central da composição original: cinco mulheres nuas e os dois rostos mascarados. No entanto, ele altera um aspecto fundamental: as figuras, originalmente brancas, agora são negras, tornando explícita a relação entre a obra de Picasso e a arte africana.

Conhecido por explorar a vida negra nos Estados Unidos, Taylor reinterpreta a pintura a partir de sua própria experiência e contexto social. “Henry Taylor não está apenas fazendo referência a Picasso, ele o está questionando e reinterpretando”, afirma Snrech.

“O trabalho de Taylor frequentemente se concentra em pessoas que historicamente foram sub-representadas, dando-lhes presença e individualidade”, diz a curadora. “Quando colocadas juntas, as obras destacam não apenas diferenças artísticas, mas também questões mais amplas sobre poder, influência e de quem são as histórias que estão sendo contadas.”

Além da questão racial, a releitura também levanta discussões sobre a representação feminina. O histórico de Picasso com mulheres e seus relacionamentos turbulentos frequentemente influenciam a leitura crítica de sua obra. O artista teria dito à pintora Françoise Gilot que todas as mulheres são ou “deusas ou capachos” e “máquinas de sofrimento”.

Para alguns críticos, a fragmentação violenta dos corpos femininos em “Les Demoiselles d’Avignon” ultrapassa a experimentação formal e revela uma dimensão mais pessoal e agressiva. “O tema já era provocativo, mas Picasso removeu qualquer traço de suavidade”, diz Snrech.

Na obra de Taylor, embora ainda abstratos, os corpos aparecem menos fragmentados. O resultado, segundo a curadora, é mais impactante do que agressivo.

A figura central de sua pintura apresenta um corte de cabelo curto e assimétrico que remete a Josephine Baker, a primeira mulher negra a alcançar fama mundial como superestrela. Essa referência amplia ainda mais as discussões sobre identidade, raça e representação.

O próprio título da obra também reforça esse diálogo. “Do Congo ao Capitólio, e negro novamente” remete tanto à estatueta congolesa que despertou o interesse de Picasso quanto ao gesto de Taylor de devolver a presença negra à composição.

Além disso, no canto esquerdo da pintura, um braço masculino branco, sem corpo, com um relógio de ouro, toca uma das personagens. O detalhe pode ser uma referência aos dois homens — um marinheiro e um estudante de medicina — que Picasso cogitou incluir na versão original.

Com o passar do tempo, aquilo que provocou escândalo acabou transformando “Les Demoiselles d’Avignon” em um marco da história da arte. O próprio Braque, inicialmente horrorizado, passou a adotar uma linguagem mais angular em suas pinturas. Na década de 1920, o escritor e poeta André Breton passou a defender a obra como revolucionária, convencendo o colecionador francês Jacques Doucet a comprá-la.

Em 1939, o Museu de Arte Moderna de Nova York adquiriu a pintura, consolidando-a como uma peça fundamental da arte moderna. Ela permanece lá até hoje, repercute a BBC.

Mais de cem anos depois, “Les Demoiselles d’Avignon” continua despertando debates intensos. Amada e rejeitada ao mesmo tempo, a obra segue como exemplo de como uma única pintura pode redefinir a história da arte e, ao mesmo tempo, permanecer aberta a novas interpretações e confrontos.


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.