As probabilidades de haver uma disputa pela liderança do Partido Trabalhista e do Governo do Reino Unido aumentaram mais um pouco nesta quinta-feira, depois de Wes Streeting, há muito apontado como candidato ao lugar de Keir Starmer, ter apresentado a demissão do cargo de ministro da Saúde. Ainda assim, o ex-aliado do primeiro-ministro não formaliza, para já, o desafio.

Numa carta enviada a Starmer e publicada nas redes sociais, onde realça o trabalho que fez para melhorar os números e as condições do NHS (serviço nacional de saúde britânico), Streeting diz que “perdeu a confiança na liderança” do chefe do executivo e que, por isso mesmo, “seria desonroso e sem princípios” permanecer no cargo.

Argumentando que lhe parece “claro” que o primeiro-ministro “não vai liderar o Partido Trabalhista nas próximas eleições”, previstas para 2029, e sublinhando que os deputados e os sindicatos afiliados ao Labour “querem que o debate sobre o que vem aí seja uma batalha de ideias e não de personalidades”, o agora ex-ministro pede o “melhor” e “mais abrangente” leque “possível de candidatos” ao lugar de Starmer e exige-lhe que “facilite” esse processo.

“Onde precisamos de visão, temos um vazio. Onde precisamos de orientação, temos deriva”, criticou. “Os líderes assumem as responsabilidades, mas muitas vezes isso significa que são outras pessoas a arcar com as consequências. [Starmer] também precisa de ouvir os seus colegas, incluindo os deputados, e a abordagem autoritária em relação às vozes dissidentes enfraquece a nossa política.”

Deputado desde 2015, representante da ala mais à direita do partido de centro-esquerda britânico, Streeting, de 43 anos, não manifestou, na sua carta de demissão, a vontade de concorrer ou de ser ele a desencadear uma disputa pela liderança do Labour. Em declarações à imprensa britânica, os seus aliados asseguram, ainda assim, que o demissionário tem o apoio de 20% da bancada parlamentar trabalhista (81 deputados), o número necessário para formalizar o processo, mas explicam que, para já, a prioridade é outra.

“[Streeting] tomou hoje uma decisão ponderada de não desencadear essa disputa [pela liderança]”, disse à BBC o deputado Alan Gemmell, próximo do ex-ministro. “Ficou claro, nas conversas que teve com os deputados e os sindicatos, que o partido quer uma discussão, uma batalha de ideias, uma disputa aberta (…) e abrangente sobre a direcção que devemos tomar e como devemos resolver os problemas que temos.”

Mais de 90 dos 403 deputados do Partido Trabalhista na Câmara dos Comuns pediram a Starmer que se demita ou que apresente um calendário para uma transição de poder, mas nem todos eles vêem em Streeting o candidato ideal para substituir o primeiro-ministro.

O facto de não ter avançado já nesta quinta-feira, dizem alguns jornais, pode significar que Streeting está a apostar numa estratégia a longo prazo, preferindo que sejam outros opositores internos a tomar a iniciativa de desafiar Starmer. Ou então terá receio de não conseguir os votos suficientes para derrotar e vencer o primeiro-ministro.

Um cenário alternativo, sugerido por outros media britânicos, é o de ter sido Starmer, consciente das ambições de carreira do ministro da Saúde, a forçá-lo a assumir publicamente o desejo de disputar a liderança, recusando falar sobre o tema em discussões internas e tornando, dessa forma, insustentável a manutenção de Streeting no Governo.

Pouco antes de este ter apresentado a demissão, o número 10 de Downing Street assegurou que Starmer tinha “total confiança” no seu ministro. Antes disso, na quarta-feira, antes da cerimónia de apresentação do programa legislativo do Governo no Parlamento de Westminster, protagonizada pelo rei Carlos III, Streeting foi recebido por Starmer. Esse encontro durou menos de 20 minutos e o ex-governante diz agora que comunicou, nessa ocasião, ao primeiro-ministro que já apoiava a sua liderança.

Starmer quer ir a jogo

Apesar da contestação interna e externa e do desempenho eleitoral desastroso do Partido Trabalhista nas eleições locais de Inglaterra e nas legislativas da Escócia e do País de Gales, realizadas na semana passada, e que tiveram no Reform UK, partido de direita radical, de Nigel Farage, o grande vencedor, Keir Starmer já deu a entender, várias vezes, que vai defender a sua posição num cenário de eleições internas.

Caso seja lançado um desafio à chefia do Labour e do Governo, o nome do incumbente entra directamente no boletim de voto. Os seus aliados, incluindo Rachel Reeves, ministra das Finanças, alertam, ainda assim, que um processo de disputa pela liderança pode “bloquear” a governação durante meses e “atirar o país para o caos”.

Para além de Wes Streeting e do primeiro-ministro, haverá outros supostos interessados em concorrer, nomeadamente representantes da ala esquerda do partido. Se for oficializada a corrida eleitoral, terão também de angariar os referidos 81 apoios de deputados trabalhistas para poderem participar.


Segundo os media britânicos, Ed Miliband, ministro da Segurança Energética e antigo líder do Labour (2010-2015), será um desses interessados, assim como Andy Burnham, presidente da Câmara de Manchester, que, no entanto, só poderia concorrer se fosse membro do Parlamento.

Há ainda o caso de Angela Rayner, ex-vice-primeira-ministra, que foi esta quinta-feira ilibada pelo Fisco no caso do não-pagamento de um imposto aquando da aquisição de um imóvel, que esteve na base da sua saída do Governo, em Setembro do ano passado.

Com a demissão de Streeting sobe para cinco o número de membros do executivo trabalhista que bateram com a porta nos últimos dias com o argumento de que perderam a confiança na liderança de Keir Starmer por causa do fiasco eleitoral da semana passada. Os outros quatro demissionários eram, no entanto, subsecretários de Estado, cargos de menor importância no Governo.

Vencedor das eleições legislativas de 2024, com uma margem confortável sobre o Partido Conservador, que estava no poder há 14 anos, o Partido Trabalhista tornou-se rapidamente muito impopular, quer pela incapacidade de relançar a economia e de reduzir o custo de vida no Reino Unido, quer devido a uma série de escândalos políticos, como a nomeação de Peter Mandelson, próximo do abusador sexual norte-americano Jeffrey Epstein, para embaixador do país nos Estados Unidos.