Há cerca de 113 milhões de anos, ao longo de um rio sinuoso em uma região quente e árida que hoje é a Tailândia, um animal de quase 27 metros de comprimento se alimentava das copas das árvores sem muito medo de predadores devido ao seu tamanho. A criatura era o Nagatitan chaiyaphumensis, o maior dinossauro conhecido do Sudeste Asiático.

Pesquisadores encontraram restos do esqueleto do espécime, um membro dos saurópodes, conhecidos pelo pescoço e cauda longos, cabeça pequena e quatro patas em formato de coluna. A descoberta foi descrita em um artigo que saiu nesta quinta-feira (14) na revista Scientific Reports.

Os fósseis desse dinossauro do Período Cretáceo foram avistados pela primeira vez por um morador de uma vila na província de Chaiyaphum, no nordeste tailandês. Ao longo de vários anos, cientistas escavaram ossos da coluna vertebral, costelas, pelve e pernas, incluindo um osso da pata dianteira —o úmero— medindo 1,78 metro de comprimento.

Com base nas dimensões dos ossos, os pesquisadores estimam que a massa corporal do N. chaiyaphumensis era entre 25 e 28 toneladas. A cabeça e os dentes não estavam entre os fósseis recuperados, mas os pesquisadores têm uma boa ideia das preferências alimentares do espécime com base em outros saurópodes.

“O N. chaiyaphumensis provavelmente era um herbívoro generalista que se concentrava em consumir grandes volumes de vegetação que exigiam pouca ou nenhuma mastigação, como coníferas e possivelmente samambaias com sementes”, disse Thitiwoot Sethapanichsakul, doutorando em paleontologia da University College London (Reino Unido) e autor principal da nova pesquisa.

A espécieviveu ao lado de vários outros dinossauros, bem como de pterossauros. Os rios eram repletos de crocodilos e peixes, incluindo tubarões de água doce.

O maior predador do ecossistema era um parente do gigante dinossauro carnívoro africano Carcharodontosaurus, provavelmente com cerca de oito metros de comprimento e aproximadamente 3,5 toneladas.

“Com esse tamanho, ele era minúsculo perto do N. chaiyaphumensis. Em seu tamanho máximo, ele provavelmente tinha muito pouco a temer em termos de predação”, afirmou Sethapanichsakul.

Os predadores provavelmente evitavam atacar adultos saudáveis de qualquer espécie grande de saurópode por causa do perigo de serem esmagados. Mas podem ter visado adultos velhos ou doentes, além de filhotes vulneráveis.

“De fato, sabe-se que os saurópodes cresciam muito rapidamente após a eclosão, e isso provavelmente está relacionado aos perigos da predação. Quanto mais cedo ficassem grandes, mais seguros estavam, pois seria mais difícil serem alvos de atacar”, disse o paleontólogo Paul Upchurch, da University College London, e coautor do estudo.

Os saurópodes incluíam os maiores animais terrestres da história da Terra. O N. chaiyaphumensis era enorme por qualquer padrão, mas não na escala de alguns saurópodes sul-americanos como o Argentinosaurus e o Patagotitan, que ultrapassavam 30 metros de comprimento.

O nome do N. chaiyaphumensis faz referência a Naga, um ser semelhante a uma serpente em algumas tradições religiosas asiáticas que é representado em templos tailandeses. Ao todo, há 14 dinossauros nomeados conhecidos da Tailândia.

Os nomes de vários grandes saurópodes incluem a palavra titã. Na avaliação de Sethapanichsakul, é apropriado chamar o N. chaiyaphumensis de último titã do Sudeste Asiático porque a região se tornou um mar raso mais tarde no Cretáceo, o que significa que nenhum outro saurópode viveria ali.

O N. chaiyaphumensis fornece informações sobre a diversidade de saurópodes na região. Não são conhecidos muitos saurópodes do Sudeste Asiático, a espécie é a maior e o mais recente geologicamente entre eles.

A criatura pertencia a um subgrupo de saurópodes cujos ossos reuniam muitos sacos de ar internos e paredes finas, características que tornavam seus esqueletos mais leves.

Esse grupo surgiu há cerca de 140 milhões de anos e alcançou distribuição global. Há aproximadamente 90 milhões de anos, tornou-se o único grupo de saurópodes restante no mundo, prosperando até o fim da era dos dinossauros, há 66 milhões de anos, com o impacto de um asteroide.

O N. chaiyaphumensis viveu em uma época em que os níveis de dióxido de carbono na atmosfera da Terra estavam subindo, correspondendo a altas temperaturas globais.

“Os saurópodes parecem ter se tornado particularmente grandes nessa época, com formas gigantescas vivendo na América do Sul, na China, provavelmente no norte da África, e agora com o N. chaiyaphumensis, um espécime razoavelmente grande no Sudeste Asiático”, disse Upchurch.

“Essa possível relação entre grande porte corporal e altas temperaturas climáticas não é totalmente compreendida, mas é provável que as altas temperaturas tenham impactado a vegetação que servia de alimento para os saurópodes, que eram herbívoros de corpo muito grande”, explicou o paleontólogo. “O N. chaiyaphumensis oferece um vislumbre do período que antecedeu o eventual pico de tamanho corporal e temperaturas, cerca de 10 milhões de anos a 15 milhões de anos depois.”