
Lenda do boxe português envolveu-se em cenas (muito) perigosas. Todas elas bem longe dos ringues…
O filme estreia hoje, quinta-feira, e o nome “Soco a Soco” ilustra bem quem “andava sempre ao soco” ainda antes de ser pugilista.
A obra é sobre Orlando Jesus, conhecido também como ‘Mãos de Ferro’. O realizador Diogo Varela Silva criou um filme biográfico, numa Lisboa que já não existe, sobre um dos nomes mais conceituados de sempre do boxe em Portugal.
Subiu aos ringues mais prestigiados, foi uma figura na modalidade – mas já antes era uma figura. Noutras vidas.
Vindo de uma família pobre, faltava à escola, era uma malandro que “andava sempre ao soco”, repete.
O pai e o avô já andavam no mundo do boxe, nos ringues. Aos 5 anos já calçava as luvas de boxe. Aos 13 anos subiu para o ringue. Mal entrou, reparou: “Isto é a minha praia”.
Enquanto amador ganhava a toda a gente. Aos 20 anos tornou-se profissional.
Acima do boxe, só coloca mãe e filhos. Diz na RTP que no boxe reina a inteligência. Um praticante inteligente tem “um milhão de vantagens” num combate.
Às vezes também é fadista. Mas muitas vezes andou mesmo em cenas de porrada. Longe dos combates a sério.
Orlando Jesus era conhecido nos bairros lisboetas, foi um homem da noite, com fugas pelo meio.
Aliás, admite que os maiores sustos foram fora do boxe. Com tiros.
Numa madrugada de 1975, num bar à porta do Parque Mayer, num desentendimento com o porteiro, agentes da polícia aproximaram-se: “E a polícia antigamente era agressiva: não perguntava, dava logo”.
“Vieram para me bater – e eu tive que me defender. Chegaram quatro carrinhas. Andei ali ao soco com eles e eles disseram ‘Este gajo tem que ser abatido, que a gente não pode com este gajo’. Uns fugiam, eu dava saltos por cima das carrinhas…”
Um polícia agarrou na arma e disparou 8 vezes, 5 acertaram em Orlando. “Mas tinha uma moeda no bolso da camisa e isso salvou-me. Não sei como esta moeda veio parar ao meu bolso. Levei o tiro, fiquei com o peito todo negro. Levei tiros em todo o lado”.
Foi para o hospital.
Três meses depois de sair do hospital, num desentendimento com o motorista do embaixador de Cuba, foi atingido com outros 3 tiros. “Aguentei aquilo”.
Foi outra vez para o hospital.
Quatro ou cinco anos depois, levou um tiro na cabeça, de uma quadrilha que era a única que estava armada, “eram os maiores” e entravam em todo o lado, comiam e bebiam sem pagar.
Orlando fez um acordo com essa quadrilha, num restaurante da altura: sempre que ele estivesse, eles não pagavam. Um dia, comeram sem pagar quando Orlando não estava.
Três ou quatro dias depois, cruzaram-se no mesmo sítio. “Não podem entrar!”, avisou o pugilista, à porta, que os trouxe para a rua. Mais socos, mais tiros: “Descasquei-os, agarrei na arma de um e fui eu que disparei. Defendi-me”.
Fugiu.
Esteve Brasil, foi detido depois em Espanha. Em Portugal, ao segundo dia, foi libertado “porque não era nenhum criminoso”.
Hoje diz que foi o boxe que o transformou num Orlando Jesus disciplinado, humilde: “O boxe só me fez bem, trouxe-me para o bem”.
É árbitro e professor de boxe – uma modalidade que, garante, “faz bem a tudo: à mente, tira o stress, educa-nos o corpo. É o melhor remédio que temos para estarmos bem”.
Nuno Teixeira da Silva, ZAP //