As corredoras que já passaram dos 50 anos tem um desafio a mais para enfrentar: a menopausa. Principalmente se, por recomendação médica, a corredora não puder fazer reposição hormonal. O pique diminui, o pace desaba, o massa magra diminui, a insônia vem com tudo, junto com o calorão. Mas a há uma boa notícia, manter a atividade física pode atenuar os efeitos da menopausa, e para correr é preciso fortalecer ainda mais. O jeito é, como canta Emicida: “Levanta e anda”. Conversamos com quatro especialistas, que destacam os benefícios da atividade física nessa fase da vida, e quando é preciso fazer a reposição hormonal. Confira abaixo

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A menopausa é frequentemente temida pelas mulheres. “Os sintomas incluem ondas de calor, suores noturnos, secura vaginal, alterações de humor e insônia”, explica o ginecologista Dr. Nélio Veiga Junior, Mestre e Doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Ansiedade, depressão, perda de libido, distúrbios do sono e da concentração também são alguns dos problemas, segundo a Dra. Patricia Magier, ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Dr. Nélio explica que há diversas evidências científicas de que mulheres na menopausa fisicamente ativas tendem a apresentar melhor qualidade de vida e menos sintomas, especialmente humor, sono, fadiga. Além disso, sabe-se que durante a menopausa há uma queda hormonal, principalmente do estrogênio. “Esse hormônio em declínio piora perfil lipídico, piora inflamação da parede dos vasos, deixando as artérias mais rígidas, o que favorecem o aparecimento de doenças cardiovasculares (DVC), como aterosclerose, infarto e AVC. Também surgem as alterações óssea, como osteopenia e osteoporose, por perda de massa óssea, o que leva a um aumento do risco de fraturas. A corrida por ser um exercício de impacto ajuda tanto na ativação dos osteoblastos, as células que constroem o osso, prevenindo as alterações ósseas, como propicia melhora do perfil lipídico, reduz pressão arterial, fortalece músculos cardíacos”, explica.

O médico acrescenta que estudos em ratos e camundongos mostraram que as roedoras que estavam sendo submetidas a prática de corrida em esteira durante oito semanas, após a remoção bilateral dos ovários, ou seja, menopausa, houve retardo na perda óssea causada pela diminuição do estrogênio e melhora da microestrutura óssea em diferentes graus. Outro estudo, comparou os efeitos do treinamento de resistência, com corrida em esteira versus sedentarismo versus terapia de reposição hormonal com estrogênio durante a menopausa. O Estudo mostrou que a função cardíaca de ratas, como os índices de contratilidade e relaxamento cardíacos, melhoraram de forma semelhante nos grupos das ratas que praticaram corrida e no grupo da reposição hormonal. Isso pode sugerir que mulheres que apresentam contraindicação de terapia de reposição hormonal podem se beneficiar de exercício resistido, como a corrida. “A menopausa também leva a um aumento do peso e acúmulo de gordura abdominal, sendo a corrida um exercício eficiente para a perda de peso”, destaca.

Inclusive, dr. Nélio cita que a atividade física é um dos pilares do tratamento da menopausa. “O melhor exercício é o que a mulher consegue manter com prazer e segurança. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) sugere pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana, como a corrida/ caminhada rápida, natação, ciclismo. A ACOG também recomenda adicionar dois ou mais dias de exercícios de fortalecimento muscular por semana a fim de combater a perda muscular relacionada à idade e aumentar a densidade mineral óssea. Além disso, o treinamento de equilíbrio para evitar quedas e consequentes fraturas como yoga, tai chi e pilates oferecem suporte comprovado. Dessa forma, a corrida pode ser excelente escolha, pois melhora a saúde cardiovascular e na massa óssea, já que o exercício aeróbico ajuda no controle da pressão arterial, níveis de colesterol, glicemia e peso, promove ação dos osteoblastos; humor e ansiedade, já que corrida aumenta endorfinas e melhora sintomas depressivos leves/moderados. As mulheres ativas costumam dormir melhor, ou seja, há uma melhora do sono.” No entanto, não é para todo mundo.

O médico prossegue dizendo que há um estudo do jornal Plos, de 2025, que determinou a frequência e o impacto negativo percebido dos sintomas da menopausa em atletas de resistência do sexo feminino: corredoras, ciclistas, nadadoras e triatletas com idades entre 40 e 60 anos. Desconforto articular e muscular, ganho de peso, problemas de sono e exaustão física e mental foram os sintomas percebidos como os que mais afetaram negativamente o treinamento e o desempenho; e as mulheres com sintomas da menopausa mais graves tiveram uma percepção maior do impacto negativo dos sintomas no treino e no desempenho. Dessa forma, é preciso avaliar obesidade, artrose, dores lombares, incontinência urinária, osteopenia severa, doença cardiovascular antes.

Para o ginecologista Igor Padovesi, autor do livro ‘Menopausa Sem Medo’ (Editora Gente), especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS) e membro da International Menopause Society (IMS), é idealizador do ‘Expert Menopausa’, maior plataforma de educação médica em menopausa do Brasil; qualquer atividade física é benéfica, tem benefício cardiovascular, tem inúmeras outras vantagens e benefícios comprovados, porém o ideal seria associar atividade física aeróbica com treinos de resistência e se tiver que escolher um tipo de atividade física seria treino de resistência, a musculação.

A ginecologista Ana Paula Fabrício, com pós-graduação em Nutrologia pela ABRAN, pós-graduação em Medicina Estética e pós-graduação com Dr. Lair Ribeiro em Prevenção e Tratamento de Doenças Relacionadas com a Idade, explica que se a mulher já pratica corrida há anos, deve continuar. “Vejo na prática clínica é que aquelas que têm constância, que já são adeptas a esse tipo de atividade física, há melhora da regulação da temperatura (então melhora os fogachos e o sono). Quando a paciente dorme bem, ela acorda mais disposta. A corrida melhora a resistência a insulina, o sobrepeso, ajuda a manter o peso. Então melhora substancialmente a qualidade de vida da mulher. O que eu falo que é muito importante é manter a constância. Se ela já fazia a corrida, manter é fundamental.”

Aliada a atividade física, Ana Paula Fabrício recomenta sempre a musculação. “O maior risco da mulher na menopausa, junto com as doenças cardiovasculares e o câncer, é a osteoporose. Então eu sempre indico iniciar com uma caminhada, com uma musculação e gradualmente ir para a corrida, mas não abrir mão da musculação. Corrida e musculação, bike e musculação, caminhada e musculação, uma atividade física que você tenha prazer e musculação. Isso associado dá um resultado fantástico e serve para a mulher ter mesmo a vida plena, com energia, com vitalidade. Então não tem como abrir mão da atividade física. Eu falo que não existe saúde sem atividade física”, destaca.

A ginecologista Patrícia Magier, criadora do Método Plena para cuidado da mulher de forma completa, profunda e individualizada, vai na mesma linha, o principal exercício da mulher na menopausa é o resistido, o de força e a musculação, mas que cada caso é um caso, e as recomendações devem ser individualizadas. “Algumas pessoas gostam da corrida e pode ser maravilhoso para melhorar o condicionamento cardiovascular, o controle do peso, melhorar o humor, diminuir o estresse. Mas para outras, especialmente aquelas que têm sobrepeso importante, dor articular, perda de massa muscular, que é a sarcopenia, perda da força muscular, ou quem é sedentário, começar com a corrida talvez não seja o melhor exercício, nem o mais indicado. Mas o mais importante é fazer essa pessoa se conscientizar da importância da atividade física, sair do sedentarismo, e que ela tenha disciplina e consistência. Às vezes a gente combina uma caminhada com um fortalecimento muscular, uma musculação, um pilates com musculação, e depois se a pessoa quiser realmente fazer corrida, se faz sentido para ela, tudo bem, pode ser indicado também”, observa.

REPOSIÇÃO

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Sobre a reposição hormonal, cada caso é um caso, mas Padovesi afirma que pode ser feita por todas as mulheres, inclusive as com casos de câncer na família: “Oficialmente, não existe nenhuma contraindicação. Importante dizer isso, nenhum guideline de nenhum lugar do mundo coloca alguma questão familiar como contraindicação para terapia hormonal. Óbvio que deve se ter cuidado que em casos de muitos casos de câncer familiares, isso demanda talvez uma investigação específica, questões genéticas, mas isso independe da terapia hormonal. Cada vez mais os estudos comprovam que a terapia hormonal moderna com hormônios bioidênticos não está associado ao aumento de risco de câncer, ao contrário, pode reduzir a incidência do câncer de mama. Já tem estudos consistentes que mostram que ela reduz a incidência de câncer colorretal. Quando se fala em câncer, cada tipo de câncer é um mundo à parte e existem números subtipos. Câncer de mama, por exemplo, é um termo extremamente genérico. Cada câncer de mama, cada subtipo de câncer de mama tem comportamento completamente diferente. E o fato é que os benefícios são gigantes, isso é mais do que claro, na literatura não existe nenhuma dúvida em relação a isso, porém a população em geral e a comunidade médica ainda é extremamente desatualizada nesse assunto e ainda tem essa ideia de associação com o risco de câncer, que tem mais de 20 anos que é ultrapassado.”

Já dr. Nélio a reposição hormonal não deve ser tratada como algo “bom ou ruim” de forma geral. O risco depende do tipo de hormônio, do tempo de uso e do perfil da paciente. Em mulheres bem avaliadas, os benefícios podem superar os riscos. “Uma revisão publicada em 2026 no periódico ‘Maturitas’ analisou as evidências mais atuais sobre a relação entre terapia hormonal da menopausa (TH) e risco de câncer de mama, tema que historicamente gerou insegurança entre médicos e pacientes.” Aqui algumas conclusões: a TH continua sendo o tratamento mais eficaz para fogachos e sintomas vasomotores, além de ajudar na prevenção de perda óssea e fraturas. O risco de câncer de mama não é igual para todos os esquemas hormonais. A revisão reforça que o maior aumento de risco está associado à terapia combinada estrogênio + progestagênio, especialmente com uso prolongado. Já a terapia com estrogênio isolado (para mulheres sem útero) apresentou nos dados do WHI redução de incidência e mortalidade por câncer de mama em tratamento de longo prazo. O tipo de progesterona importa: evidências observacionais sugerem que a progesterona micronizada pode ter perfil mamário mais favorável do que progestagênios sintéticos (acetato de medroxiprogesterona ou noretisterona). “A revisão conclui que a prescrição moderna deve ser individualizada, considerando sintomas, idade, tempo de menopausa, histórico familiar, risco cardiovascular e preferência da mulher, sempre com decisão compartilhada”, explica o médico,