Todos os anos de grandes competições internacionais, há um ritual que começa ainda antes da bola rolar: a corrida às cadernetas de cromos, mas este ano a febre está ainda mais intensa.

Alexandre Schneider
Mal os campeonatos nacionais entram na reta final, arrancam as coleções que atravessam gerações, alimentadas por trocas entre amigos, encontros organizados e até comunidades dedicadas ao colecionismo.
O fenómeno ganhou tal dimensão que já vive também no mundo digital. Na plataforma YouTube, multiplicam-se os vídeos de abertura de saquetas e de preenchimento de cadernetas, alguns conduzidos por criadores especializados exclusivamente em cromos de futebol.
Mas completar uma coleção continua a ser um teste à paciência e… à carteira. A edição do Campeonato do Mundo de 2026 promete ser a mais exigente de sempre.
STRINGER Mexico
A evolução é clara. Em 1970, bastavam 270 cromos para fechar a primeira caderneta oficial de um Mundial.
Nunca houve tantos cromos
Desde então, o número não parou de crescer: 597 cromos em 2006, 638 em 2010, 639 em 2014, 682 em 2018 e 670 em 2022. Agora, a edição de 2026 dispara para uns inéditos 980 cromos.
O salto explica-se pelo novo formato do torneio, que passa de 32 para 48 seleções. Mais equipas significam mais jogadores, mais páginas para preencher e, inevitavelmente, mais dinheiro gasto.
Natacha Pisarenko
As saquetas são mais caras de sempre
Também as saquetas sofreram um aumento histórico. Pela primeira vez, custam mais de um euro: passaram dos 40 cêntimos em 2006 para 1,50 euros em 2026, um aumento de 275%.
Ainda assim, trazem mais cromos, sete em vez de cinco, o que faz com que o preço unitário suba apenas um cêntimo face ao Mundial no Qatar.
Quanto custa completar a coleção?
À primeira vista, as contas parecem simples: 980 cromos a 21 cêntimos cada dariam cerca de 210 euros. Mas esse cenário perfeito, sem repetidos, existe praticamente apenas na teoria.
Srdjan Zivulovic
Na prática, os cromos duplicados transformam a missão num jogo de resistência. Um cálculo desenvolvido por Paul Harper, professor de Matemática da Universidade de Cardiff, estima que seriam necessários mais de sete mil cromos para completar a coleção sem trocas. Traduzido em saquetas, isso representaria cerca de 1.574 euros.
Pode-se terminar a coleção sem qualquer troca?
Mas a matemática nem sempre coincide com a experiência real. Um youtuber britânico especializado em cromos garante ter completado toda a caderneta sem trocar um único cromo e gastando “apenas” 603 euros. O último cromo surgiu depois de 402 saquetas abertas.
Ainda assim, os números mostram como os cromos raros fazem disparar os custos finais. Nas primeiras 100 saquetas, o colecionador quase completou a caderneta.
Natacha Pisarenko
Já os últimos espaços vazios revelaram-se os mais caros: houve alturas em que cada cromo em falta acabou por custar mais de sete euros em sucessivas tentativas.
Há alternativa às trocas mas… traz um custo
Para evitar essa lotaria final, existe uma alternativa: encomendar diretamente os cromos em falta à Panini.
A marca permite pedir até 250 cromos avulso, embora esta opção só fique disponível algum tempo após o lançamento da coleção. O preço por cromo é superior ao normal, mas pode compensar face ao desperdício de abrir saquetas atrás de saquetas sem garantia de sucesso.
Andre Penner
No fim de contas, completar a caderneta do Mundial continua a ser muito mais do que uma simples coleção. É um hábito que mistura nostalgia, competição e obsessão, e que, este ano, poderá atingir custos dignos de um verdadeiro mercado de transferências.