As prescrições de ivermectina para tratamento de câncer mais que dobraram nos Estados Unidos após o ator Mel Gibson afirmar, em janeiro do ano passado, que três amigos teriam se recuperado de câncer em estágio avançado após utilizarem o medicamento. O dado faz parte de um estudo publicado na revista JAMA Network Open, na última terça-feira, 12.
No Brasil, a ivermectina é indicada para tratar infecções parasitárias Foto: Rafael Henrique/Adobe Stock
O levantamento, realizado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), aponta que, embora a ivermectina e medicamentos benzimidazólicos, como o fenbendazol (também mencionado pelo ator na entrevista), tenham demonstrado atividade anticancerígena em estudos laboratoriais e testes em animais, nenhum ensaio clínico comprovou que esses remédios sejam seguros ou eficazes no tratamento do câncer em humanos.
No Brasil, a ivermectina é aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de algumas infecções parasitárias. Já o fenbendazol é um antiparasitário de uso veterinário.
De acordo com Clarissa Baldotto, oncologista clínica e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), estudos realizados em células de laboratório ou em modelos animais representam apenas uma etapa inicial da pesquisa científica e não são suficientes para comprovar eficácia ou segurança em seres humanos.
“Muitas substâncias que parecem promissoras em laboratório não se confirmam em estudos clínicos. Apenas uma pequena parte das moléculas que entram em pesquisa pré-clínica, em laboratório e animais, chega a ser testada em humanos. E, mesmo após alcançar a fase clínica, a chance média de chegar ao mercado costuma variar entre 5% e 10%”, esclarece.
Segundo a especialista, é cada vez mais comum pacientes chegarem aos consultórios fazendo referência a conteúdos vistos em redes sociais, como vídeos, relatos pessoais e promessas de tratamentos alternativos.
O papel do profissional de saúde, na visão de Clarissa, é acolher as dúvidas dos pacientes, explicar a diferença entre hipótese científica e evidência clínica, avaliar riscos e orientar com base em dados confiáveis.
“O paciente não deve ser tratado com julgamento, mas com acolhimento e informação qualificada. A melhor resposta à desinformação não é simplesmente dizer ‘não’, mas explicar por que determinada intervenção ainda não pode ser considerada um tratamento e quais são os potenciais riscos envolvidos”, afirma a oncologista.
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Principais riscos associados
De acordo com a publicação, a principal preocupação é que, ao recorrem a tratamentos não comprovados, os pacientes acabem atrasando ou abandonando terapias convencionais cuja eficácia já foi demonstrada cientificamente.
“Quando as prescrições de um tratamento oncológico não comprovado mais do que dobram após um único podcast, especialmente entre homens e pessoas do Sul, isso levanta a preocupação de que pacientes possam estar pulando ou adiando tratamentos que sabemos que funcionam em favor de algo cuja eficácia não foi comprovada”, afirmou John N. Mafi, autor sênior do estudo e professor associado de medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles, em comunicado de imprensa.
Segundo Clarissa, esse comportamento pode comprometer diretamente o tratamento, a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes.
“Em oncologia, tempo e sequência de tratamento importam muito. Além disso, há riscos de efeitos colaterais, interações medicamentosas, uso de doses inadequadas, falsa sensação de segurança e perda de oportunidade terapêutica”, completa a especialista.
Para o estudo, os pesquisadores compararam os padrões de prescrição da combinação ivermectina-benzimidazol entre pessoas com e sem câncer no período de 1º de janeiro a 31 de julho de 2025, após o comentário feito por Gibson, com os dados do mesmo período do ano anterior.
Como base de dados, foram utilizados registros eletrônicos de saúde anônimos de mais de 68 milhões de pacientes com idades entre 18 e 90 anos em atendimentos ambulatoriais e emergenciais nos Estados Unidos.
Os resultados mostraram que as taxas gerais de prescrição dobraram nos meses seguintes à fala do ator, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Entre pessoas com câncer, as taxas foram mais de 2,5 vezes maiores no período mais recente.
O estudo, no entanto, possui limitações. Por se tratar de uma pesquisa observacional, não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Além disso, os pesquisadores analisaram apenas as prescrições médicas, e não o uso efetivo dos medicamentos pelos pacientes.
Segundo a oncologista da SBOC, pacientes devem desconfiar de promessas de cura rápida, tratamentos milagrosos, relatos isolados sem respaldo científico, teorias conspiratórias contra a medicina ou recomendações feitas por pessoas sem formação na área da saúde.
“O câncer é uma doença complexa, e avançamos muito nos tratamentos específicos e personalizados. Por isso, devemos desconfiar de soluções fáceis demais. Informações confiáveis geralmente vêm de sociedades médicas, instituições acadêmicas, órgãos regulatórios, publicações científicas revisadas por pares e, principalmente, da discussão com a equipe médica”, conclui Clarissa.