Evika Silina, primeira-ministra da Letónia, demitiu-se, nesta quinta-feira, 14 de Maio, depois de uma crise desencadeada por drones ucranianos que, tendo sido desviados pela Rússia, caíram em território letão.

A primeira-ministra, do partido Nova Unidade, demitiu-se um dia depois de o partido Progressista (Pro), parceiro de coligação, ter retirado o apoio, devido à decisão de Silina de fazer o mesmo com Andris Spruds, ministro da Defesa. A primeira-ministra ficou sem maioria governamental e o Governo, que ia a eleições já em Outubro, caiu.

“O mais importante para mim é o bem-estar dos letões e a segurança do nosso país. A guerra brutal travada pela Rússia na Ucrânia alterou a situação de segurança em toda a Europa”, disse Silina ao anunciar a sua demissão numa emissão televisiva, mas também numa longa publicação no X. “Estou a demitir-me, mas não a desistir”, acrescentou.

“Em vez de concordarem em trabalhar juntos, os progressistas optaram por não assumir qualquer responsabilidade pelo bem-estar dos nossos habitantes, nem pelo reforço da segurança e defesa do nosso país”, afirmou nas redes sociais. “Agora e sempre, o mais importante para mim é o bem-estar do povo da Letónia (…) Neste momento, as pessoas precisam de segurança, não de disputas partidárias ou divisões políticas”, disse ainda, deixando críticas aos ex-parceiros de coligação.

Na manhã do passado domingo, Silina tinha exigido a demissão de Andris Spruds, ministro da Defesa, por considerar que “o sector da defesa falhou no cumprimento da promessa de segurança do espaço aéreo” e, portanto, já não era merecedor da sua confiança política, nem da confiança da população. Na mesma publicação no X, Silina descreve agora a situação dos drones em Latgale como “a última gota” para a sua “confiança” e justifica que não podia deixar de reagir “a promessas não cumpridas”. A agora ex-primeira-ministra protege-se no facto de o Governo ter aumentado o investimento na defesa no último Orçamento do Estado para quase 5% do PIB.

“Actualmente, a inveja política e os interesses partidários mesquinhos têm prevalecido sobre a responsabilidade. Ao verem um candidato forte para ministro da Defesa, optaram não por uma solução, mas por uma crise governamental”, disse, referindo-se à sua sugestão de nomear Raivis Melnis, coronel do Exército, para suceder a Spruds no cargo da Defesa, que não foi bem recebida pelos progressistas.

A controvérsia foi desencadeada a 7 de Maio, depois de dois drones ucranianos, alegadamente desviados pela Rússia, terem entrado na Letónia e terem atingido instalações de armazenamento de petróleo em Rezekne, no Leste do país, causando uma explosão e danificando quatro reservatórios, que naquele momento estariam vazios.

Andris Spruds assumiu a possibilidade de serem drones ucranianos que, ao serem desviados pela Rússia, acabaram por cair no lado errado da fronteira, e disse ter abordado a questão com os países aliados, incluindo no âmbito da NATO, pedindo a presença de unidades militares no país. A informação viria a ser confirmada por Andrii Sybiha, homólogo em Kiev, que confirmou que os drones vinham da Ucrânia, mas que “a guerra electrónica russa desviou deliberadamente” os ataques.

A primeira-ministra considerou que o sector da Defesa não instalou sistemas de defesa anti-drones com rapidez suficiente e, depois da saída de Spruds, sugeriu a nomeação do coronel do Exército Raivis Melnis. Spruds disse que a sua decisão de afastamento era movida pela intenção de proteger o Exército da Letónia de ser arrastado para uma campanha política e salvaguardou que não iria permitir que a campanha política contra si ou contra os progressistas se transformasse num ataque ao Exército letão.

A decisão não agradou aos progressistas, partido que Spruds integra, que faziam parte da coligação governamental juntamente com o Unidade — partido maioritário da coligação, de centro-direita e da primeira-ministra — e a União de Verdes e Agricultores.

Na quarta-feira, Andris Suvajevs, co-presidente dos progressistas, já tinha apelado à demissão da chefe de Governo, depois de ter tentado reunir-se com Silina para procurar uma solução, uma reunião infrutífera. “Ou Evika Silina simplesmente anuncia a sua demissão, tendo perdido a confiança da sociedade, ou a Saeima [Parlamento] põe fim a tudo isto com uma moção de censura”, disse em declarações aos jornalistas em Riga. Suvajevs, que é o candidato da formação social-democrata às eleições legislativas de Outubro, acredita que a primeira-ministra “derrubou o seu próprio Governo”.

A demissão de Spruds, agora visto como um bode expiatório, levou nove membros do Partido Progressista a abandonarem a coligação. Isso deixou o Governo com 41 lugares no Parlamento, de um total de 100, e a enfrentar a possibilidade de perder um voto de confiança. O Presidente do país, Edgars Rinkevics, terá agora a missão de nomear um novo chefe de governo para os próximos meses, e espera-se uma reunião com os representantes de todos os partidos com assento parlamentar ainda nesta sexta-feira, 15.