O consumo global de vinho caiu 2,7% no ano passado para 208 milhões de hectolitros, atingindo mínimos de 1957, mas Portugal registou “o maior volume de consumo alguma vez registado”, revelou a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). No relatório que dedica ao estado do sector do vinho em 2025, há outro país em destaque, o Brasil, onde o consumo de vinho aumentou 41,9%. É a maior subida a nível mundial.

Nove dos dez principais mercados de vinho do mundo registaram descidas no consumo face a 2024. As maiores descidas aconteceram nos mercados da China, nos EUA e em França. Exactamente por esta ordem.

Nos EUA, a redução foi de 4,3%, para 31,9 milhões de hectolitros. Sublinha a OIV no seu relatório que por lá a desaceleração do consumo de vinho é um fenómeno relativamente recente, mas acelerado.

Na Europa, registaram-se descidas no consumo em países como Itália (-9,4%), Rússia (-5,5%), Espanha (-5,2%), Alemanha (-4,3%) e França (-3,2%). À excepção da Rússia, onde a quebra no consumo terá outras explicações — indirectamente ligadas com a situação económica do país, por sua vez directamente ligada à guerra na Ucrânia —, são todos países produtores de vinho (os principais) e historicamente consumidores também. Em 2024, Espanha ainda se tinha aguentado, lado a lado com Portugal, enquanto excepção.

A França não apresenta a quebra maior, mas em termos absolutos é outro mercado que contribuiu fortemente para este recuo a mínimos históricos — há 70 anos que não se bebia tão pouco vinho no mundo. Em França, o consumo começou a cair “há várias décadas”, ressalva a OIV.

Este não é um fenómeno só do velho e do novo mundo, expressões muitas vezes usadas no mundo do vinho para identificar as geografias que têm mais e menos histórico na produção, respectivamente. As preocupações com a saúde, que têm levado a um consumo mais moderado e, em muitos casos, à abstinência total, e os alertas da ciência em relação ao consumo de bebidas alcoólicas também estão a fazer das suas na China, o terceiro mercado com “um papel particularmente importante no declínio global” do consumo.

Segundo o relatório da OIV, a China “registou a maior contracção [no consumo], perdendo em média cerca de 2 milhões de hectolitros por ano desde 2018”. No segundo país mais populoso do mundo, e que há já algum tempo passou a ser também produtor de vinho, esse recuo foi de 13% no consumo.

“Em conjunto, estes três mercados representam uma fatia substancial da redução observada no consumo global de vinho nos últimos anos.”

Em contraciclo

Em contraciclo, brasileiros, portugueses e japoneses beberam mais em 2025 do que nos últimos anos. Brasil e Portugal registaram, respectivamente, aumentos de 41,9% e 5,6% no consumo de vinho.

Portugal “apresenta uma trajectória marcadamente diferente” dos restantes países do velho continente, sublinham os relatores da OIV. “Com um consumo de 5,6 milhões de hectolitros em 2025, o país atingiu um nível recorde [de consumo], com um aumento de 5,6% em relação a 2024 e 7,4% acima da média dos últimos cinco anos”.

E o aumento de consumo de vinho por parte dos portugueses não é um aumento qualquer. O nosso país é destacado no relatório da Organização Internacional da Vinha e do Vinho também porque o vinho que bebemos no ano passado é “o maior volume de consumo alguma vez registado” no nosso país, “confirmando Portugal como um dos poucos grandes mercados de vinho da União Europeia onde o consumo interno continua a apresentar uma tendência positiva”.

O único caso que se assemelha ao português é a Roménia, que em 2025 consumiu 3,5 milhões de hectolitros, registando assim “um aumento de 11,0% no consumo de vinho face a 2024, [e] mantendo-se 14,3% acima da média dos últimos cinco anos”.

Já o Brasil, que é o segundo maior mercado da América do Sul a seguir à Argentina, terá atingido, estima a OIV, “o maior volume de consumo da sua história, com 4,4 milhões de hectolitros, um aumento significativo face ao baixo nível registado em 2024” — subiu os tais 41,9% — e “consideravelmente superior à média dos últimos cinco anos (+19,9%)”.

O Japão, o maior mercado de vinhos da Ásia depois da China, é um destino que tem vindo a revelar uma abertura cada vez maior aos vinhos portugueses, registou um aumento de 6,8% face a 2024, atingindo um consumo de 3,3 milhões de hectolitros.


As exportações dos países produtores de vinho também caíram, 4,7%, para 94,8 milhões de hectolitros. Em valor, houve uma descida de 6,6% para 33.800 milhões de euros, ou seja, o negócio mundial de vinho também encolheu e está 4,4% abaixo da média dos últimos cinco anos.

Segundo a OIV, as descidas ocorridas no comércio internacional devem-se às tarifas impostas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, aos vinhos importados pelos EUA, assim como à diminuição da procura nos principais países consumidores e a flutuações cambiais.

O preço dos vinhos exportados teve um retrocesso de 2,1% para uma média de 3,56 euros por litro.

Tudo isto num ano em que a produção global de vinho aumentou ligeiramente: em 2025, teve uma recuperação de 0,6% para 227 milhões de hectolitros.