“Black Country Woman” começa quase como se alguém tivesse esquecido a porta do estúdio aberta. Antes da música engrenar, dá para ouvir uma pequena conversa, um aviso sobre um avião passando e a decisão imediata de Robert Plant de não se preocupar muito com aquilo. Para uma banda que tantas vezes foi tratada como monumento de precisão, peso e grandeza, é um começo deliciosamente esquisito que ficou para a posteridade: o Led Zeppelin deixando o mundo real entrar na gravação e seguindo em frente.
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Foto: Rhino – Atlantic Records
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A faixa foi registrada em 1972, nas sessões ligadas a “Houses of the Holy”, mas acabou ficando guardada até aparecer em “Physical Graffiti”, lançado em 1975. O cenário também ajuda a explicar a pequena bagunça. Em vez de gravar em um estúdio tradicional, o Zeppelin estava em Stargroves, a casa de campo de Mick Jagger, usando o estúdio móvel dos Rolling Stones. Jimmy Page gostava desse tipo de ambiente menos convencional, e a banda já vinha explorando lugares que fugiam da sala comum de gravação.
No caso de “Black Country Woman”, a solução foi levar a gravação para fora. Eddie Kramer, engenheiro ligado a vários trabalhos importantes do rock, explicou em seu arquivo que Page e John Paul Jones foram colocados ao ar livre para gravar os violões sem a interferência acústica de uma sala. Só que, quando a fita começou a rodar, um avião passou por cima. Kramer percebeu o problema e comentou algo como: “Não quero pegar esse avião.” Plant respondeu sem cerimônia: “Nah, leave it.” Ou, em português bem simples: “Não, deixa aí”. Que, neste caso significa: “Vai assim mesmo”.
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Esse detalhe poderia ter sido cortado. Em uma gravação mais limpa, a banda simplesmente teria recomeçado, esperado o avião passar e preservado a ilusão de um ambiente perfeito. Mas o Zeppelin não era esse tipo de grupo o tempo inteiro. Page podia ser obsessivo com timbres e produção, mas também entendia o valor de uma tomada com vida própria. O ruído, nesse caso, não atrapalha a música. Ele quase apresenta a cena: músicos no campo, fita rodando, clima solto e alguém decidindo que a imperfeição fazia parte do pacote.
A própria canção combina com isso. “Black Country Woman” não é uma peça monumental como “Kashmir”, nem uma pancada elétrica como “Trampled Under Foot”. É uma faixa acústica, com pegada roots, gaita, violões e aquele jeito de blues rural filtrado pelo universo do Led Zeppelin. Dentro de “Physical Graffiti”, um álbum duplo que alterna sobras reaproveitadas, gravações novas e momentos de várias fases da banda, ela funciona como um respiro mais cru no meio da grandiosidade.
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O título também carrega uma referência geográfica. Black Country é uma região das Midlands Ocidentais, na Inglaterra, associada historicamente à indústria pesada e próxima das origens de Robert Plant e John Bonham. Isso dá à música uma camada curiosa: ela soa como uma brincadeira acústica meio americana, mas o nome aponta para um pedaço bem britânico da história da banda.
A fala “deixa aí” virou uma pequena senha para fãs porque resume bem uma parte do charme do Led Zeppelin. A banda podia fazer discos enormes, tocar por horas e transformar o rock em espetáculo de arena, mas também sabia preservar um acidente quando ele melhorava a atmosfera. Nem toda falha precisa ser corrigida; às vezes, ela coloca o ouvinte dentro do lugar onde a música aconteceu.
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No fim das contas, “Black Country Woman” é quase uma fotografia sonora de Stargroves em 1972. O avião passa, Kramer se preocupa, Plant não liga, e a gravação segue. Décadas depois, esse começo errado talvez seja justamente uma das coisas mais certas da faixa. O Led Zeppelin podia apagar o ruído e fingir que tudo nasceu limpo. Preferiu deixar o avião sobrevoar o disco, como quem diz que certas músicas funcionam melhor quando não passam pela alfândega da perfeição.
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