O TopCycling com Pau Salvà, o treinador de Afonso Eulálio, que está entusiasmado por descobrir os limites de um dos melhores projetos da Bahrain.
Por esta altura já se disse quase tudo sobre a carreira de Afonso Eulálio e a forma meteórica como passou de nem correr na estrada a chegar ao WorldTour e em menos de um ano e meio ter sido capaz de se colocar como líder do Giro de Itália.
No TopCycling, as primeiras notícias sobre o figueirense datam de 2023 e a primeira entrevista foi feita já em 2024, quando começou a ser associado à Bahrain. Aliás, fomos os primeiros a confirmar essa transferência e a conversar com Joaquim Andrade sobre o que o seu pupilo poderia levar para o escalão máximo do ciclismo.
Desde que chegou à Bahrain, que em janeiro temos ido ao encontro do corredor de 24 anos e podido observar como cada vez está mais à vontade na equipa, desde a comunicação em inglês ao simples facto de ser um tipo com uma personalidade amigável, o que lhe permitiu meter staff e colegas no bolso.
Quando entrevistei Antonio Tiberi e Lenny Martinez, foi a primeira vez em muitas apresentações de equipas que nenhum dos entrevistados se levantou para ir atender outros meios. Afonso Eulálio tem algo de magnético e não só é valorizado pelo que pedala, mas como ser humano.
Entrevista | Caçar etapas é a prioridade de Afonso Eulálio no Giro de Itália
Eulálio em ação na quinta etapa do Giro.
Foto: LaPresse
“Em 2026 as expetativas com ele são maiores”
Quando fui a Altea, na Comunidade Valenciana, para mais dois dedos de conversa no fantástico hotel Cap Negret, onde entrevistamos os corredores com o Mediterrâneo ao fundo, também pude conversar com o novo treinador do português.
Pau Salvà chegou em 2026 à Bahrain e na redistribuição de treinadores ficou com dois dos melhores da equipa: Santiago Buitrago e Afonso Eulálio, além de treinar dois miúdos da equipa de desenvolvimento e um júnior (Canibal).
Em janeiro, trabalhava há pouco tempo com Afonso Eulálio, mas as primeiras impressões sobre o corredor foram ótimas e o técnico tinha a lição perfeitamente estudada.
“Foi um descobrimento importante. Em 2020 começou a fazer um pouco de BTT e algumas corridas, foi detetado pela equipa nacional [Feirense], passou a fazer estrada e BTT. De 2020 a 2025 chegar ao WorldTour e acabar 8º num dos Mundiais mais duros, no Ruanda, diz muito do seu potencial. Ainda se está a desenvolver, mas em 2026 as expetativas com ele são maiores.”
Além da geral individual, Eulálio é o melhor jovem do Giro.
Foto: LaPresse
Capaz de se transcender em competição
A ideia passou por ir de menos a mais na época, sabendo que o foco estava colocado no Giro de Itália, só que o antigo ciclista do Feirense entrou com força e logo no Alula Tour foi 2º numa etapa e terminou 5º na geral.
Para Pau Salvà, este exemplo ajuda a conhecer a mecânica de pensamento do corredor da Bahrain, que treina bem, mas é capaz de se transcender em competição.
“É uma pessoa tranquila, aceita o que lhe dizemos, cumpre o treino prescrito e confia no treinador e no que estamos a fazer. Depois é um corredor que faz o clique quando compete e é capaz de se superar quando compete, que não é um atributo um atributo que muitos corredores tenham. Normalmente, em treino, são capazes de ir mais fundo, ao limite do esforço, mas o Afonso desfruta quando compete, é o que gosta de fazer e aqui estamos para ganhar corridas. Somos uma equipa WorldTour e esse é o objetivo. Ele gosta de correr e correr para ganhar, é um talento natural que tem e que ainda está por explorar.”
Em final de contrato com a equipa do Médio Oriente, o TopCycling sabe que desde janeiro que o futuro de Afonso Eulálio está tratado e salvo alguma novidade de última hora vai continuar na Bahrain por vários anos.
O objetivo é continuar a trabalhar para melhorar o que já faz bem e subir o nível em aspetos onde tem margem de progressão.
“Queremos incidir em que os seus umbrais não parem de subir. Tem que melhorar o posicionamento no pelotão, ser capaz de ir uma hora sempre no máximo e saber que há momentos em que tem que comer e beber. Não é só melhorar aspetos físicos, também alguns técnicos. Podemos intuir que nos próximos dois anos ele irá a mais, porque no primeiro ano já superou as expetativas e não vejo porque neste segundo ano não continue a melhorar. Não sabemos onde está o teto dele, é isso que queremos descobrir, além de percebermos em que corridas se mexe melhor para perfilarmos bem o calendário, isto é, se vai ser um líder em Grandes Voltas ou lutar por vitórias em provas de um dia. No contrarrelógio está totalmente por polir, mas é uma questão de trabalho; acabo de começar a trabalhar com ele e no estágio de janeiro fizemos o teste aero, deixamos a bicicleta ajustada e quanto mais trabalhar mais melhorará.”
Arrieta ganhou a etapa a Eulálio.
Foto: LaPresse
Quem é realmente Afonso Eulálio
Por agora, Afonso Eulálio continua à procura da primeira vitória desde que se converteu no primeiro português na estrutura da Bahrain e não se pode dizer que não tenha tentando porque já leva 10 top 10 em 95 dias de competição.
Parece pouco, mas é muito, dado que foi um atleta que passou da terceira divisão para o WorldTour. De correr provas de classe 1 e 2 a lutar por lugares de destaque em corridas dos dois escalões mais altos e contra rivais de nível superior.
Num momento em que muita gente se questiona que tipo de corredor é e pode vir a ser, pedimos a Pau Salvà que nos ajude a perceber quem é realmente Afonso Eulálio.
“Tem perfil para andar bem na alta montanha e em provas de um dia de constante sobe e desce, daquelas que se não tens pernas ao início não estás na frente; ele tem essa capacidade. É um escalador com punch, como temos outros na equipa, como o Buitrago, e é um perfil pouco habitual: capaz de fazer esforços de um minuto no final de uma corrida, capaz de fazer essa aceleração. Queremos que mantenha esse punch, mas é um motor que ainda se está a desenvolver e que não tem 10 anos, pelo que queremos ver onde está o teto dele e onde pode chegar. Não este ano, porque continua em desenvolvimento, mas que o motor continue a crescer para que faça coisas grandes.”