A cantora Bárbara Tinoco deu a conhecer o seu novo disco numa listening party, na quinta-feira, dia 14 de maio, na véspera do lançamento deste “Hormonal”, que dedica à filha, Masha, fruto da relação com o guitarrista Feodor Bivol.
Em duas sessões, a cantora proporcionou um momento íntimo no Reservatório Mãe d’Água, em Lisboa, onde muitos amigos (e também artistas) ouviram os temas que compõem este novo trabalho.
Todos sentados numa almofada branca, na plataforma existente no local por cima do tanque central, descalços. Bárbara Tinoco não cantou, mas apresentou cada tema do disco. Estiveram presentes nomes como Carolina Deslandes, Nena, Carolina de Deus, Catarina Furtado, Agir ou Miguel Cristovinho.
Cada pessoa tinha os seus fones e as letras de todos os temas, até porque é assim que Bárbara Tinoco gosta de ouvir as músicas, sempre com a letra em conjunto. E sentiu que esta seria “uma forma gira” de mostrar aos amigos o resultado do novo trabalho.
“Hormonal” começa com um single que foi feito depois do nascimento de Masha, “Sangue na Guelra”, e “reflete uma mãe em pós-parto com um bebé, e a andar pela estrada”.
“Olha pra mim que eu sou mais bonita desde que eu fui mãe” ou “À noite eu ganho vida; Tou no palco; Ou tou em casa; Vejo a pequena a dormir; Ou multidão em brasa; E eu paro só pra apreciar a vista; Não acredito; Que esta é mesmo a minha vida”, são partes da letra deste tema de abertura.
Segue-se “Som + Bonito do Mundo”, em que começa por se ouvir a filha a rir. Aqui há algumas referências em russo – para que a pequena Masha possa ter a presença marcada da mãe e do pai. De lembrar que Feodor Bivol é um músico e produtor russo, mas vive há vários anos em Portugal.
Depois ouvem-se músicas que recuam ao início da relação de Bárbara e Feodor, que se conheceram num concerto de Carolina Deslandes, pois a cantora quis contar à filha – através do disco – toda a história deste amor que resultou no seu nascimento, incluindo de como era antes de conhecer o companheiro. Fala-se muito de amor na sua intensidade e de relações.
“Mulherzinha”, “Cronologia do Início”, “Obcecada”, “Daddy Issues”, “Cozinha”, “10Min”, “Época de Caça” são, então, os temas que se seguem até “Escolha Errada”, que nos leva a um triângulo amoroso, “que dá origem à história de amor” do casal.
O disco continua com “Pretérito + Que Perfeito”, “Tem Lá Uma Tristeza”, “Foste o Primeiro” e “Milf”, chegando a “A Coisa + Assustadora”, que levou Bárbara Tinoco a refletir sobre a gravidez, pois ficou, diz, assustada quando soube da gestação, apesar de a filha ter sido planeada e muito desejada. No entanto, depois de a pequena Masha nascer todos os medos ou receios desapareceram. Apesar de ter sido um início assustador, terminou com a melhor transformação da sua vida.
“Amor no Dicionário” é outro tema dedicado à pequena Masha, e a música preferida de Bárbara Tinoco, que reflete sobre este amor incondicional de pais para filhos, “e que não vem no dicionário”.
“Hormonal” fecha com uma canção de Carolina Deslandes, e cantada pela própria, com o nome “Masha”. Este foi um presente que a artista quis oferecer à pequena Masha, tendo sido o “melhor presente que alguém já deu a Bárbara e à filha”, como a própria Bárbara Tinoco mencionou. Neste tema, Deslandes conta a história de amor dos amigos na sua perspetiva. “O final perfeito deste disco. Obrigada, Carolina.”
Momentos antes de dar a conhecer todas as músicas deste novo álbum, Bárbara Tinoco esteve à conversa com o Notícias ao Minuto.
Tendo agora construído a sua família, uma casa onde a música são as paredes, Bárbara Tinoco comentou: “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Em casa, diz, “há sempre música a tocar”, mas “nunca nada que tenham feito” – quer a cantora quer o músico. “Sentamo-nos juntos para fazer canções e o Feodor é das minhas pessoas preferidas para fazer música, se é que não é mesmo a minha preferida”, revela.
“É engraçado a dinâmica de fazer música quando és só um namorado ou quando já é tipo um casamento com filhos. Dizemos um ao outro: «Tu és muito chata; tu és muito chato». Mas, na verdade, não trocaria, e algumas das minhas canções preferidas neste disco, aliás, a minha preferida fi-la com o Feodor, que é «Amor no Dicionário»”, partilhou ainda durante a conversa.
A entrevista começou com aquele que é o tema mais conhecido deste “Hormonal” até ao lançamento do disco, “Tem Lá Uma Tristeza”. Trata-se de uma música que apresentou há cerca de cinco meses e que resulta de uma colaboração com a cantora brasileira Mari Froes.
Tenho algumas canções que são muito diferentes de Bárbara Tinoco, mas não tão diferentes que se estranhe muito. A escrita é muito minha. Não é um fim com o passado, é um acréscimo, como a minha filha foi para mim
Leia a entrevista na íntegra:
Este disco é dedicado à sua filha, mas o tema “Tem Lá Uma Tristeza”, que resulta de uma colaboração com Mari Froes, é um dos singles que completam este novo trabalho.
Essa música com a Mari já é uma sonoridade nova minha, um bocadinho diferente, mas dentro daquilo a que sempre habituei as pessoas e os meus fãs. A coisa de fazer um disco novo e de querer experimentar uma nova sonoridade – que foi o que fiz – é não perder a identidade, mas ter a oportunidade de explorar outras coisas. Fiz canções neste disco que nunca tinha encontrado a forma certa de fazer.
Estou a trabalhar com [o produtor] Charlie Beats e com o Feodor [Bivol], e eles criaram uma nova sonoridade para mim – pensaram em ideias e depois escrevemos as canções em conjunto. Tenho algumas canções que são muito diferentes de Bárbara Tinoco, mas não tão diferentes que se estranhe muito. A escrita é muito minha. Não é um fim com o passado, é um acréscimo, como a minha filha foi para mim.
Pegando ainda nesta canção com a Mari Froes, quando foi lançada a Bárbara explicou que a cantora brasileira foi muito presente nos primeiros meses após o nascimento da pequena Masha. Mas depois como é que se deu este encontro/colaboração? Até porque a canção é escrita em conjunto.
Foi uma canção conjunta e foi um milagre. Não costumo fazer canções tão rapidamente, nem em estúdio com ninguém, mas ela estava cá, tínhamos de aproveitar a oportunidade e fizemos uma canção que acho linda.
Já conheço a Mari há muito tempo, calhou ela vir fazer uma tour na Europa, fomos para estúdio e fizemos esta canção, que me fez todo o sentido no disco – também pelo lado especial de a voz da Mari me ter feito companhia numa das fases mais vulneráveis da minha vida, e mais feliz também.
Às vezes, se procurarmos, se fizermos a pergunta certa, toda a gente tem uma tristeza no canto do seu olho
Mas como surgiu a inspiração para este tema? Qual a história por trás da sua construção?
O Feodor estava a tocar uns acordes, e eu como sou uma compositora mais para o triste disse-lhe para não tocar aquilo porque a Mari é feliz. Nós ouvimos as canções dela, ela alegra as nossas manhãs e não íamos meter a Mari triste. Mas ela disse: “Não, não, eu também sou triste”.
Quando acabámos de escrever a canção, pensei em como todas as pessoas, sem exceção – se olhares bem no fundo, bem no canto do olho daquela pessoa – têm lá uma tristeza. E mais vezes do que não, essa tristeza é mesmo alguém. E não é um namorado, mas é uma pessoa que já não está cá, um filho que está longe. Às vezes, se procurarmos, se fizermos a pergunta certa, toda a gente tem uma tristeza no canto do seu olho.
Este disco é dedicado à sua filha, mas também não deixa a sua identidade de fora, como vemos, aliás, neste tema com a Mari Froes. O que é que as pessoas vão encontrar e como fez esta passagem que junta os dois ‘mundos’?
O tema “Amor no Dicionário” é uma canção sobre a maternidade, que é o clássico que acho que esperam de mim enquanto compositora. E há uma faceta nova de mim, que é a primeira canção do disco, chama-se “Sangue na Guelra”, e que estou a cantar sobre maternidade, sobre como é que me sinto depois de ser mãe, a ser eu própria. Ser artista na mesma, mas a ser mãe da Masha. Essa canção já é um estilo que não é o que me reconhecem, ou não é o que me dizem: “Isto é clássico Bárbara Tinoco”.
É engraçado que dentro do mesmo disco não é o mesmo assunto porque as canções são sobre coisas diferentes, mas o mesmo sentimento vem vestido de várias formas.
Nós vemos os filmes e no final as pessoas dão um beijinho, ficam juntas para sempre e esse é o final feliz. Apercebi-me com a minha filha que ela, na verdade, é o final feliz da minha história
O que espera que as pessoas, depois de ouvirem este disco, possam retirar?
O disco conta à nossa filha Masha a história de amor dos seus pais, como é que ela chegou até aqui. Depois é sobre ela, sobre este período “maravilhoso” que é a gravidez e o período mais maravilhoso que é quando a Masha nasceu.
Uma das coisas de que me apercebi com este disco foi: Nós vemos os filmes e no final as pessoas dão um beijinho, ficam juntas para sempre e esse é o final feliz. Apercebi-me com a minha filha que ela, na verdade, é o final feliz da minha história. E todos os filhos que possamos ter no futuro são o verdadeiro final feliz da nossa história. Não é o beijo no fim, são os nossos filhos, os nossos netos e o que vem por aí.
A sua escrita tem, de facto, um lado mais íntimo, e podemos até recuar ao último álbum, “Bichinho”, em que fala de relações passadas, por exemplo. É mais fácil ‘deitar cá para fora’, expressar-se, através da música?
É sempre mais fácil deitar cá para fora através da música, é aquilo que faço desde miúda e nem sequer tenho outra forma para fazer isso. Sou mesmo compositora em todos os sentidos.
Se tivesse de escrever uma frase sobre a carreira que tem construído, qual seria?
Os sonhos são mais de construir do que sonhar.
A minha filha não me tirou nada, acrescentou tudo. Menos sono
E se este disco se refletisse num quadro, qual seria a imagem que as pessoas iriam ver?
Uma mãe! A imagem deste disco é a matriosca, a maternidade, é uma mulher grávida. Ver uma mulher grávida é uma experiência mágica. Nós estamos a ver alguém fazer uma pessoa do início ao fim. Não há ninguém que fique indiferente quando uma mulher grávida passa. Tem um impacto em ti, é um milagre que estamos a testemunhar – todos, coletivamente.
Já passou um ano desde que foi mãe. Como tem sido a sua experiência?
Dormes muito menos. Tudo o resto, é sempre a somar. A minha filha não me tirou nada, acrescentou tudo. Menos sono. Efetivamente, sono tenho mais.
E enquanto artista, há aqui uma nova fonte de inspiração?
100%. Este disco não existia se não houvesse Masha. Não existia, era outro disco, se calhar também era bom, mas este só existe porque existe a Masha. Este disco é para ela.
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