A tecnologia tem o hábito de nos prometer o futuro em doses homeopáticas, mas o que a Google apresentou esta semana, durante o Android Show, parece ser um salto qualitativo que há muito não víamos. No centro de todas as atenções esteve o Android 17, a próxima versão do sistema operativo mais usado do planeta, que agora assume uma identidade declaradamente centrada na inteligência artificial (IA). Se até aqui falávamos de ferramentas que nos ajudavam a escrever um email ou a retocar uma fotografia, a nova proposta da gigante de Mountain View quer ir muito mais longe. A ideia é que o telemóvel deixe de ser apenas uma janela para o mundo e passe a ser um agente de IA, um assistente activo que compreende o contexto das nossas vidas.
A grande estrela desta evolução chama-se Gemini Intelligence. Trata-se de uma camada de IA profundamente integrada no núcleo do sistema, capaz de realizar tarefas complexas, que antes exigiriam a abertura de várias aplicações e muitos toques no ecrã. Imaginem que recebem um convite para um jantar através de uma mensagem. O Android 17 será capaz de identificar o local, consultar a vossa agenda para verificar a disponibilidade, sugerir o melhor trajecto e até reservar uma mesa, tudo isto sem que tenham de saltar entre o Calendário, Mapas e uma aplicação de reservas.
Antecipar as necessidades
Esta capacidade de automatização multinível é, talvez, a mudança mais visível no dia-a-dia. A Google deu exemplos práticos que tocam na rotina de qualquer um de nós. Ao tirar uma fotografia a um folheto de um festival de Verão, o utilizador pode pedir ao Gemini para adicionar todos os concertos de jazz ao seu calendário. A IA analisa a imagem, filtra a informação relevante e organiza a agenda de forma autónoma. No navegador Chrome, a integração vai ainda mais longe com o resumo inteligente de páginas e a capacidade de preencher formulários complexos recorrendo a dados guardados de forma segura, o que promete poupar minutos preciosos de tédio digital.
Outra novidade que despertou curiosidade foi o chamado “vibe-coding” de widgets. Tradicionalmente, os pequenos painéis informativos que temos no ecrã principal são estáticos e limitados ao que o programador decidiu. Com a funcionalidade Create My Widget, o utilizador pode simplesmente descrever o que deseja. Se quiserem um painel que mostre simultaneamente a contagem decrescente para a próxima maratona, a previsão do tempo para esse dia e o preço das acções da empresa onde trabalham, basta pedir. A IA gera o widget de raiz, adaptando o design ao estilo visual do resto do sistema. É a personalização levada ao extremo, onde o limite deixa de ser o código e passa a ser a imaginação de quem usa o aparelho.
No novo Android, o utilizador pode criar os seus próprios widgets
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Bem-estar digital
Numa era em que a economia da atenção nos mantém agarrados ao ecrã mais tempo do que desejaríamos, a Google introduziu uma ferramenta curiosa chamada Pause Point. Esta funcionalidade introduz uma pausa de dez segundos antes de permitir a abertura de aplicações que causem distracção. Durante esse tempo, o sistema sugere exercícios de respiração, a audição de um audiolivro ou, simplesmente, mostra fotografias de momentos felizes. Para desactivar esta barreira, o sistema exige que se reinicie o telefone, uma camada extra de dificuldade que visa desencorajar impulsos e promover um uso mais consciente da tecnologia.
A segurança também não foi esquecida, e aqui a IA actua como um guarda-costas digital. O Android 17 introduz o sistema de detecção de ameaças em tempo real, que monitoriza o comportamento de aplicações suspeitas, sem enviar dados para a nuvem. Mais impressionante é a promessa de uma protecção efectiva contra chamadas fraudulentas. O sistema será capaz de identificar padrões de conversação típicos de burlas e emitir um aviso visual no ecrã, alertando o utilizador de que aquela chamada, apesar de parecer vir de uma instituição oficial, é provavelmente um ataque de engenharia social. Em caso de roubo do aparelho, o sistema de bloqueio biométrico remoto permite inutilizar o smartphone apenas com a voz ou reconhecimento facial a partir de outro dispositivo, tornando os dados inacessíveis a mãos alheias.
A Google aproveitou ainda o palco para reforçar a ponte entre diferentes dispositivos. O anúncio dos Googlebooks, uma nova categoria de computadores portáteis concebidos para trabalhar em harmonia com o Android, mostra que a empresa quer criar um ecossistema tão coeso quanto o da sua principal rival, a Apple. Uma das ferramentas mais interessantes é o Magic Pointer, que oferece sugestões contextuais baseadas no que está a acontecer no telemóvel Android que está ao lado. Se estiverem a ver um gráfico no smartphone, o Magic Pointer permite “puxar” essa informação directamente para um documento no computador com um gesto simples.
O Google Pause Point “obriga” o utilizador a fazer uma pausa quando passa demasiado tempo a usar o telemóvel
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No automóvel, o Android Auto recebeu uma actualização visual inspirada na linguagem Material 3, com mapas mais imersivos e a possibilidade de ver vídeos em alta-definição quando o veículo está estacionado, aproveitando o sistema de som Dolby Atmos, que começa a ser comum nos modelos mais recentes.
O Gemini já começou a chegar aos carros através do Android Auto
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