NOAA ESRL / Flickr

Como se a escassez de petróleo, as guerras intermináveis e a angústia existencial provocada pela inteligência artificial não fossem já suficientemente preocupantes, está a formar-se um novo El Niño — e tudo indica que será um dos mais severos em mais de um século.

De acordo com vários modelos meteorológicos, o El Niño, um fenómeno climático prolongado, caracterizado por temperaturas invulgarmente elevadas, que ocorre de dois em dois anos, poderá este ano facilmente ser o mais grave de que há registo na era moderna.

Segundo avança o Wall Street Journal, o período de calor deste ano poderá fazer subir as temperaturas dos oceanos até 3°C.

Entre outras consequências, o fenómeno traduzir-se-á em secas generalizadas para uns, cheias para outros e, porventura o cenário mais alarmante de todos: um caos no abastecimento alimentar mundial.

Para encontrar um equivalente histórico, os cientistas tiveram de recuar até 1877, ano em que um El Niño implacável desencadeou uma mortandade que poucos acontecimentos podem rivalizar.

Segundo o WSJ, a catástrofe alimentou secas prolongadas, culminando numa fome global que vitimou pelo menos 50 milhões de pessoas, embora algumas estimativas apontem para um número ainda mais aterrador: 60 milhões. Este era o equivalente, na altura, a cerca de 3% da população mundial.

Segundo um estudo publicado em 2018 no Journal of Climate, este foi provavelmente o pior desastre ambiental a alguma vez abater-se sobre a humanidade e uma das maiores calamidades de qualquer natureza nos últimos 150 anos, com uma perda de vidas comparável à das Guerras Mundiais e à epidemia de gripe de 1918/19.

À medida que a humanidade foi evoluindo, alguns sugeriram que fenómenos como o El Niño de 1877 representaram um verdadeiro teste de resistência ao nosso progresso, expondo os pontos frágeis dos nossos sistemas políticos e económicos. Com a pobreza generalizada e a exploração colonial a alimentar fomes devastadoras ao longo do século XIX, é legítimo afirmar que falhamos o teste, diz o Futurism.

Embora tenhamos percorrido um longo caminho desde então, os céticos não ficam sem argumentos. O El Niño deste ano surgirá na sequência de secas generalizadas, de uma cadeia de abastecimento alimentar fragilizada e de vários anos de temperaturas oceânicas recordes, para citar apenas alguns exemplos prementes.

Se 2026 se tornará mais um capítulo neste ciclo de devastação evitável depende de como utilizarmos a tecnologia, os recursos e o conhecimento ao nosso dispor.

Embora seja tentador relegar a calamidade vivida pelos nossos antepassados para uma mera nota de rodapé na história, o futuro nunca é certo — e a história não perdoa descuidos.


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