Quando saiu do Sporting aos 18 anos depois de uma exibição que não poderia estar mais à altura da ocasião de gala como era a inauguração do Estádio José Alvalade, Ronaldo levava apenas um título nacional no seu currículo: a Supertaça. Quando chegou a Inglaterra, começou a dar o grande salto em termos da influência que todos percebiam que teria a partir de 2005, chegando a 2007/08 com números esmagadores que tinham 42 golos e sete assistências em 49 jogos numa só época. Aí, além dos cinco troféus nacionais entre Premier, Taça de Inglaterra, Taça da Liga e Supertaça, foi pela primeira vez campeão europeu. No entanto, tudo o que fazia no Manchester United era curto para se resumir a um continente – e alargou-se ao plano mundial.
Foi no final desse ano de 2008 que o avançado conseguiu o seu primeiro Mundial de Clubes, prova que iria ganhar mais três vezes pelo Real. Entre dezenas e dezenas de títulos que continuou a ganhar, incluindo mais quatro Ligas dos Campeões pelo conjunto de Madrid nos anos que lhe valeram as cinco Bolas de Ouro que tem e um Campeonato da Europa e duas Ligas das Nações por Portugal, esse foi um título especial. Aos 41 anos, jogando mais ou menos, marcando mais ou menos, houve algo que nunca desapareceu: a vontade de ganhar troféus. E, passando ao lado da Taça dos Campeões Árabes, isso era aquilo que faltava nesta última etapa da carreira na Arábia Saudita: mais títulos. Com uma curiosidade: o primeiro troféu continental que tinha em jogo numa final conhecia como adversário os japoneses do Gamba Osaka, equipa que defrontou nas meias-finais do tal Mundial de Clubes que ganhou em 2008 e a quem marcou um dos golos no 5-3.
The dream is close. Heads up, we have one more step to take! Thank you all for the amazing support tonight! pic.twitter.com/zQphO0lN1b
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Agora, a realidade era diferente. Ronaldo não é o mesmo jogador que era há quase duas décadas, quando foi à Ásia brilhar com a camisola do Manchester United, mas, numa fase em que partia apenas a 29 golos de atingir a fasquia dos 1.000 pela qual todos aguardam como se de uma inevitabilidade se tratasse, esta seria uma final com tanta importância como todas as outras. Mais: o próprio contexto em que chegava a decisão da Liga dos Campeões 2 asiática (mal comparado, uma espécie de Liga Europa do continente), depois de o Al Nassr ter visto a festa do título adiada por um erro colossal do guarda-redes Bento nos últimos segundos do dérbi com o Al Hilal, colocava ainda mais à prova aquilo que o conjunto do capitão da Seleção faria.
O dia por que ele esperava tornou-se o dia mais surreal: Al Nassr empata com Al Hilal e adia título
“É claro que este é um grande jogo, isso é evidente pela quantidade de pessoas nesta conferência. Estamos preparados para os desafios e dificuldades. Vamos enfrentar uma equipa teimosa e com um bom nível de preparação física mas acreditamos muito nas nossas capacidades e esperamos vencer. Nem eu nem nenhuma equipa saudita ganhou este troféu antes e queremos aproveitar ao máximo esta oportunidade. Não sabemos se teremos outra oportunidade de jogar esta final e esperamos conquistar o título”, salientara na antevisão Jorge Jesus, passando ao lado da frustração da última partida na Liga saudita: “Isso agora é passado. Já falámos com o Bento. Ele fez uma grande defesa frente ao Benzema nos primeiros minutos do dérbi e fez um excelente jogo. Nenhum guarda-redes infalível e o mesmo se aplica a avançados e defesas, todos estão sujeitos a cometer erros. Não me detenho nos aspetos negativos dos meus jogadores”.
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Apesar dessa contrariedade, o Al Nassr enfrentava até uma situação insólita este sábado, com a hipótese de acabar o dia sem títulos, com um troféu na mão ou… a celebrar em duplicado, neste caso se o Al Hilal não vencesse o Neom para a Liga saudita num jogo que se realizava na mesma altura (e que terminou com nova vitória do conjunto de Rúben Neves). E, numa semana que ficou também marcada por mais um investimento de Ronaldo fora do futebol, neste caso com a compra de uma participação substancial da LiveModeTV, empresa de streaming de conteúdos desportivos que estreia a sua operação em Portugal com transmissão, em direto no YouTube, do Mundial, os títulos ficaram também adiados: o Al Nassr perdeu pela margem mínima e viu fugir mais um troféu depois da derrota a abrir a época na final da Supertaça. Parece que só mesmo com um milagre será possível quebrar o enguiço… que desta vez não teve Bento como “culpado”.
Cristiano Ronaldo compra “participação relevante” na LiveModeTV
O jogo não começou propriamente da melhor forma para o Al Nassr e não era preciso ser propriamente um assistente assíduo da Liga saudita para se perceber o porquê: o Gamba Osaka, orientado pelo jovem alemão Jens Wissing, conseguia alguns momentos de pressão em zonas mais altas a que os sauditas não estão muito habituados na competição interna, provocando o erro e atrapalhando a saída para o ataque da formação de Riade. Jorge Jesus ia gritando na zona técnica, bastando uma boa saída com remate de Ghareeb travado pelo guarda-redes Rui Araki para tirar a equipa desse colete de forças a que estava amarrado (8′). João Félix teve também um remate defendido (12′), Iñigo Martínez criou perigo na sequência de um desvio de cabeça após livre lateral na esquerda do ataque (19′) mas essa pressão ofensiva continuava sem resultados práticos.
A partir daí, Ronaldo foi também entrando mais em foco. Com um remate falhado na área em boa posição depois de uma boa jogada de Ghareeb pela direita, num livre direto que ficou na barreira, num lance em que João Félix fez a assistência mas houve ainda um corte para canto antes de chegar ao capitão da Seleção. Com Rui Araki a brilhar na baliza, o golo do Al Nassr parecia uma inevitabilidade mas um contra-ataque acabou por mudar todas as contas, com Deniz Hümmet a rematar colocado para o 1-0 (29′). Ghareeb ainda teve uma tentativa que passou muito perto do poste e Ronaldo desviou de cabeça ao lado mas o intervalo chegaria mesmo com o Al Nassr em desvantagem num encontro em que esteve quase sempre por cima.
A segunda parte, ainda com menor expressão ofensiva do Gamba Osaka, foi mais do mesmo: o Al Nassr foi criando desequilíbrios no último terço apesar de continuar a acusar sobretudo a ausência de Brozovic para dar outro critério no jogo da equipa, teve mais oportunidades para chegar ao empate mas, de uma ou outra forma, os nipónicos conseguiram segurar o 1-0, fazendo a festa em pleno Alawwal Park, casa do conjunto saudita, que mais uma vez voltou a não conseguir festejar a conquista de um troféu. O Campeonato ainda está em aberto e à distância de um triunfo frente ao Damac mas outro dos grandes objetivos da temporada voltou a cair por terra, depois da Supertaça logo no início da época e da Taça do Rei saudita.