Num webinar no mês passado, Paula White-Cain, a pastora que é também conselheira para assuntos religiosos da Casa Branca, afirmou que o evento “trata da história e dos alicerces da nossa nação, que foi construída com base nos valores cristãos, na Bíblia… Trata-se, na verdade, de uma verdadeira rededicação do país a Deus”.
Ora se no passado outros presidentes recorreram a orações genéricas de agradecimento a Deus nos momentos de celebração da independência do país, os especialistas em história religiosa americana afirmam que este jubileu nacional não tem precedentes na era moderna. Talvez devido à sua dimensão.
Vão ser mais de nove horas seguidas e dezenas de discursos, todos focados na identidade americana como o conservadorismo protestante.
Segundo os dados do Pew Research Center, 62% dos americanos identificam-se atualmente como cristãos (os protestantes evangélicos representam a maior fatia, 23%, seguidos dos católicos, 19%), com 29% a responderem não terem qualquer afiliação religiosa (entre ateus, agnósticos e outros). As outras religiões constituem 7%, com os judeus a serem a maior tranche (2%).
“O que deveria ser uma celebração amplamente unificadora foi politicamente deturpada e envolvida nesta narrativa do MAGA que tenta reescrever a nossa história e promover a agenda do presidente”, denunciou o congressista Jared Huffman.
Citado pela NBC, o representante da Califórnia garantiu que o movimento Make American Great Again apaga a diversidade das populações religiosas e não religiosas dos EUA ao longo da sua história e ameaça as proteções constitucionais contra a imposição de uma religião pelo governo.
Ouvido pelo The Washington Post, Robert Jones, presidente do Public Religion Research Institute, lembrou que “os EUA estão mais diversificados do que nunca em termos religiosos”, com cerca de um terço dos americanos a declarar não ter qualquer filiação religiosa. Ao mesmo tempo, o sentimento antissemita e anti-muçulmano tem suscitado uma preocupação crescente.
A forma como Trump tem abordado temas ligados à religião tem provocado ceticismo em muitos americanos. Uma sondagem realizada este mês pelo Washington Post, ABC e Ipsos mostrou que 87% dos americanos têm uma opinião negativa sobre a publicação de Trump nas redes sociais na qual ele parece retratar-se como Jesus.
Uma sondagem do Pew Research revelou que apenas um terço dos americanos afirma que Trump defende as pessoas nas suas crenças religiosas.
Mas, segundo o mesmo instituto, cerca de 20% dos adultos norte-americanos e de um quarto dos republicanos afirmaram que o governo federal deveria declarar o cristianismo como religião oficial da nação.
Este estudo revela ainda que cerca de 43% afirmaram que o governo não deveria fazê-lo, mas sim promover os valores cristãos, enquanto 38% afirmaram que não deveria fazer nenhuma das duas coisas.
Esta sondagem indica que 13% dos adultos norte-americanos e 18% dos republicanos acreditam que o governo deveria deixar de fazer valer a separação entre Igreja e Estado.
Para este domingo, a Freedom From Religion Foundation, que defende precisamente uma separação estrita entre a Igreja e o Estado, espera organizar uma manifestação noutro local de Washington.
“Trata-se do governo a organizar um evento nacionalista cristão”, afirmou Annie Laurie Gaylor, copresidente da fundação, acrescentando “mesmo que esteja a aceitar fundos privados para o efeito, continua a ser o governo a organizá-lo. É escandaloso.”