Bingo! O maior radiotelescópio da América Latina poderá começar a captar ruídos do Universo no fim deste ano. Mas o aparelho, instalado no sertão da Paraíba, deverá estar em pleno funcionamento só a partir do segundo semestre de 2027.
O radiotelescópio Bingo está sendo instalado na pequena cidade de Aguiar, com seus pouco mais de 5.000 habitantes. O projeto tem participação internacional, com China e Reino Unido, entre outros, e é coliderado no Brasil pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), UFCG (Universidade Federal de Campina Grande) e USP (Universidade de São Paulo).
Não espere chegar hoje ao futuro local do Bingo e encontrar tudo pronto. Até recentemente, a parte da fundação da obra havia sido finalizada e o próximo passo seria a instalação de suportes dos espelhos que fazem parte do aparelho.
Radiotelescópio Bingo


Como estava em março deste ano a área que abrigará o radiotelescópio Bingo, em Aguiar, na Paraíba; e como deve ficar quando tudo estiver pronto
– Divulgação; montagem/Ramon Nunes
Por sinal, no ano passado, houve alguma dificuldade na importação da China dessas estruturas agora em montagem, devido à falta de cota de isenção de impostos para importação de material para pesquisa científica. A situação acabou posteriormente resolvida, sem uso da citada cota.
Carlos Alexandre Wuensche, cientista do Inpe e um dos líderes do projeto Bingo, afirma que o valor do projeto até o momento é de cerca de R$ 35 milhões, pelo menos. O projeto recebeu apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo); do Governo da Paraíba, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Fapesq-PB (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba), da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e da AEB (Agência Espacial Brasileira).
No momento, além dessa parte de construção mais pesada, está em curso uma etapa mais delicada: a caracterização do receptor do radiotelescópio, um pequeno amplificador.
“Ele é, essencialmente, o que encontramos dentro daqueles rádios de pilha que as pessoas levam para jogo no estádio”, diz Wuensche.
Basicamente, o receptor do radiotelescópio possui um amplificador, um filtro e uma chave para evitar ruídos que possam atrapalhar as informações coletadas.
A caracterização do componente está sendo feito no Inpe e na UFCG —cada instituição desenvolve um receptor—, com as duas equipes trocando informações constantemente.
Segundo Wuensche, há uma proposta chinesa, país que é parceiro no Bingo, para o uso de outro amplificador. Este poderia ser um pouco melhor, com menor ruído em comparação ao que está no receptor, mas os dois modelos ainda serão comparados.
Por fim, as equipes envolvidas no Bingo estão desenvolvendo e testando um software para que seja feita a análise dos dados recebidos pelo radiotelescópio. “Não existe isso pronto. Estamos construindo”, afirma Wuensche.
E, em meio a tudo isso, há ainda a parte político-financeira, de busca por mais apoio e financiamento para o projeto como um todo. Essa parte, ao menos no estágio atual da iniciativa, ainda não consome muito tempo dos pesquisadores.
Como é um radiotelescópio
Ao ver a imagem presente nesta reportagem, você já tem a ideia de como vai ficar o Bingo. Agora vem a parte de entender a estrutura. Antes disso, vale dizer que, de forma geral, o objetivo do Bingo é medir o hidrogênio neutro olhando para oscilações acústicas dos primórdios do Universo, o que pode acabar ajudando na compreensão das ainda misteriosas energia escura e matéria escura.
A parte que mais chama atenção são os dois grandes espelhos curvos do radiotelescópio. O objetivo deles é direcionar as ondas de rádio celestes para 14 grandes cornetas, potencialmente as maiores já fabricadas para radioastronomia, segundo Wuensche. “Até dois anos atrás, com certeza. Como não vi nada na literatura, acho que continuam sendo as maiores.”
Cada corneta dispõe de quatro receptores. E cada receptor —pelo menos na configuração atual do projeto— conta com três amplificadores, o coração do sistema.
No momento, há três protótipos de receptor em desenvolvimento —um no Inpe, um na UFCG e o chinês. Futuramente, vão ser feitos testes desses receptores em uma corneta só. Se tudo correr como planejado, a instalação continuará nas demais, evitando, assim, o risco de uma instalação problemática em todas as 14 estruturas.
De acordo com Wuensche, cada uma das cornetas do radiotelescópio funciona de forma independente. Assim, cada uma “escuta” uma parte do céu e, depois, as informações formam um quadro. “Cada uma pega um pedacinho do céu e se superpõe um pouquinho. Você vai juntando e 14 pedacinhos vão formar o céu.”
O Bingo, por sinal, olhará uma única faixa do céu, sem possibilidade de movimentação —ao menos não uma movimentação significativa.
Olhar só para um lado e não se mover tem uma motivação estratégica e outra científica.
A primeira diz respeito à facilidade de construção e à disponibilidade de recursos. “Um telescópio desse tamanho, com motor [para movimentação] e tudo, seria um grau de complexidade, tempo e recursos de manutenção depois da operação muito maiores do que achamos que poderíamos conseguir no Brasil”, afirma Wuensche.
A razão científica é que olhar para uma região por muito tempo permite identificar eventos passageiros, que acontecem de vez em quando, resultando em um olhar mais “limpo”.
Quase ida para uma mina uruguaia
Wuensche afirma que, com algum grau de sorte, talvez ainda neste ano, os testes com o primeiro receptor instalado na primeira corneta possam começar.
“Terminando a construção civil e a montagem, que deve acontecer lá para final de agosto, talvez. Chove, atrasa, tem algum problema… em setembro”, diz o pesquisador. “Devemos ser capazes de colocar o receptor, um deles, ligar… sendo otimista, novembro; sendo realista, janeiro de 2027.”
Os testes e compreensão relacionada à primeira corneta —processo chamado de comissionamento— devem demorar pelo menos dois meses, talvez mais. O processo com as demais 13 é um pouco mais acelerado. Wuensche diz que, talvez, o funcionamento total do radiotelescópio comece só no fim de 2027.
O projeto Bingo como um todo teve início há mais de dez anos. Inicialmente, o plano era que o radiotelescópio fosse instalado em uma mina de ouro abandonada perto da cidade de Minas de Corrales, no Uruguai.
O plano não deu certo e, após buscas por lugares relativamente isolados —para evitar interferências nos sinais captados—, chegou-se à região próxima de Aguiar. Ele está instalado em uma área em que fica blindado por morros ao redor, como se estivesse dentro de uma tigela.
Para chegar ao radiotelescópio são pelo menos cinco horas de carro a partir de Campina Grande, com parte do trajeto por estradas de terra. No local há uma casa de controle com alojamento e cozinha, um almoxarifado e um minilaboratório para reparos.
A ideia é que se tenha ali peças de reserva do radiotelescópio já disponíveis, para evitar a paralisação do funcionamento e o longo caminho até que se conseguisse reposição em outro lugar.
“Os motoristas que levaram esses containers com as partes do radiotelescópio tinham que ser muito bons, porque o terreno não é simples de dirigir, não”, afirma Wuensche.