Um modelo de análise de sondagens que quantifica o “problema de imagem” do Partido Democrata como variável nas intenções de voto mostra que a oposição enfrenta um grave desafio a cerca de meio ano das eleições intercalares. Se nada for feito, os democratas arriscam perder a “onda histórica” que seria expectável neste momento, dada a baixa popularidade de Trump e a ansiedade económica gerada pela guerra no Irão
Há um “fator que a maioria dos inquéritos de opinião está a ignorar” a menos de seis meses das eleições intercalares nos Estados Unidos. É um “problema de imagem” que está a afetar o Partido Democrata e que, em última instância, pode impedi-lo de recuperar o controlo do Senado, mesmo que consiga obter uma maioria de assentos na Câmara dos Representantes.
É o que defende David Schultz, professor emérito de ciência política e estudos legais da Universidade Hamline em St. Paul, no Minnesota, que desenvolveu um modelo de previsão eleitoral com base em quatro cenários, entre eles o cenário em que os democratas continuam exclusivamente agarrados à mensagem “não a Donald Trump” sem se apresentarem como uma verdadeira alternativa política ao eleitorado.
“A maioria das previsões para as intercalares aponta para uma vitória tranquila dos democratas”, começa por referir Schultz. “A aprovação de Trump está historicamente baixa, a economia está sob pressão devido ao aumento dos preços da gasolina causado pela guerra, os democratas estão muito mais motivados a votar do que os republicanos, os mapas eleitorais parecem favoráveis – caso encerrado, certo? Não exatamente.”
O porquê prende-se com o facto de a maioria dessas previsões estar a omitir “um outro número” importante refletido em inúmeras sondagens ao longo do último ano – 59%, a percentagem de eleitores americanos com uma visão desfavorável do Partido Democrata, quase idêntica aos 58% que dizem ter uma visão desfavorável do Partido Republicano, que neste momento detém a presidência e o controlo das duas câmaras do Congresso.
“Ambos os partidos têm assistido a um aumento na taxa de desaprovação, o que pode restringir o apoio democrata”, concede Paul Beck, professor de Ciência Política na Universidade Estatal do Ohio. Ainda assim, “a mensagem ‘Não a Trump’ permanece mais forte do que nunca, especialmente com a impopular guerra contra o Irão e a economia em crise”, defende. E “mesmo que o nome de Trump não esteja no boletim de voto, os republicanos apoiados por ele podem sofrer uma perda de valor com o seu endosso”.
É um facto que “os democratas estão a concorrer no ambiente político mais favorável em anos contra um partido que é pouco menos popular do que eles”, assume Schultz – mas “é essa tensão entre um forte impulso e uma imagem frágil que torna [as intercalares de] 2026 genuinamente incertas”, considera o especialista, apesar da elevada confiança de que o partido de Trump será castigado nas urnas.
Sob o modelo que desenvolveu, Schultz analisa quatro cenários distintos, incluindo aquele em que o problema de imagem dos democratas é incorporado como variável quantificável, algo que, segundo o especialista da Hamline, tem sido ignorado na maioria das sondagens. “A descoberta crucial é que a diferença entre os melhores e os piores resultados para os democratas é enorme, e a variável que impulsiona essa disparidade não é o índice de aprovação de Trump, mas sim a força da própria marca democrata.”
As atenções têm estado focadas no desempenho e na popularidade do atual presidente republicano, mas há sondagens que mostram que “o entusiasmo é uma variável real, não apenas um tema de conversa”, acrescenta David Schultz. Um inquérito de opinião para a CNN divulgado em março apurou que apenas 28% dos eleitores norte-americanos têm uma visão favorável do Partido Democrata; um mês depois, uma sondagem do Pew Research apontava que 59% dos inquiridos têm uma visão desfavorável dos democratas – isto depois de um inquérito do Quinnipiac em dezembro ter mostrado que apenas 42% dos eleitores registados como democratas aprovam o desempenho do partido no Congresso, contra 77% de eleitores republicanos que aprovam o desempenho do seu.
Neste momento, os dois partidos dos EUA têm taxas de (des)aprovação quase idênticas; uma sondagem do Pew Research mostra que 59% dos eleitores têm uma visão desfavorável do Partido Democrata, contra 58% com uma visão desfavorável do Partido Republicano. Ilustração Alberto Mier/CNN
Um problema com 10 anos
O problema não é de agora – e o seu potencial resultado, a confirmar-se, também não será inédito. Como refere o investigador, “o problema da marca tem um formato específico” e remonta a 2016, quando Donald Trump tomou de assalto o Partido Republicano e conseguiu conquistar o seu primeiro mandato presidencial.
Desde esse ano, “a mensagem central do Partido Democrata tem sido essencialmente ‘nós não somos Trump’”, mas essa mensagem nem sempre funcionou na última década – e “o padrão de quando funciona e quando falha é revelador”, sugere o estudo de David Schultz, que se baseia numa análise das seis idas às urnas que tiveram lugar nos EUA desde esse ano. Três delas foram eleições presidenciais e em duas os derrotados foram os democratas, em plebiscitos nos quais “um partido com uma agenda afirmativa convincente deveria ter tido um desempenho melhor”.
Ainda assim, Schultz classifica como “exemplo mais relevante de advertência” ao Partido Democrata as intercalares de 2022. Na primavera antes dessas eleições, os democratas detinham uma vantagem de entre 4 e 5 pontos percentuais nas intenções de voto. A revogação do caso Roe v. Wade pelo Supremo Tribunal Federal, que protegia o acesso das mulheres norte-americanas à interrupção voluntária da gravidez até às 15 semanas de gestação, galvanizou a base de apoiantes do partido e a maioria dos analistas passou meses a antecipar uma “onda democrata” nas intercalares de novembro – mas chegada a hora, os republicanos mantiveram o controlo da Câmara dos Representantes.
O caso de 2022 é importante porque, segundo uma sondagem recente da CNN, a motivação do eleitorado neste momento é “quase idêntica” à daquele ano, com mais de três quartos dos eleitores a assumir que planeiam votar democrata como uma mensagem de oposição a Trump. Schultz concede que “o ambiente estrutural é pior para os republicanos agora do que era naquela época”, mas contrapõe que a mensagem democrata, pelo contrário, “não se tornou mais afirmativa” desde então.
É o que o especialista classifica como “teto” da mensagem anti-Trump, ou seja, que a oposição ao presidente e ao seu partido tem um impacto limitado, sobretudo quando não vem acompanhada de uma agenda política diferenciadora que ajude a atrair mais do que a base que, por definição, já vota no partido. “Quando a fragilidade da marca democrata é incorporada no modelo [de análise] como uma variável quantificável, funciona como um entrave sistemático ao que um ambiente favorável produziria de outra forma”, refere David Schultz.
Por outras palavras, “o ambiente estrutural, por si só, baseado puramente em índices de aprovação, em sondagens e na ansiedade económica, preveria aproximadamente 248 assentos democratas na Câmara dos Representantes” – um número que cai para cerca de 225 quando se introduz “a penalidade da marca” democrata na fórmula. “É uma diferença de 23 cadeiras que representa a distinção entre uma maioria esmagadora e uma maioria por um fio”, aponta o investigador – e a situação é ainda pior quando se analisam os assentos em jogo na câmara alta do Congresso, o Senado.
As intercalares de 2022, defende David Schultz, são o “exemplo mais relevante de advertência” ao Partido Democrata – nesse ano, a galvanização dos eleitores do partido face a uma decisão histórica do Supremo Tribunal que pôs em causa o direito ao aborto não bastou para que recuperasse o controlo das duas câmaras do Congresso. E neste momento, mostra uma sondagem recente da CNN, a motivação do eleitorado é “quase idêntica” à daquele ano. foto Associated Press
Movimentações demográficas “significativas”
Para entender o outro fator a ter em conta que tende a não ajudar os democratas é preciso remontar a novembro de 2024, quando Donald Trump foi eleito para um segundo mandato presidencial. Nas autópsias à derrota de Kamala Harris e do seu partido nessas eleições foram tidas em conta questões como o desempenho económico dos EUA ou o facto de Joe Biden ter esperado demasiado tempo para retirar a sua candidatura, mas também as mudanças demográficas entre as bases partidárias.
Schultz aponta que, nas últimas presidenciais, o Partido Democrata “perdeu terreno considerável entre eleitores hispânicos, homens mais jovens e eleitores da classe trabalhadora sem diploma universitário” – ainda que, quase dois anos depois, estejamos a assistir a uma nova redefinição demográfica que “poderá beneficiar os democratas”, acrescenta Beck, referindo que “as sondagens mostram que esses grupos estão a afastar-se de Trump e dos republicanos” e que, “nalguns casos, como os hispânicos, esse afastamento tem sido considerável”.
Ainda assim, Schultz não deixa de notar que a introdução do “desgaste da marca” democrata no modelo de cálculo leva a uma diminuição dos ganhos previstos na Câmara dos Representantes em cerca de 23 cadeiras, o que faz com que “o que seria uma onda histórica no cenário atual se transforme numa maioria estreita e frágil”.
Neste contexto, a maioria democrata na câmara baixa até pode continuar garantida, mesmo que com essa “fragilidade”, mas no caso do Senado “a situação é de empate técnico”, o que significa que o partido da oposição poderá nem sequer conseguir recuperar o controlo da câmara alta, consoante o que acontecer até novembro.
Historicamente, o partido que detém a presidência foi quase sempre penalizado em ano de intercalares – algo que, segundo Paul Beck, se explica pela “queda na participação eleitoral” entre uma e outra ida às urnas. “A participação cai cerca de um terço nas eleições intercalares em comparação com o ano das presidenciais”, uma queda que “geralmente é observada entre os eleitores do vencedor das presidenciais”.
Isso dá respaldo a inquéritos recentes que mostram um fosso no entusiasmo entre os eleitores democratas, mais mobilizados para votar, e os republicanos. Neste momento, os democratas lideram sondagens genéricas com uma vantagem de entre 5 e 10 pontos percentuais, consoante o inquérito, na resposta à pergunta “que partido querem que controle o Congresso” – e “mais importante ainda”, ressalta David Schultz, “73% dos democratas dizem que estas eleições são mais importantes do que intercalares anteriores, em comparação com apenas 52% dos eleitores republicanos” que consideram o mesmo.
Nas presidenciais de 2024, o Partido Democrata perdeu largas faixas do eleitorado para Trump, mas sondagens recentes indicam que alguns desses grupos demográficos estão cada vez mais desencantados com o Partido Republicano do atual presidente, ressalta Paul Beck, da Universidade Estatal do Ohio. foto Associated Press
Incógnitas no horizonte
Essas não são as únicas boas notícias para os democratas. Como o próprio Schultz destaca, o atual ambiente sociopolítico é mais favorável ao partido da oposição, a começar pelo facto de a taxa de aprovação de Trump ter caído para apenas 25% entre os eleitores independentes, que decidem a maioria das corridas mais acirradas, ou o facto de apenas 23% dos norte-americanos em geral aprovarem a maneira como o presidente está a lidar com a crise do custo de vida – sendo que, com o eclodir da guerra no Irão, no final de fevereiro, a taxa de aprovação de Trump em relação à inflação também caiu para 27%.
“A crescente ansiedade económica pode muito bem traduzir-se em ganhos de assentos para os democratas à medida que os eleitores responsabilizam o partido no poder pelos preços que pagam nas bombas de gasolina e no supermercado”, assume o especialista da Universidade de Hamline.
A par de tudo isto, há ainda a ter em conta o mapa das disputas eleitorais, que em teoria complementa este cenário favorável aos democratas – neste momento, os republicanos detêm uma maioria curta de 220 para 215 assentos na Câmara dos Representantes, sendo que o Partido Democrata só precisa de conquistar três assentos para assumir o controlo da câmara baixa. E no Senado, 22 dos 35 assentos em disputa estão ocupados por republicanos. Só que isto pode traduzir-se em problemas não apenas para o partido no poder.
Como aponta Paul Beck, “há fatores importantes” a ter em conta quando se analisam as tendências de voto atuais e passadas, sendo um deles o gerrymandering republicano – a forma como a administração Trump e o partido têm conseguido a redistribuição de distritos eleitores, o que, nalguns casos, já correspondeu à “eliminação de distritos com maioria de minorias”, exemplifica o analista da Universidade Estatal do Ohio – “algo que pode compensar o aumento do apoio aos democratas”.
“E devemos lembrar-nos que isto afeta principalmente os votos para a Câmara dos Representantes no Congresso; apenas um terço dos assentos do Senado dos EUA estará em disputa este ano e estão, na sua maioria, ocupados por republicanos em estados tradicionalmente republicanos, portanto, não serão tão afetados pelos efeitos de oscilação registados no passado”, explica Beck.
Isto poderá dificultar que o Partido Democrata recupere o controlo do Senado, ainda que mantenham boas chances de recuperar a Câmara dos Representantes. Mas “faltam seis meses para as eleições, que é tempo suficiente para que as coisas mudem”, adianta o especialista, “possivelmente devido a uma queda no apoio a Trump, problemas contínuos com a guerra contra o Irão e uma nova recessão económica”.
Mas o contrário também é verdade e, para David Schultz, poderá resumir-se ao dito “problema de imagem” que continua a assolar o Partido Democrata. “A questão mais importante daqui até novembro não é se a aprovação de Trump vai cair ou se os preços da gasolina vão baixar – é se os democratas vão dar aos eleitores um motivo para votar neles, em vez de simplesmente votarem contra ele”, Trump.
A estratégia ‘Não a Trump’ tem um limite e a história mostra exatamente onde esse limite está, continua Schultz – e, em última instância, “se os democratas vão esbarrar nele novamente em 2026 ou se vão finalmente ultrapassá-lo irá determinar não só quantos assentos conseguem conquistar, mas também se uma maioria construída apenas sobre essa oposição conseguirá manter-se unida depois de conquistada”.