Os arqueólogos espanhóis levaram a cabo um levantamento nas águas da Baía de Algeciras, também conhecida como Baía de Gibraltar, entre maio de 2020 e março de 2023
Tal como o Estreito de Ormuz, o Estreito de Gibraltar, que se encontra entre a ponta sul da Europa e a ponta noroeste de África, tem uma longa história de navegação e conflitos nas suas águas.
Grande parte das provas arqueológicas desse passado encontra-se a leste do estreito, na Baía de Algeciras, também conhecida como Baía de Gibraltar — trata-se de um ponto de paragem para o transporte marítimo transatlântico, que se dedica atualmente sobretudo ao petróleo.
Os arqueólogos espanhóis afirmam ter identificado 151 sítios arqueológicos subaquáticos, incluindo 124 navios naufragados, nesta baía de 75 quilómetros quadrados, durante um levantamento arqueológico levado a cabo entre 2020 e 2023.
Segundo um estudo recente, os naufrágios datam de diversas épocas e civilizações, incluindo a antiga civilização púnica (cartaginesa), e os períodos romano, medieval e moderno.
A maioria dos 151 sítios arqueológicos identificados eram embarcações naufragadas (Felipe Cerezo Andreo)
A descoberta destes naufrágios confirma a importância desta baía como um centro marítimo de relevância regional e global, afirmam os investigadores. Esta baía está rodeada de aglomerados urbanos desde a antiguidade, serviu de porta de entrada para a Península Ibérica na Idade Média e foi palco de confrontos navais pelo controlo do estreito nos tempos modernos.
Embora a maioria dos destroços esteja relacionada com a história moderna, os investigadores também encontraram “alguns naufrágios nunca antes vistos” e que consideram “muito interessantes”, diz à CNN o investigador principal Felipe Cerezo Andreo, professor associado de arqueologia subaquática na Universidade de Cádis, em Espanha.
Mesmo que haja, em fontes históricas e arquivos, menções a milhares de acidentes navais, a verdade é que muitos naufrágios permaneciam desconhecidos até agora, uma vez que existiram poucos estudos arqueológicos sobre a história que existe enterrada debaixo das águas.
A descoberta mais antiga foi um navio naufragado do século V antes de Cristo, informa Andreo, explicando que a embarcação, provavelmente, transportaria molho de peixe produzido na cidade de Cádis, no sul de Espanha, levando essa carga através do Mediterrâneo.
Segundo Andreo, os destroços “mais interessantes” da era moderna estão relacionados com as guerras napoleónicas, travadas entre França e os seus aliados europeus, que costumavam mudar de posição, do início do século XIX.
Os sítios arqueológicos explorados até agora foram encontrados a profundidades até cerca de 10 metros (Felipe Cerezo Andreo)
Os investigadores também identificaram destroços recentes, do início da Segunda Guerra Mundial. Foram documentando os restos de um Maiale, ou Porco — um tipo de submarino utilizado pela marinha italiana para atacar a frota britânica no Estreito de Gibraltar durante a Segunda Grande Guerra, refere Andreo.
O Estreito de Gibraltar, “tal como o Estreito de Ormuz agora, é uma passagem estreita e obrigatória para todas as embarcações”, compara Andreo.
“Todos os navios que desejam ir do Mediterrâneo para o Atlântico têm de passar pelo Estreito de Gibraltar. E, provavelmente, a maioria precisa de lançar a âncora e esperar por melhores condições meteorológicas na Baía de Algeciras”, que é o “porto do estreito”, acrescenta.
Antes deste projeto, os investigadores não possuíam documentação arqueológica da maioria dos naufrágios. Segundo eles, até 2019 eram conhecidos apenas quatro sítios arqueológicos subaquáticos na zona – e só um deles podia ser considerado resultado de um naufrágio.
Um arqueólogo assinala a arquitetura naval na Baía de Algeciras (Felipe Cerezo Andreo)
Segundo os investigadores, as alterações climáticas estão a afetar as correntes oceânicas e o movimento de sedimentos na baía — algo que “está a provocar a descoberta de todos estes naufrágios”, refere Andreo.
Os arqueólogos utilizaram técnicas geofísicas — como um ecobatímetro multifeixe, que emite som para mapear o fundo do mar a três dimensões, ou um magnetómetro, que mede os campos magnéticos — para identificar objetos no fundo do mar e anomalias enterradas debaixo dos sedimentos. Foi algo que fizeram antes de terem mergulhado para fazer medições e criar um modelo digital das descobertas arqueológicas.
Os investigadores reforçam que o seu desejo é estudar e proteger estes sítios arqueológicos, uma vez que estes contêm informações sobre a história marítima da região, incluindo o tráfego marítimo, o comércio, a tecnologia naval e quem foram os navegadores humanos. Além disso, explicam, são locais vulneráveis às mudanças na paisagem e à atividade dos grandes navios ancorados na baía.
“Para nós, é importante registá-los, documentá-los virtual e tecnicamente, para os proteger”, tanto em termos legais como físicos, diz Andreo.
Até agora, a equipa analisou apenas uma “profundidade muito rasa”, de cerca de 10 metros. Contudo, a Baía de Algeciras tem cerca de 400 metros de profundidade, explica Andreo. Por isso, acredita que possam existir vestígios arqueológicos nas profundezas da baía que datem da pré-História, uma vez que a costa do período Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, “está agora submersa”.
Os investigadores indicam que os projetos futuros vão concentrar-se na realização de um estudo detalhado de cada naufrágio, bem como na exploração dos sítios a maiores profundidades. Até ao momento, estudaram 24% dos sítios arqueológicos identificados.