Jose Sena Goulao / Lusa

Uma alegada desistência, depois de Salvador Sobral ter ganhado. Mas, quando não se conhece o contexto, a notícia pode enganar.
Foram 35 países a entrar no palco do Festival Eurovisão da Canção 2026, juntando as duas meias-finais. É o número mais baixo de sempre desde que há meias-finais (2004).
Esta quebra deve-se essencialmente aos boicotes, aos protestos relacionados com a presença de Israel: Espanha, Irlanda, Eslovénia, Países Baixos e Islândia. São os 5 países que não foram a Viena porque Israel foi. É o maior boicote desde 1970 – num ano em que Portugal foi um dos desistentes.
Além de não participarem, 3 desses países nem sequer transmitiram as meias-finais de terça e quinta-feira, e não vão transmitir a final de sábado: Espanha, Irlanda e Eslovénia.
Os eslovenos vão ver na RTV filmes e documentários relacionados com os direitos da Palestina. Os irlandeses assistirão na RTÉ a um episódio de uma série cómica, Father Ted, sobre dois padres que tentam compor uma canção para representar a Irlanda num festival… semelhante ao da Eurovisão.
Em Portugal, a maioria dos músicos que estiveram no Festival da Canção avisou que não iria à Eurovisão se vencesse. Os Bandidos do Cante foram das poucas excepções e ganharam o evento português – mas não se apuraram para a final em Viena.
A suposta desistência
Há poucos anos, quem anunciou a sua desistência foi mesmo Israel, alegavam diversos meios de comunicação social fora de Israel.
A estória surgiu em 2017, no ano em que Portugal venceu graças aos irmãos Sobral: Israel teria saído do evento.
Quando acabou a final em Kiev, ganha por Amar pelos dois, o apresentador israelita Ofer Nachshon disse: “Esta foi a nossa última noite. Daqui a pouco a IBA vai desligar a sua transmissão para sempre. Por isso, em nome de todos na IBA, deixem-me agradecer à Europa por todos os momentos mágicos e por todos estes anos maravilhosos”.
Ofer disse mesmo essas palavras. Mas, como em tantos outros assuntos, é preciso conhecer o contexto, salientava na altura o Times of Israel.
É que, no meio de uma reforma da televisão pública de Israel, e precisamente naquela madrugada de Maio de 2017, a IBA ia ser substituída por uma nova estação televisiva, a Kan. Ou seja, a partir de 2018, seria a Kan a participar e a transmitir o Festival Eurovisão da Canção.
Quando acabou a final da Eurovisão, a IBA desligou-se. Para sempre, de facto. Mas Israel continuou. Aliás, logo no ano seguinte, venceu a Eurovisão. Em Lisboa, 2018, graças ao Toy de Netta.
Nuno Teixeira da Silva, ZAP //