Há um novo surto de ébola na República Democrática do Congo e no Uganda. Já morreram perto de uma centena de pessoas desde o final de abril e suspeita-se que possam existir mais de 300 casos nesta região no centro de África. As condições, de acordo com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, não são extremas o suficiente para declarar uma emergência pandémica — como aconteceu para a Covid-19 —, mas a agência das Nações Unidas decretou, este sábado, que o surto configurava uma emergência de saúde pública mundial.
OMS declara emergência de saúde pública mundial devido a surto de ébola
Segundo as contabilizações da OMS, atualizadas este sábado, existem 11 casos confirmados da doença causada pelo vírus Bundibugyo, em pontos diferentes da República Democrática do Congo (RDC) e, também em Kampala, a capital do Uganda. Os casos aparentam não ter ligações entre eles, mas nota-se que os casos ugandeses tiveram origem no país vizinho. Mas além deste registo oficial, Tedros Adhanom Ghebreyesus, num comunicado divulgado este domingo, nota que têm surgido “agrupamentos invulgares de mortes na comunidade com sintomas compatíveis” com a doença nas regiões de maior incidência, como Ituri, na RDC.
A agência nota que pelo menos quatro profissionais de saúde nestas regiões morreram desde o final do mês passado com um quadro clínico que se assemelha a uma “febre hemorrágica viral”, o sintoma de ébola que é associado à elevada taxa de mortalidade (que tem variado entre 25% e 90% nos últimos surtos). A OMS admite que, nesta altura, “existem incertezas significativas quanto ao número real de pessoas infetadas e à propagação geográfica associadas a este evento”, o que dificulta o entendimento sobre as ligações epidemiológicas entre os diferentes casos confirmados ou suspeitos.
Acreditam, então, que “tudo aponta para um surto potencialmente muito maior do que aquele que está atualmente a ser detetado e comunicado, com um risco significativo de propagação a nível local e regional”. Referindo que existe uma crise humanitária na região, com uma elevada mobilidade populacional e uma vasta rede de serviços de saúde informais, os riscos de uma propagação descontrolada são ainda maiores. A estes fatores acresce algo que não se verificou no último surto naquela área do continente africano em 2018: a doença causada pelo vírus Bundibugyo, ao contrário da estirpe Zaire, não tem qualquer tipo de terapias aprovadas. “Por isso, este evento é considerado extraordinário”. Assim, ficaram reunidas as condições para declarar oficialmente uma emergência de saúde pública a nível mundial.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, existe um par de critérios necessários para declarar uma determinada situação emergência de saúde pública. O contexto no país ou região, o acesso a unidades de saúde e as possíveis opções de tratamento para uma doença que circula descontroladamente pela população são avaliadas pelas autoridades mundiais de Saúde e, caso se determine que não existem recursos para travar o contágio, classifica-se o evento como “extraordinário”.
No caso da doença provocada pelo vírus Bundibugyo, uma vez que já passou a fronteira da República Democrática do Congo para o Uganda, e com o risco de o sucedido voltar a repetir-se devido à elevada mobilização populacional e à falta de um registo dos casos positivos confirmados, a OMS considera que também já foram reunidas as condições para assinalar o segundo critério de acordo com o Regulamento Sanitário Internacional. “Constitui um risco de saúde pública para outros Estados através da propagação internacional da doença“, lê-se no documento que define as normas aplicadas pela agência das Nações Unidas. Com pelo menos dois casos confirmados em Kampala, a capital ugandesa, e com dezenas de outros ainda por confirmar, a OMS considera que o surto alastrou-se para o país vizinho da RDC.
Sem recursos para o combate da doença e o com o vírus a afetar a população de mais do que um Estado, poderá vir a ser solicitada a intervenção de outros países. Se for observado que a situação em mãos necessita de meios externos, que o estado do surto poderá exigir uma resposta internacional coordenada, então risca-se o segundo critério que define uma situação “extraordinária”. Neste caso, a OMS lançou uma série de recomendações aos países vizinhos da República Democrática do Congo e do Uganda, para reforçarem “urgentemente a sua capacidade de prontidão e resposta” a uma possível ameaça de saúde pública.