Créditos da imagem:
TF1 Films/Divulgação
De um dia para o outro, Moulin se tornou uma das sessões mais disputadas do Festival de Cannes 2026. A razão foi simples: a organização do evento anunciou que o filme do húngaro László Nemes seria exibido em 35mm. Foi uma escolha bem compreensível – a fotografia cheia de contrastes de Mátyás Erdély imediatamente salta aos olhos quando projetada com a textura que só película oferece, e permanece um destaque deste suspense de espionagem misturado com drama de guerra durante seus altos e baixos. Ou, talvez possamos dizer, durante suas duas metades. Mas eu estou me antecipando.
Moulin acompanha o retorno à França de uma figura-chave da Resistência anti-nazista no então ocupado país. Jean Moulin, trazido à vida por uma atuação de ponta de Gilles Lellouche, usa a identidade falsa de Jacques Martel quando o vemos pela primeira vez, pulando de paraquedas depois de um tempo em Londres para voltar à sua terra natal e organizar de vez o momento contra seus ocupantes. Até então, existem duas facções separadas: a Resistência apoiada por Charles de Gaulle e o Exército Secreto, e mesmo entre eles não há um consenso sobre liderança. Para a felicidade do espião, que passa a comandar a Resistência unificada sob o codinome Max, este objetivo é comprido, apesar de alguma dificuldade. A sensação de sucesso, porém, dura pouco. Pouco tempo depois, a Gestapo prende o líder eleito do Exército Secreto, e há suspeitas de um traidor no meio deles.
Mesmo assim, para evitar uma guerra de sucessão interna, Jean Moulin convoca uma reunião para eleger logo o substituto de Rex, o codinome do resistente preso. Devido a um atraso, ele e seus colegas chegam no local do encontro, um consultório médico em Lyon, quando a conversa já começou e está esquentada. Enquanto aguardam uma oportunidade para subir até o escritório onde devem se reunir no andar de cima, eles são surpreendidos pelos nazistas. Apesar de estarem na sala de espera e se declararem apenas pacientes do local – cada um trouxe, claro, um diagnóstico por escrito –, eles são levados pela Gestapo. O monstruoso Klaus Barbie (Lars Eidinger) quer interrogar a todos.
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Eis, então, as duas metades de Moulin. A primeira vai até o primeiro encontro de Jean com Klaus, uma típica conversa com segundas intenções e armadilhas escondidas. Esta é a grande cena do filme. Construída com base nas atuações sensacionais de Lellouche e Eidinger (o francês fingindo respeito pelo alemão, enquanto este claramente é fascinado pelo suspeito), a sequência coroa o que até ali se anunciava como um grande trabalho sobre as resistências secretas contra o Terceiro Reich na Europa. Nemes constrói bem o clima da época, e traz à mente clássicos como Roma, Cidade Aberta (1945) e O Exército da Sombra (1969) enquanto assistimos às trocas de mensagens codificadas, sussurros cuidadosos e olhares preocupados.
Então, mesmo supostamente convencendo Barbie de sua inocência, “Jacques Martel” é preso, e entramos na segunda metade de Moulin. Não é que o longa de Nemes perca a mão, mas sua primeira hora é tão empolgante e magnética que a mesmice na qual ele se prende depois acaba sendo prejudicial para o todo. O cineasta pretende encenar a terrível tortura sofrida por Jean Moulin nas mãos da Gestapo, e por mais que essa escolha seja compreensível, com exceção de um ou outro momento, sendo o maior destes uma cena emocionante envolvendo “A Marselha”, o filme se trava em forma e tema.
Obviamente, dado o status heróico de Jean Moulin, é fácil entender a vontade de Nemes de comunicar sua força de vontade em não entregar nada de valor para os nazistas, mas o diretor se mostra aquém da missão e deixa a reta final de Moulin com um caráter episódico. Não há tanto um senso de progressão quanto uma série de recortes de tortura, alguns mais eficazes em impressionar do que outros, até que chega a hora de encerrar a história.
Como consequência, um filme outrora dinâmico e vivo se torna, de certa forma, monocromático. Sim, as imagens brilhantes de Erdély ainda estão ali, mas falta o impulso que as fazia nos conquistar no começo de Moulin. O resultado é um filme tecnicamente fabuloso, mas limitado por sua estrutura.
Crítica escrita em 17 de maio no Festival de Cannes. Moulin será lançado no Brasil em breve.
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Moulin
País:
França
Direção:
László Nemes
Roteiro:
László Nemes
Elenco:
Lars Eidinger,
Gilles Lellouche
Onde assistir:
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