Na última semana as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a destacar Portugal como um aliado exemplar na Europa e sobre a facilidade no uso da base aérea das Lajes, fizeram o PS falar prontamente numa “humilhação [do país] à escala planetária”. Chamou o ministro dos Negócios Estrangeiros ao Parlamento e pediu documentos para perceber o timing exato do uso da base localizada em território português no âmbito do conflito no Irão. Mas o tom usado causou mal-estar no partido, onde Francisco Assis critica o uso de uma “retórica infantil e extremista“.

O eurodeputado socialista não gostou de ouvir o líder parlamentar Eurico Brilhante Dias, que descreveu Portugal como “um país de cócoras” e “agachado” no momento em que os norte-americanos pediram para utilizar a base das Lajes em operações ligadas ao ataque dos EUA/Israel ao Irão. Numa declaração ao Observador, quando confrontado com a posição oficial socialista neste assunto, Assis admite a necessidade da “aclaração” pedida pelo PS ao Governo perante “declarações ambíguas” de Rubio, mas também diz que “não é aceitável que o faça nos termos excitados e inapropriados a que incompreensivelmente recorreu”.

“O PS nunca usou uma retórica infantil e extremista para abordar temas de política externa e nunca se deixou contaminar por um radicalismo ideológico assente na rejeição da importância das relações transatlânticas”, afirma o socialista que até abril era o secretário nacional de José Luís Carneiro responsável pela área das Relações Internacionais do PS. O socialista reconhece a dificuldade do contexto das relações entre a União Europeia e os EUA, mas discorda por completo que isso justifique “a adoção de um comportamento pouco consentâneo com os padrões de seriedade e rigor imprescindíveis para a defesa de uma democracia liberal sólida.”

Portugal desmente Marco Rubio e garante que pedido para uso da Base das Lajes só veio depois do ataque ao Irão

Diz-se ainda convencido de que este “deslize retórico não corresponde à posição de fundo da direção do PS e não terá qualquer tipo de continuidade no futuro”. Este é o segundo assunto, em matéria internacional, em que Assis expressa o mesmo desejo nos últimos meses, sendo o primeiro o episódio da visita de José Luís Carneiro à Venezuela. Nessa altura considerou “um erro” a visita que a direção — a que ainda pertencia nessa altura — tinha feito e, em entrevista ao Observador durante o Congresso do PS, disse que ia aguardar que o PS tirasse “ilações” da iniciativa que condenava. Garantiu que não foi por causa disso que, nesse mesmo Congresso, anunciou que não estava disponível para se manter com responsabilidades executivas na direção do partido — que deixou de integrar na reorganização de José Luís Carneiro, depois da eleição de novos órgãos nacionais.

A posição do PS depois da frase polémica de Rubio tem sido debatida em alguns fóruns socialistas nos últimos dias, com críticas neste universo, como a de Paulo Pedroso, por exemplo. O antigo militante e dirigente do partido acredita que a indignação socialista sobre Rubio foi “uma hipérbole” e um “excesso de reação”, lembrando mesmo o que aconteceu em relação à autorização para o uso das Lajes neste conflito “não terá estado muito distante do que aconteceu em relação com outras dadas com governos do PS” em funções. “Portugal nunca recusou essa autorização”, assinalou num comentário, na última sexta-feira, na RTP-N onde deixou a pergunta: “Como faria o PS se estivesse no Governo?”

Pedroso enquadrou a “latitude” que considera existir “entre Portugal e os EUA sobre o uso das Lajes” como “compreensível em defesa dos interesses de Portugal” e do “posicionamento do país, que é o mais atlantista” na Europa, em comparação com Espanha, exemplificou. E ainda que acredite que exista “uma grande continuidade histórica entre os dirigentes do PS e o atual líder” e que, por isso mesmo, não veja “nenhum sinal de que o PS queira mudar a política externa”, também diz que houve um “excesso de reação a propósito de um facto que não tem categoria superior”.

As declarações de Marco Rubio fizeram com que o PS agarrasse o tema das Lajes de novo na última semana, pedindo esclarecimentos adicionais ao ministro Paulo Rangel a propósito das declarações do secretário de Estado dos EUA. Numa entrevista à Fox News, Rubio criticou alguns países da NATO que foram pouco solidários com os EUA no conflito do Irão. E depois falou de Portugal: “Para ser justo, há países da NATO que foram muito úteis para nós. Vou só dizer um: Portugal. Eles disseram que sim, antes de nós perguntarmos o que quer que fosse.”

A última frase fez o PS disparar o tema, acusando Paulo Rangel de ter sempre fugido à questão central sobre o uso das Lajes neste contexto específico: fez alguma pergunta aos EUA e que informação tinha? Os socialistas consideram que as palavras do norte-americano mostram “subserviência” de Portugal face aos EUA, numa crítica que foi acompanhada pelo Bloco de Esquerda, que diz que o Governo “transformou Portugal numa lapela de uma guerra ilegal“.

No Governo, o ministro dos Assuntos Parlamentares considerou natural a “retórica contra a Aliança Atlântica do Bloco de Esquerda”, mas manifestou-se “surpreendido e até um pouco estupefacto com a posição do PS”, por a considerar contrária ao posicionamento tradicional dos socialistas portugueses em matérias de política externa e nomeadamente na aliança atlântica. “Portugal não se agacha, o Governo português não se agacha. É um país com 900 anos de História, orgulhoso da sua História, do seu passado e presente”, garantiu ainda Carlos Abreu Amorim nessa altura sobre as declarações socialistas.

Logo na quinta-feira, o Governo veio tentar esvaziar a polémica suscitada pelo que disse Marco Rubio sobre Portugal, desmentindo mesmo o que dissera o secretário de Estado dos EUA em relação à autorização nacional sobre o uso da base em território português. O pedido norte-americano “só foi feito já depois do ataque ao Irão, sendo que o Governo português só autorizou mediante condições que foram logo tornadas públicas e que são conhecidas”, assegurou o Ministério dos Negócios Estrangeiros em comunicado. O ministro Paulo Rangel já esteve no Parlamento, no início de abril, a responder aos deputados sobre este tema. Depois deste episódio, terá de voltar.