Pesquisadores anunciaram a descoberta de mais de 260 monumentos antigos espalhados pelo deserto do Saara, em uma região atualmente marcada por calor extremo e vastidões áridas. As estruturas foram identificadas por arqueólogos por meio de imagens de satélite, drones e expedições terrestres, revelando evidências de sociedades humanas organizadas que viveram no norte da África milhares de anos antes da desertificação da região.

Os monumentos consistem principalmente em construções circulares de pedra, túmulos, plataformas rituais e formações conhecidas como “mustatils” — estruturas retangulares gigantescas feitas com muros baixos de rocha. Segundo os pesquisadores, muitos desses complexos possuem alinhamentos geométricos sofisticados e parecem ter sido erguidos com finalidades funerárias, cerimoniais ou territoriais.

Segredos do Saara

As descobertas reforçam uma visão cada vez mais aceita pela arqueologia: o Saara nem sempre foi um deserto hostil. Entre aproximadamente 14 mil e 5 mil anos atrás, a região viveu o chamado “Saara Verde”, período em que chuvas muito mais abundantes transformaram partes do norte africano em áreas férteis com lagos, rios, vegetação e abundante vida animal.

Durante essa fase climática, comunidades humanas ocuparam vastas áreas hoje praticamente inabitáveis. Pinturas rupestres encontradas ao longo do Saara mostram cenas de caça, rebanhos, peixes e até hipopótamos — animais impossíveis de sobreviver no ambiente desértico atual. Os novos monumentos parecem ter sido construídos justamente por essas populações neolíticas que habitavam a região antes do avanço definitivo da aridez.

Os arqueólogos afirmam que muitas das estruturas recém-identificadas estavam escondidas sob areia ou localizadas em áreas extremamente remotas e difíceis de acessar. O uso de imagens de satélite de alta resolução foi fundamental para mapear os monumentos, permitindo identificar padrões invisíveis a partir do solo. Em vários casos, as formações só puderam ser compreendidas completamente quando vistas do alto.

Especialistas acreditam que os monumentos indicam formas complexas de organização social entre os antigos habitantes do Saara. Algumas estruturas aparecem agrupadas em grandes concentrações, sugerindo possíveis rotas de migração, centros cerimoniais ou territórios compartilhados entre diferentes comunidades humanas.

O estudo também contribui para compreender como mudanças climáticas moldaram a história humana. À medida que o Saara começou a secar progressivamente há cerca de 6 mil anos, populações inteiras foram forçadas a migrar para áreas mais úmidas, especialmente em direção ao vale do Nilo e regiões próximas ao Mediterrâneo. Muitos pesquisadores acreditam que esse deslocamento humano ajudou indiretamente no surgimento de civilizações antigas no Egito e em outras partes do norte africano.

Além do valor arqueológico, as descobertas também chamam atenção para o potencial ainda desconhecido do Saara.


Felipe Sales Gomes

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.