CANNES – Para falar sobre John Lennon: The Last Interview, o documentário de Steven Soderbergh que teve sua première oficial aqui no 79º Festival de Cannes, numa sessão especial, talvez seja importante destacar duas coisas. A primeira é que os documentários compõem um nicho particular nesse festival, concentrados principalmente na mostra Cannes Classics, que este ano contempla filmes sobre grandes diretores – Chris Marker, David Lean e Vittorio de Sica -, além do novo episódio da monumental História do Documentário de Mark Cousins. A outra coisa é um debate que se tem feito presente desde a coletiva do júri e que atravessa diversas – todas? – as seções: a IA (inteligência artificial). Ela está no centro, por exemplo, do novo filme de Hirokazu Kore-eda, Sheep in the Box, que integra a seleção oficial, na competição. O que isso tem a ver com John Lennon: A Última Entrevista? Muita coisa, senão tudo.

Como diz o título, o filme constrói-se em torno da última entrevista acordada pelo ex-Beatle, horas antes de ser assassinado em Nova York, naquele fatídico 8 de dezembro de 1980. Há 46 anos! Lennon não precisou morrer para virar mito. Já era reverenciado em vida como artista criativo, contestador e militante pacifista, em especial após sua união com Yoko Ono, que precipitou uma tensão que já havia no interior dos Beatles e levou à implosão da banda.

Cena do documentário ‘John Lennon: The Last Interview’, de Steven Soderbergh; longa é destaque do Festival de Cannes Foto: Kishin Shinoyama/Divulgação

(A propósito, não é mera coincidência que a edição francesa da revista Vanity Fair publique, nesse mês de maio, aproveitando a visibilidade do doc sobre Lennon em Cannes, uma entrevista de 2015 com Paul McCartney, que até agora permanecia inédita. Ele dá sua versão do fim dos Beatles, não tenta se fazer de vítima. Aborda a ruptura e a reconciliação com Lennon e diz que Yoko, afinal de contas, “não era tão malévola assim”, palavras dele.)

Para o espectador, o fã, o cinéfilo, que quer saber antes de mais nada se o filme é bom, aqui vai, tout court. Sim, é ótimo.

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Nessas quase cinco décadas decorridas desde sua morte, Lennon foi tema de vários docs. Imagine John Lennon, Os EUA Contra John Lennon, John e Yoko, Daytime & Revolution, e o outro John e Yoko, One to One, de Kevin Macdonald, que ostenta a merecida fama de ser o melhor de todos. A última entrevista – que Lennon concedeu a Andy Peebles, da BBC – já havia sido tema de outro documentário de Brian Grant, John Lennon’s Last Weekend, em 2020.

Steven Soderbergh posa no tapete vermelho antes da sessão de ‘John Lennon: The Last Interview’ no Festival de Cannes Foto: Valery Hache/AFP

O filme de Soderbergh não apenas se beneficia do prestígio da vitrine de Cannes como se aproveita da fama do próprio diretor. Em 1989, o júri presidido por Wim Wenders atribuiu a Palma de Ouro a Sexo, Mentiras e Videotape, vendo no primeiro filme de Soderbergh o futuro do cinema. (Para chegar a essa conclusão, Wenders e seus jurados ignoraram o grande filme daquele ano, Faça a Coisa Certa, de Spike Lee. Faz sentido que décadas depois, ao presidir o júri do Festival de Berlim, em fevereiro, Wenders tenha provocado polêmica com uma declaração insistindo na separação entre cinema e política, mas depois ele recuou, premiando os dois filmes mais políticos do evento).

Soderbergh voltou depois várias vezes a Cannes, ganhou o Oscar de direção – por Traffic, em 2001 -, Julia Roberts foi melhor atriz por um filme dele – Erin Brockovich -, um ano antes. Eis que ele volta agora com o novo doc sobre John Lennon. Sem papas na língua, Lennon fala sobre tudo – música, política, Beatles, Yoko. Ela não é apenas referida. Participa, e ainda impressiona, tanto tempo depois, a franqueza com que ambos se expõem como casal.

Justamente nesta semana a nova ficção de Soderbergh, The Christophers, está saindo nos cinemas da Inglaterra. Para celebrar a dupla exposição, em Cannes e Londres, a edição semanal online da revista Sight and Sound, o Weekly Film Bulletin, publica entrevista com o diretor, que fala sobre o doc.

Segundo Soderbergh, o John e Yoko, que lhe serviu de inspiração, é o perfeito complemento de John Lennon – The Last Interview. “A parte mais empolgante para mim é a forma como ela [Yoko] aparece. Ainda mais do que no filme do Kevin, ela consegue se alongar em reflexões sobre o que pensa e quais foram suas experiências. Ela é realmente inteligente e muito engraçada, e surge como uma parceira absolutamente à altura dele.”

‘John Lennon: A Última Entrevista’ estreou no Festival de Cannes 2026 Foto: Kishin Shinoyama/Festival de Cannes/Divulgação

A entrevista foi feita no quadro do lançamento de Double Fantasy, que foi uma criação conjunta do casal. Lennon havia feito 40 anos, os Beatles haviam se separado 10 anos antes e havia cinco ele não compunha. Tinha uma regra: nenhuma pergunta sobre os Beatles. O assunto, porém, surge naturalmente, e por conta do próprio Lennon.

O primeiro single da setlist – (Just Like) Starting Over aparece quase como um manifesto do que ele estava sentindo naquele momento. Começar de novo. É difícil falar da última entrevista como sendo só de Lennon porque ele era o primeiro a colocar Yoko no centro de sua vida e trabalho.

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Três dos quatro integrantes do grupo que realizou a entrevista – todos fãs ardorosos (o diretor musical Dave Sholin, a apresentadora da rádio para a qual a entrevista foi feita, Laurie Kaye e o engenheiro de som e produtor Ron Hummel) – dão testemunhos emocionados daquela jornada tão especial. O quarto integrante, o executivo de gravações da Warner Music, Bert Keane, morreu durante a realização do doc.

A riqueza do material e da edição faz do filme uma experiência única. Você não precisa ser tiete para perceber o significado dessa ‘última’ entrevista. Se for fã, vai desfrutar cada fala do casal. Sabiam que estavam fazendo História? Seu casamento virou emblema de mudanças profundas no relacionamento possível entre homens e mulheres. Aonde teriam chegado? John e Yoko despedem-se, vão para o estúdio para fazer mais música. Quando voltam para casa, no Dakota, Lennon é assassinado. Morre o homem, consolida-se o mito.

Confira o trailer de ‘The Beatles Anthology’

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‘The Beatles Anthology’ estreia em 26 de novembro no Disney+. Crédito: The Beatles via YouTube/Divulgação

O diretor revela qual é sua passagem preferida da entrevista e do próprio filme. “É quando os dois descrevem o período em que ela o expulsou de casa e ele foi para Los Angeles por um ano. Eles falam com tanta franqueza sobre o que ambos estavam vivendo, de um jeito que você não conseguiria fazer ninguém falar hoje em dia. Não há construção de uma narrativa para fazê-los parecer melhores. Foi ruim, uma ameaça à vida, para ele. Para John, que personificou — por um período — o arquétipo agressivo do rock and roll masculino, chegar a um lugar de ‘eu amo minha esposa, quero trabalhar com minha esposa, amo meu filho’ era mais que arriscado. Ela conta que as pessoas ficavam constrangidas com isso. E ele não se importava. Ele apenas seguia o que amava, tanto criativa quanto emocionalmente, como fez ao longo de toda a sua carreira.”

Como a inteligência artificial é usada no documentário sobre Lennon?

Soderbergh utiliza a tecnologia no filme, e explicou o porquê. “Uns 10% do filme envolvem John e Yoko falando em termos filosóficos meio abstratos sobre uma variedade de questões. E não havia maneira de representar isso visualmente com material de arquivo. Sendo um documentário, não temos o tipo de recursos de que você poderia dispor em um filme normal. As alternativas não-IA eram efeitos visuais, que são caros e levam muito tempo. E nós não tínhamos muito dinheiro, nem muito tempo. Fizemos um pouco de demonstração de um lado para o outro e, em dois meses, conseguimos resolver esses problemas”.

Foto da família Lennon, que aparece em ‘John Lennon: A Última Entrevista’ Foto: Yoko Ono Lennon e Nish Saimaru/Festival de Cannes/Divulgação

“Minha obrigação moral é entregar o melhor filme possível, com a tecnologia disponível”, completou. “Há coisas que eu não faria com essa tecnologia, e há aspectos dela que me parecem positivos.”

Na série de documentários sobre John Lennon, A Última Entrevista veio para ocupar um lugar de destaque.

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