Uma etapa ou o top 10? Porque não ambas, sugere Afonso Eulálio, que se prepara para as duas últimas semanas do Giro de Itália.
Afonso Eulálio está convencido de que vai perder a camisola rosa na 10ª etapa do Giro de Itália, esta terça-feira, no entanto, só após o contrarrelógio vai definir se o foco será posto em tentar ganhar uma etapa ou em defender o top 10.
Aos 24 anos, e após cinco dias como líder da corrida italiana, sentou-se à conversa com os jornalistas durante o segundo dia de descanso e respondeu a tudo. É certo que numa versão mais telegráfica do que é habitual, mas a saturação de diariamente ser questionado pelos média já pesa.
O sonho cor de rosa iniciou-se a 13 de maio, mas nem a coincidência de datas o tornam mais supersticioso.
“Não acredito em milagres, mas acredito no meu trabalho e no que temos feito nos últimos tempos.”
Pela terceira vez na história temos um português a liderar o Giro, em 109 edições, e se olharmos a etapas o historial mostra que apenas Acácio da Silva, Rúben Guerreiro e João Almeida foram capazes de levantar os braços.
Onde estará o teto do corredor natural de Canosa, freguesia de Ferreira a Nova?
“Sonhar é grátis. Gostaria de fechar no top 10 e ganhar uma etapa. Seria fechar com chave de ouro. Sonhar é grátis, depois veremos o que serei capaz de fazer.”
Entrevista ao treinador de Afonso Eulálio: “Gosta de correr e correr para ganhar”
Vingegaard está de olho na maglia rosa.
Créditos: LaPresse
“Quando vesti a rosa senti superpoderes”
A Bahrain não vence uma etapa em Grandes Voltas desde 2023, na altura cortesia do neerlandês Wout Poels, na Vuelta.
No mesmo ano picaram o ponto duas vezes no Giro, primeiro com o sprinter Jonathan Milan e depois pelo escalador Santiago Buitrago, que era o líder da equipa este ano, até uma queda o ter tirado da competição.
Outro dado curioso é que, desde a primeira época competitiva da Bahrain, em 2017, a estrutura do Médio Oriente nunca tinha tido a camisola rosa, até que apareceu Afonso Eulálio.
“Quando vesti a rosa senti superpoderes, mas quando a perder não sei como será. Faltam duas semanas e tudo pode acontecer. Acredito que posso vir a fazer bons contrarrelógios, duvido que seja o caso deste porque é totalmente plano e é pura velocidade. É o pior contrarrelógio para um peso-pluma.”
Quanto às duas próximas semanas, entramos em território desconhecido, dado que na primeira experiência no Giro, no ano passado, nem concluiu a prova nem teve a mesma responsabilidade.
Liderar a equipa nestas três semanas nunca fez parte dos planos, como o próprio Afonso Eulálio contou em entrevista com o TopCycling, na véspera da partida.
“A última semana será muito dura, mas temos uma boa equipa e estamos a trabalhar muito bem, portanto, veremos. Costumo responder bem e penso que recuperei bem após o dia da fuga, obviamente estava cansado por fazer 200 km em fuga, mas ontem [na 9ª etapa em Corno alle Scale] já senti boas pernas, enquanto que no Blockhaus acusei algum cansaço. No ano passado, na última semana do Giro, foi quando passei primeiro no Mortirolo e lutei por uma vitória com o Romain Bardet, mas os favoritos à geral apanharam-nos nos últimos quilómetros, por isso espero sentir-me bem na última semana.”
Eulálio levou uns esquis de prémio em Corno alle Scale.
Créditos: LaPresse
“Sempre a correr de um lado para o outro”
O dia a dia do líder tem sido uma correria, que inclui atender a dezenas de jornalistas após cada etapa e andar sempre a correr de um lado para o outro. Isto significa ir dormir às 23:30 e acordar às 7:00, o que apenas deixa tempo para ligar à família e pouco mais.
Um bom exemplo foi o segundo dia de descanso do Giro, que em vez de ter sido passado de pernas para o ar num dolce far niente tão italiano envolveu horas de trabalho.
“Estivemos a afinar a bicicleta e a ajustar o fato. Há um mês, planeava tomar o contrarrelógio como um dia de descanso, mas agora temos que ir a fundo. Tentei melhorar, trabalhei um pouco, mas não muito, porque vim como gregário, para ter oportunidades na montanha; agora as coisas modificaram-se um pouco e é preciso ir a fundo. Espero defender-me e vou lutar, mas o Jonas é um dos melhores do mundo. É o Jonas. Vou dar tudo o que tenho.”
Arrieta negou a vitória ao figueirense.
Foto: LaPresse
Na sua essência, o antigo corredor do Feirense, que só em 2025 chegou ao WorldTour, continua o mesmo, tanto em termos de personalidade como em cima da bicicleta.
O líder da Bahrain e do Giro de Itália sente-se como peixe na água nos dias mais duros, mas tem sido obrigado a sair da zona de conforto nas jornadas teoricamente mais simples e a explicação é simples.
“Não tenho a experiência dos outros corredores e quando as etapas não são tão duras os demais sabem como correr e eu nem tanto. Quando é duro é preciso ter pernas e estar em forma, aí desfruto. Provavelmente, no dia da fuga havia gente mais forte em algumas subidas, mas o dia era tão duro que é quando estou bem. Sofro, mas desfruto, embora no dia da fuga nem tanto por causa da chuva e da queda, mas normalmente desfruto das condições difíceis.
Por agora, os dias de cor de rosa têm sido uma experiência enriquecedora para o figueirense, que teve o momento mais duro precisamente na primeira chegada em alto, no Blockhaus, não pela dureza da subida, mas pela ventania que se fez sentir.