
A arte abstrata contém uma estrutura matemática oculta, que se manifesta na forma como os vazios, os laços e as texturas se desdobram ao longo de uma imagem.
Na Galeria de Arte Wozownia, na Polónia, os visitantes ficaram diante de duas exposições abstratas. Uma foi criada pela artista polaca Lidia Kot.
A outra, foi criada por uma rede neural personalizada de geração de imagens, sem grande parte da ordem que normalmente orienta a sua produção. Os investigadores garantiram que esta correspondesse às obras da artista em propriedades visuais gerais, como brilho e diferença de cor.
Num novo estudo, publicado a semana passada na PLOS, os investigadores criaram dois conjuntos correspondentes de imagens abstratas, um de Kot e outro criado por algoritmos. A criada através de algoritmos tinha títulos, enquadramento de exposição e um texto curatorial gerado por IA e revisto por um artista.
Ambos os conjuntos foram impressos no mesmo tamanho, utilizando o mesmo papel e tecnologia, e exibidos no mesmo espaço da galeria.
Segundo o ZME Science, os participantes utilizaram óculos de rastreamento ocular enquanto observavam a exposição de arte ou a exposição de IA, que os investigadores utilizaram para rastrear o seu olhar. Também avaliaram a sua experiência estética, incluindo intensidade emocional, elementos percebidos, compreensão da intenção do artista e fluidez.
Outra série de experiências foi realizada no laboratório, onde as mesmas imagens foram mostradas durante um intervalo fixo. Os cientistas monitorizaram a atividade cerebral, analisando os padrões de conectividade cerebral enquanto as pessoas observavam as obras de arte.
Seguidamente, os participantes atribuíram-lhes classificações estéticas em vários parâmetros, relatando uma perceção mais clara dos elementos visuais, uma intensidade emocional mais forte, uma maior compreensão da intenção do artista, um contexto mais claro e uma sensação mais forte de fluidez.
No laboratório, onde as imagens apareciam uma a uma num ecrã durante um tempo fixo, as obras criadas por artistas produziram uma resposta mais forte do que as imagens criadas artificialmente.
Estes passaram mais tempo a observar as imagens falsas do que as obras de arte reais, e a sua exposição visual foi mais prolongada durante a primeira visita. Os seus olhos também se movimentaram menos enquanto observavam as imagens falsificadas.
Os investigadores analisaram ainda uma relação matemática denominada “dualidade de Alexander“. Neste contexto, significa que uma imagem plana, as formas escuras e os espaços claros à sua volta estão interligados.
As pinturas reais não se comportam como objetos matemáticos ideais, especialmente porque as suas formas encontram as bordas da tela. Não são objetos matemáticos infinitos, e as interações com a moldura criam as “violações da dualidade de Alexander“.
As imagens geradas sem uma intenção composicional humana, revelaram um padrão diferente de violação da dualidade em comparação com as obras abstratas criadas por artistas.
Com base nesta informação, os investigadores analisaram obras de artistas, incluindo Wassily Kandinsky, Mark Rothko e Jackson Pollock, e descobriram que muitas delas parecem apresentar uma taxa específica de violação desta dualidade.
Os autores descrevem isto como algo semelhante a uma “regra de ouro” da composição abstrata. Não se trata de uma fórmula literal que os artistas seguem, mas de um equilíbrio estrutural a que podem chegar através da perceção treinada, da prática e da intuição.
Por fim, embora nem toda a arte abstrata possa ser descrita através de uma equação, o presente estudo reflete que este tipo de arte pode conter uma estrutura por baixo da superfície.