
“A queda do exército ateniense na Sicília”, gravura de 1893 de J.G.Vogt
O presidente da China recordou ao seu homólogo norte-americano o conceito histórico que expressa os receios de um conflito entre as duas maiores potências do planeta.
Nas declarações iniciais da recente cimeira com Donald Trump, a 15 de Maio, o presidente chinês, Xi Jinping, invocou uma frase do historiador grego do século V a.C. Tucídides para lançar um aviso velado ao presidente dos Estados Unidos.
“O mundo chegou a uma nova encruzilhada. Conseguirão a China e os EUA ultrapassar a chamada ‘Armadilha de Tucídides‘ e construir um novo paradigma para as relações entre grandes potências?”
Tucídides tem tido uma presença surpreendentemente forte nos assuntos internacionais este ano, diz Neville Morley, professor de História Clássica da Universidade de Exeter, num artigo no The Conversation.
Em Janeiro, o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, citou a famosa frase do Diálogo dos Mélios segundo a qual “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, para alertar para o declínio de uma ordem assente em regras. Outros citaram-na para descrever as acções militares norte-americanas na Venezuela e no Irão, tanto em sentido positivo como negativo.
Xi, porém, recorreu antes à visão de Tucídides sobre a “razão mais verdadeira, embora menos discutida” da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. A tradução mais conhecida das suas palavras, de 1875, é esta: “Foi a ascensão de Atenas, e o medo que isso despertou em Esparta, que tornou a guerra inevitável.”
O académico norte-americano de relações internacionais Graham Allison desenvolveu a partir daí a ideia da Armadilha de Tucídides.
O objectivo declarado de Tucídides era que os leitores considerassem a sua história útil para compreender acontecimentos futuros. Assim, defendeu Allison, podemos transformar as suas palavras num princípio geral: quando uma “potência estabelecida” como Esparta é confrontada com uma “potência emergente” como Atenas, o resultado é, em geral, o conflito.
A História, sustenta Allison, confirma esta tese. Ao longo dos séculos, 12 de 16 exemplos de uma grande potência estabelecida confrontada com uma rival emergente resultaram em guerra, incluindo as duas guerras mundiais.
Será também esse o caso entre os EUA, hegemonia global desde o colapso da União Soviética, e uma China ressurgente que desafia o seu domínio, em especial no plano económico?
Três armadilhas
A ideia de Allison foi muito debatida. Em 2017, foi convidado para a Casa Branca para falar sobre a sua aplicação à China e aos Estados Unidos. Por isso, a referência de Xi à Armadilha de Tucídides foi menos uma ideia nova do que uma evocação do primeiro mandato de Trump.
A teoria foi levada a sério pelo Governo chinês, nem que fosse como guia para o pensamento norte-americano. Esta foi identificada como uma das três armadilhas que a China enfrenta hoje.
As outras duas são a Armadilha de Tácito, conceito que descreve uma situação em que um governo ou líder se torna tão impopular que passa a ser odiado e criticado independentemente do que faça, e a Armadilha do Rendimento Médio, que descreve a estagnação de um país que, após ter deixado a pobreza para trás, perde competitividade e não consegue avançar para o patamar de economia rica.
A discussão sobre a Armadilha de Tucídides tem-se centrado sobretudo na análise de Allison sobre a situação contemporânea. O debate tem girado em torno de saber se a sua caracterização da relação entre os EUA e a China está correcta e se o advento das armas nucleares e/ou a interdependência económica alterou essa dinâmica.
Allison apresentou a Armadilha de Tucídides como um aviso, para incentivar ambos os governos a procurar compromissos e cooperação.
O risco é que a potência estabelecida interprete Tucídides como dizendo-lhe para conter potenciais rivais antes de estes se tornarem uma ameaça — mesmo que isso torne a guerra mais provável. Daí a ênfase de Xi em evitar a armadilha.
Mas os políticos norte-americanos da linha mais crítica relação à China vêem nisso um estratagema para adiar o conflito até que o equilíbrio de poder seja mais nivelado.
Uma lição de prudência
Uma vez que esta é apresentada como uma teoria assente em dados históricos e na autoridade de Tucídides, vale a pena notar que é questionável em ambos os aspectos.
Caracterizar muitos conflitos do passado como dizendo respeito apenas a duas potências rivais, uma estabelecida e outra em ascensão, é duvidoso; a Primeira Guerra Mundial foi apenas sobre a Grã-Bretanha e a Alemanha, por exemplo?
Quanto a Tucídides, a frase crucial é uma tradução muito livre do que de facto escreveu, que é muito mais ambíguo. Uma versão mais literal seria: “O facto de Atenas se tornar grande levou os espartanos a temer e impeliu para a guerra”.
Impeliu quem? Tucídides não especifica. Os espartanos? E, se assim foi, foram realmente impelidos ou apenas sentiram que o estavam a ser? Ambos os lados? Ou toda a situação? Está simplesmente a ser pouco claro — ou fá-lo deliberadamente, para levar os leitores a pensar mais profundamente?
Depois de apresentar esta afirmação opaca e algo ambígua, Tucídides expôs uma narrativa detalhada dos acontecimentos que conduziram à declaração de guerra por Esparta. Essa narrativa incluiu muitos momentos em que as coisas poderiam, discutivelmente, ter tido um desfecho diferente.
A sua interpretação deu relevo tanto a desenvolvimentos de curto como de longo prazo, bem como a decisões e emoções individuais, além de factores estruturais. A sua “armadilha” é muito mais complexa — e, definitivamente, não é inevitável.
Isto é muito familiar para leitores atentos de Tucídides. A sua obra não oferece leis simples sobre a guerra e a política, antes expõe a complexidade do comportamento humano de uma forma que nos leva a pensar mais profundamente sobre ele.
Mas as suas ideias são muitas vezes apresentadas de forma errada, como princípios simplistas que supostamente explicam o mundo.
A resposta de Trump a Xi, de que os EUA poderiam estar em declínio sob Biden, mas são agora o país mais “quente” de sempre,é uma leitura errada até da versão simplificada de Tucídides proposta por Allison. A teoria da “Armadilha” nada diz sobre declínio; diz apenas que a superpotência estabelecida enfrenta agora uma rival.
Mas a ansiedade em torno do declínio e da decadência impregna hoje o pensamento ocidental. Talvez isso seja indício do mesmo tipo de medo que passou a dominar o pensamento espartano e que, como o próprio Tucídides relatou, arrastou ambos os Estados para uma guerra destrutiva.