Qassem Al-Kaabi/AFP

Homens reúnem-se em torno da carcaça de uma carrinha de caixa aberta destruída, conduzida por um pastor local, que terá sido atingido pelas forças israelitas e enterrado por habitantes locais numa sepultura próxima, no deserto de Najaf, no sudoeste do Iraque.
Dois postos israelitas terão sido mantidos em segredo durante meses no deserto do Iraque. Awad al-Shammari, de 29 anos, viu o que não devia ter visto e acabou carbonizado por forças “estrangeiras” na localidade onde vivia.
Quando Awad al-Shammari, de 29 anos, saiu do seu acampamento, a 3 de março, para ir fazer compras na localidade de al-Nukhaib, Iraque, ninguém na sua família pensou que essa seria a última vez que veria o pastor com vida.
No caminho deserto e poeirento que já costumava percorrer com a sua carrinha, segundo relata o The New York Times, o beduíno deparou-se por acaso com uma instalação secreta israelita. Pouco depois, seria perseguido e o seu veículo seria transformado numa carcaça queimada, crivada de balas.
A verdade é que Israel terá operado, durante mais de um ano, essa e outra base clandestina no deserto ocidental do Iraque, para apoiar operações militares contra o Irão, segundo responsáveis iraquianos e regionais citados pelo NYT.
Naquele dia trágico, al-Shammari estava no local errado, à hora errada. Três testemunhas afirmaram ter visto um helicóptero a perseguir a carrinha e disparado repetidamente até esta parar na areia.
Mas antes, segundo a sua família, al-Shammari terá contactado o comando militar regional iraquiano para relatar o que tinha encontrado: soldados, helicópteros e tendas junto a uma pista de aterragem. Depois disso, a família perdeu o contacto com o pastor. Durante dois dias, os familiares procuraram o jovem de 29 anos, até que encontraram a carrinha onde este seguia totalmente carbonizada e o seu corpo queimado.
A família de Awad al-Shammari continua a exigir respostas. O primo da vítima, Amir al-Shammari, sublinha que os familiares querem uma investigação sobre o que aconteceu e um motivo concreto que explique por que razão o pastor foi morto.
Duas bases israelitas: EUA sabiam?
De acordo com responsáveis iraquianos, a descrição do pastor apontava para a presença de uma base operada por Israel — país com o qual o Iraque não mantém relações diplomáticas e que é visto como inimigo por grande parte da população iraquiana.
A existência de um posto avançado israelita no Iraque já tinha sido noticiada pelo The Wall Street Journal, mas responsáveis iraquianos disseram agora ao New York Times que havia uma segunda base, também situada no deserto ocidental iraquiano.
A instalação descoberta por al-Shammari terá sido preparada desde finais de 2024 e usada durante a guerra de 12 dias entre Israel e o Irão, em junho de 2025. O objetivo da base seria encurtar as distâncias percorridas pela aviação israelita até território iraniano, com apoio aéreo, reabastecimento e tratamento médico.
Contactadas pelo Times, as Forças de Defesa de Israel (IDF) recusaram comentar as alegações sobre as bases e sobre a morte do pastor. E, oficialmente, Bagdade também não reconheceu a presença de bases israelitas no seu território. O porta-voz das forças de segurança iraquianas, Saad Maan, afirmou que o Iraque “não tem informação” sobre a localização de quaisquer bases.
No entanto, o major-general Ali al-Hamdani, comandante das Forças do Eufrates Ocidental, disse que o exército iraquiano suspeitava da presença israelita no deserto há mais de um mês antes da descoberta feita pelo pastor. As comunidades beduínas da região andavam alegadamente a comunicar atividade militar invulgar ao comando regional iraquiano há semanas. Diz al-Hamdani que o exército optou por não se aproximar e limitou-se a fazer vigilância à distância por suspeitar tratar-se de forças israelitas.
Um dia depois de o pastor que foi morto ter reportado a presença estrangeira, o comando regional terá enviado uma missão de reconhecimento. Quando as unidades iraquianas se aproximaram da zona, foram atacadas, numa investida que resultou na morte de um soldado. Outros dois ficaram feridos e dois veículos foram bombardeados antes de as forças iraquianas recuarem. O Comando de Operações Conjuntas iraquiano limitou-se depois a afirmar que forças “estrangeiras” tinham atacado os seus militares e anunciou que apresentara queixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em privado, segundo os responsáveis iraquianos contactados pelo NYT, o general Abdul-Amir Yarallah, chefe de Estado-Maior das Forças Armadas do Iraque, contactou comandantes militares norte-americanos, que terão confirmado que a força envolvida não era norte-americana, o que por sua vez confirmou, na visão de al-Hamdani, que a base era israelita.
Antigos comandantes norte-americanos, responsáveis do Pentágono e diplomatas que serviram na região confessam ao jornal norte-americano que acham inconcebível que o Comando Central dos EUA, dada a proximidade operacional com as forças israelitas, não tivesse conhecimento da presença israelita no oeste do Iraque. E responsáveis iraquianos garantem que a existência de pelo menos uma das bases era conhecida por Washington desde junho de 2025, ou possivelmente antes.
A 8 de março, o Parlamento iraquiano obrigou chefias militares a prestarem esclarecimentos. Nessa sessão, Hassan Fadaam, um dos deputados, disse que Israel estabelecera pelo menos outro posto avançado dentro do Iraque e que “o de al-Nukhaib foi apenas o único que foi descoberto”. Um segundo responsável iraquiano confirmou a existência de uma segunda base, mas sem especificar a localização exata.
A base de al-Nukhaib já não estará operacional, enquanto o estado da segunda instalação é, por enquanto, desconhecido.