Khamenei.ir / Wikimedia

Representação artística de drones Shahed-136, usados pela Rússia, a atacar uma base aérea

Havana terá adquirido mais de 300 drones militares recentemente e discutido cenários para os usar contra dois alvos norte-americanos, avançam fontes da Axios.

Washington estará a avaliar uma eventual ameaça de ataque a partir de Cuba, depois de Havana ter alegadamente adquirido mais de 300 drones militares e discutido cenários para os usar contra alvos norte-americanos, incluindo a base de Guantánamo, navios dos EUA e, eventualmente, Key West, na Florida.

A informação é avançada ao Axios por “fontes confidenciais” partilhadas com as autoridades norte-americanas. De acordo com um alto funcionário norte-americano citado pela publicação, Washington vê com particular preocupação a combinação entre tecnologias militares de curto e médio alcance, atores como o Irão e a Rússia, e a localização de Cuba, a cerca de 145 quilómetros da costa dos Estados Unidos.  A mesma fonte diz que a ameaça é “crescente” e “preocupante”, ainda que as autoridades sublinhem que não há indícios de que Havana esteja atualmente a preparar um ataque contra interesses norte-americanos.

Cuba tem vindo a adquirir drones de ataque à Rússia e ao Irão desde 2023, armazenando-os em locais estratégicos em várias zonas da ilha, avança ainda a Axios. Este mês, responsáveis cubanos terão procurado obter mais drones e equipamento militar junto de Moscovo. Interceções levadas a cabo por autoridades norte-americanas sugerem ainda que elementos dos serviços de inteligência cubanos procuram estudar a forma como o Irão tem resistido à pressão dos EUA.

Rússia e China mantêm também instalações tecnológicas destinadas à recolha de informações de sinais, conhecidas como SIGINT, em Cuba. Numa audição no Congresso, o secretário de guerra, Pete Hegseth, classificou a utilização de uma localização tão próxima da costa norte-americana por adversários estrangeiros como “altamente problemática”.

“Distorção”, diz Cuba

Inicialmente, a embaixada cubana não respondeu ao pedido de comentário da Axios, mas publicou posteriormente uma declaração, na rede social X, sem negar a posse de novos drones de ataque.

“Como qualquer país, Cuba tem o direito de se defender contra agressões externas. A isto se chama autodefesa e está protegido pelo Direito Internacional e pela Carta da ONU”, refere o comunicado de Havana: “Aqueles dos EUA que procuram a submissão e, na verdade, a destruição da nação cubana através da agressão militar e da guerra, não perdem um único momento a fabricar pretextos, a criar e a espalhar falsidades e a distorcer como extraordinária a preparação lógica necessária para enfrentar uma potencial agressão.”

Apesar das suspeitas, os EUA reconhecem que Cuba não representa hoje uma ameaça militar comparável à da crise dos mísseis de 1962. As autoridades não acreditam que a ilha tenha capacidade para bloquear o estreito da Florida da forma como o Irão afetou o tráfego no estreito de Ormuz.

A visita do diretor da CIA

A tensão terá aumentado nos últimos dias, com a deslocação do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Cuba, onde se terá reunido com representantes do governo cubano.

Segundo um responsável da CIA, Ratcliffe advertiu diretamente as autoridades cubanas contra qualquer ato hostil e afirmou que a ilha não pode continuar a servir de plataforma para adversários dos Estados Unidos desenvolverem agendas hostis no hemisfério ocidental.

O responsável afirma ainda que o diretor da agência instou Havana a pôr fim ao seu regime totalitário — algo que será condição obrigatória para o levantamento das sanções norte-americanas.

Raúl Castro acusado pelos EUA

Por cima de tudo isto, o Departamento de Justiça norte-americano deverá tornar pública uma acusação contra Raúl Castro, histórico líder, ex-presidente, irmão mais novo de Fidel Castro e figura revolucionária do regime cubano, por alegadamente ter ordenado o abate, em 1996, de dois aviões operados pelo grupo humanitário Brothers to the Rescue, com sede em Miami.

Também poderão ser anunciadas novas sanções contra Cuba ainda esta semana, avança a imprensa norte-americana — apesar de Donald Trump ter-se mostrado convicto de que conseguirá trazer o Governo de Cuba para o lado de Washington pouco depois da visita da CIA a Havana.

Meses tensos

Os últimos meses têm sido marcados por constantes ameaças de invasão dirigidas pelo presidente norte-americano. Desde janeiro que os EUA têm vindo a pressionar o Governo cubano para se reformar e reinventar. Washington impôs até um bloqueio petrolífero à entrada de combustíveis e ameaçou, em vários momentos deste ano, invadir a ilha.

Havana já disse que não vê “qualquer justificação” para uma eventual ação militar em Cuba, “país pacífico que não representa nenhuma ameaça” para os EUA, mas confessou ao mesmo tempo que “seria ingénuo” da parte dos líderes cubanos ignorar a possibilidade de um ataque militar norte-americano.


Tomás Guimarães, ZAP //


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