Há menos praias absolutamente livres de contaminação microbiológica em Portugal este ano. A nova lista da associação ambiental Zero identifica 73 praias Zero Poluição em 2026, menos oito do que as 81 praias classificadas no ano passado, e confirma a dificuldade crescente de cumprir um padrão ambiental exigente.

A fasquia é, de facto, muito alta. Como explica o comunicado, “uma Praia Zero Poluição é aquela em que não foi detectada qualquer contaminação microbiológica nas análises efectuadas às águas ao longo das três últimas épocas balneares, tendo também a sua classificação sido sempre ‘excelente’ nesse período”.

Basta uma única análise com vestígios — mesmo que dentro dos limites legais — para excluir uma praia, numa avaliação que inclui dois parâmetros microbiológicos controlados e previstos na legislação (Escherichia coli e Enterococos).

À luz deste critério, os números ganham outra leitura: as 73 praias agora identificadas representam “11% do total das 671 águas balneares existentes”. Em 2025, quando o Azul noticiava o recorde de 81 areais sem poluição, o destaque era o crescimento consistente destes casos de excelência. Em 2026, o retrato pode ser lido como um ajustamento, não necessariamente como uma inversão de tendência.


A própria Zero sublinha que “uma única análise com detecção microbiológica em três anos é suficiente para uma praia deixar de integrar esta lista”, o que ajuda a explicar a saída de 31 praias face ao ano passado, parcialmente compensada pela entrada de 23 novas.

Grândola e Porto Santo na liderança

No plano geográfico, o mapa da excelência mantém alguns padrões, mas com mudanças relevantes. Grândola surge agora como o concelho com mais praias sem qualquer registo de contaminação: seis, ultrapassando Porto Santo, que soma cinco. Seguem-se Alcobaça, Aljezur e Torres Vedras, com quatro.

No grupo imediatamente abaixo, com três praias, encontram-se Olhão, Tavira, Viana do Castelo, Angra do Heroísmo, São Roque do Pico e Vila do Porto. No total, distribuem-se 45 praias Zero Poluição em Portugal continental (em 20 concelhos), 21 nos Açores (em 11 concelhos) e sete na Madeira (em três concelhos).

Há também um movimento de rotação nos destinos. Cinco municípios entram na lista — Lagos, Moimenta da Beira, Sabugal, Setúbal e São Vicente — enquanto dez saem, incluindo destinos conhecidos como Nazaré, Sintra ou Sines. Este dinamismo reforça a ideia de que a classificação depende de um desempenho técnico muito consistente, ano após ano.

O problema das águas interiores

Um dos pontos mais reveladores do relatório é a persistente dificuldade em alcançar níveis de excelência em zonas não costeiras. Apenas duas praias interiores — Albufeira do Vilar (Moimenta da Beira) e Albufeira de Alfaiates (Sabugal) — conseguem este estatuto.

A Zero reconhece que “é extremamente difícil conseguir um registo incólume ao longo de três anos nas zonas balneares interiores”, apontando estas fragilidades como um indicador de que “há muito ainda a fazer para garantir uma boa qualidade da água dos rios e ribeiras em Portugal”.

As causas são conhecidas: maior vulnerabilidade a descargas irregulares, menor diluição e um controlo mais exigente das pressões urbanas e agrícolas. O comunicado insiste na necessidade de “assegurar uma gestão rigorosa dos sistemas de saneamento, das escorrências urbanas e das actividades económicas com potencial impacto nas zonas balneares”.




Uma Praia Zero Poluição é aquela em que não foi detectada qualquer contaminação microbiológica nas análises efectuadas às águas ao longo das três últimas épocas
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Menos praias Zero, mas a mesma meta europeia

Apesar da quebra numérica, a associação enquadra estes resultados numa ambição mais vasta. “A Zero considera que este objectivo é verdadeiramente aquilo que à escala europeia se deseja no quadro do Pacto Ecológico Europeu”, sublinhando o alinhamento com o Plano de Acção para a Poluição Zero.

Curiosamente, o recuo das praias sem contaminação acompanha uma tendência paralela noutra etiqueta ambiental: “esta ligeira diminuição acompanha a redução também verificada no número de praias com Bandeira Azul”. Ainda que os critérios sejam distintos, ambas as classificações funcionam como indicadores da pressão sobre os sistemas costeiros.

A comparação com 2025 expõe uma tensão entre ambição e a realidade. Se no ano passado a narrativa era de crescimento — o Azul noticiou um “recorde” de praias sem poluição —, este ano parece existir um ajustamento aos critérios exigentes. À medida que o nível da avaliação se mantém muito rigoroso, pequenas variações tornam-se inevitáveis.

Ao exigir a ausência total de contaminação ao longo de três anos, a classificação de Praia Zero Poluição não mede apenas qualidade: avalia também consistência. Uma consistência que depende de factores muitas vezes difíceis de controlar, como eventos climáticos extremos ou falhas pontuais de infra-estruturas.


Recomendações para a época balnear

A Zero deixa ainda um conjunto de alertas práticos. Entre eles, a recomendação de que “só devem ser frequentadas praias classificadas como zonas balneares”, a importância de não deixar resíduos e a necessidade de “preservar a paisagem e os ecossistemas envolventes”.

São conselhos simples, mas que lembram que a qualidade da água não depende apenas de políticas públicas — resulta também de comportamentos individuais.

Num país com quase dois mil quilómetros de costa, a existência de 73 praias absolutamente livres de poluição mantém-se um sinal positivo. Mas a descida face ao recorde de 2025 mostra que a excelência ambiental, quando definida em termos absolutos, exige vigilância contínua. Talvez não existam praias perfeitas, mas Portugal mantém um leque de escolhas invejável na Europa.