Vitrine Filmes / DivulgaçãoAtriz de Cabo Verde Cleo Diára foi premiada no Festival de Cannes por “O Riso e a Faca” (2025), de Pedro Pinho.Vitrine Filmes / Divulgação

Depois de uma breve passagem pelo CineBancários, volta a cartaz nesta quinta-feira (21), na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, um filme com três horas e 36 minutos de duração que virou xodó dos críticos: O Riso e a Faca (2025), do diretor português Pedro Pinho. As sessões são em horários variados: na quinta e no domingo (24), às 17h15min; na sexta (22) e no sábado (23), às 15h30min; na terça (26) e na quarta (27), às 17h30min.

Com roteiro escrito a 20 mãos, o quarto longa-metragem de Pinho sucede A Fábrica de Nada (2017), que no Festival de Cannes recebeu o prêmio dos críticos na Quinzena dos Cineastas. O Riso e a Faca foi rodado no deserto da Mauritânia e, principalmente, em Guiné-Bissau. Trata-se de uma coprodução entre Portugal, França, Romênia e Brasil — país representado, por exemplo, pelo ator nascido e criado em Araçatuba (SP) Jonathan Guilherme, um ex-jogador de vôlei que hoje é poeta em Barcelona, na Espanha; pela produtora carioca Tatiana Leite, da Bubbles Project; pelo diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo; e pela montadora Karen Akerman.

O título do filme e a própria inspiração para a trama também vêm do Brasil: é a canção homônima lançada pelo baiano Tom Zé em 1970. Seus versos sobre a dualidade humana são inclusive cantados pelos personagens principais de O Riso e a Faca durante uma cena na estrada: “Quero ser o riso e o dente / Quero ser o dente e a faca / Quero ser a faca e o corte / Em um só beijo vermelho / Eu sou a raiva e a vacina / Procura de pecado e conselho / Espaço entre a dor e o consolo / A briga entre a luz e o espelho / Fiz meu berço na viração / Eu só descanso na tempestade / Só adormeço no furacão”.

Vitrine Filmes / DivulgaçãoO brasileiro Jonathan Guilherme e o português Sérgio Coragem em cena do filme “O Riso e a Faca”.Vitrine Filmes / Divulgação

Interpretado por Sérgio Coragem, o protagonista é um engenheiro ambiental chamado Sérgio que é enviado por uma ONG de Portugal para Guiné-Bissau, país situado na África Ocidental que tem o português como idioma oficial — mas a grande maioria da população fala o kriol. Sua missão é avaliar o impacto da construção de uma rodovia entre o deserto e a floresta, uma obra vital para interesses de empresários portugueses, mas talvez prejudicial para a comunidade local. 

Lá, o engenheiro depara com dinâmicas neocoloniais e também se envolve com dois moradores locais: Diára, papel da atriz de Cabo Verde Cleo Diára, ganhadora do prêmio de melhor atriz na mostra Um Certo Olhar (Un Certain Regard) do Festival de Cannes, e Guilherme, o Gui, um brasileiro não binário encarnado por Jonathan Guilherme. Esse núcleo de personagens possibilita a O Riso e a Faca abordar também questões de identidade, tanto a sexual (Sérgio é bissexual) quanto a étnica: ao procurar suas raízes africanas, Guilherme aprende que, aos olhos dos guineenses, é mais branco do que negro.

Com cenas ora contemplativas, ora provocativas, O Riso e a Faca foi eleito o quinto melhor filme de 2025 pelos críticos da prestigiada revista francesa Cahiers du Cinéma. Ficou atrás apenas de Tardes de Solidão, documentário do espanhol Albert Serra sobre o toureiro peruano Andrés Roca Rey; de Uma Batalha Após a Outra, o grande vencedor do último Oscar, assinado por Paul Thomas Anderson; da comédia corrosiva Yes!, em que o israelense Nadav Lapid critica a elite política e o nacionalismo de seu país; e O Agente Secreto, thriller político escrito e dirigido pelo brasileiro Kleber Mendonça Filho.

O colunista Ronaldo Lemos, da Folha de S. Paulo, considerou O Riso e a Faca o melhor filme do ano passado. Ele afirmou: “Em tempos em que muita gente acha que o cinema é uma arte em declínio, a obra comete uma cosmogonia: cria um universo inteiro em suas mais de três horas de duração”. 

Para a crítica Miriam Balanescu, do site IndieWire, o filme é uma “odisseia sinuosa e ousada” que mescla gêneros e ideias complexas e não tenta encontrar respostas fáceis. Ela elogiou o desenho do personagem principal e o desempenho do seu intérprete: “Se alguma vez um ator conseguiu ser protagonista e figurante ao mesmo tempo, Sérgio Coragem faz isso aqui. Sérgio serve apenas como veículo para outras narrativas mais interessantes e de maior significado”.

Evidentemente, a condição de Sérgio como homem branco e europeu é central em O Riso e a Faca. A crítica Tina Kakadelis, no site Beyond the Cinerama Dome, lembrou um velho ditado — “o caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções” — e apontou os resquícios colonialistas do protagonista: “Sérgio quer ajudar, mas a força motriz por trás desse desejo é um complexo de salvador branco“. 

Kakadelis também destacou uma frase dita por uma coadjuvante, uma prostituta que Sérgio conhece em uma boate: 

O que mais me repugna são os homens bons. 

A crítica reflete: “O que é pior? Os aparentemente maus ou aqueles que pensam estar fazendo o bem, mas na verdade estão causando mal? O Riso e a Faca é uma desconstrução épica dos efeitos do neocolonialismo em escala global contemporânea, mas também é sobre como essas percepções e crenças surgem na insignificância de uma relação entre duas pessoas“.

Vitrine Filmes / DivulgaçãoDiára (papel de Cleo Diára) e Sérgio (vivido por Sérgio Coragem) em “O Riso e a Faca”.Vitrine Filmes / Divulgação

Cineasta e crítico cabo-verdiano, Pedro José-Marcellino, no portal Buala, escreveu que o filme não é tanto sobre colonizadores e colonizados, “mas sobre o lugar do meio e sobre essa maquinaria afetiva que permite que a extração continue, hoje, agora em jeito soft power, países-irmãos e tal, com biografias liberais e salários de ONGs“. Para Marcellino, Pedro Pinho não mostra a África sob o olhar da inocência: “O filme também observa a elite local, bem-falante, cosmopolita, educada fora, pragmática nas alianças. É um lugar de fala onde a retórica do progresso coexiste com o cálculo; onde a modernidade serve, às vezes, para reembalar a velha economia de favores”.

Marcellino fez questão de louvar a longa duração de O Riso e a Faca: “O filme de Pinho não pede paciência, pede presença. O seu tempo não é apenas um meio, é o assunto. Porque a violência da história e da economia não cabe na moral de bolso. (…) Pinho monta como quem tenta ressuscitar o tempo. Deixa o ar mover-se, o pulso palpitar, o olhar perder-se e regressar. Não corta para acelerar, corta para ser honesto. É um gesto radical, hoje, num mundo onde até a indignação precisa de caber num clipe“.

Mas claro que há vozes contrárias entre os críticos. No site nova-iorquino Slant Magazine, Diego Semerene queixou-se do “caráter pedagógico”: “Embora Sérgio busque refúgio no hedonismo de Guilherme e Diára, como se tentasse escapar da esterilidade do seu ambiente de trabalho, ele nunca se liberta de um estado depressivo. Talvez, como nós, ele esteja sufocado pelo didatismo a que todos à sua volta são propensos. Quaisquer que sejam as lições pós-coloniais, os personagens de O Riso e a Faca as articulam de forma demasiado evidente. O cineasta é obviamente crítico da mentalidade do colonizador, mas é tão inflexível em garantir que conheçamos a sua posição que quase todas as sequências aqui são estruturadas em torno de uma espécie de autoexposição moral”.

Na sua conta no Substack, a Cinema com Crítica, o brasileiro Márcio Sallem, que assistiu a O Riso e a Faca no Festival de Cannes, disse que Pedro Pinho “denuncia o neocolonialismo ou pós-colonialismo enquanto o perpetua através da arte”. Para Sallem, o cineasta “critica a própria condição a partir da eleição de um substituto (o personagem Sérgio), mas talvez isto não baste para eliminar a reflexão sobre um cinema que explora, desbrava, torna visível a realidade invisível de um país minúsculo no litoral da África. (…) Sérgio sempre pode deixar Guiné, não há nada que o impeça de retornar à Portugal, senão o curioso olhar observador. Se é o seu olhar que guia o nosso, também podemos retornar às nossas realidades, de tal maneira que aquelas vidas, aqueles corpos sejam relegados à memória audiovisual. (…) Reconhecer a sua limitação dentro de um contexto exploratório de capitalismo pós-colonialista é o ponto de partida para Sérgio rever seus pré-julgamentos, mas no filme de Pedro Pinho é apenas chover no molhado“.

Sobre a metragem do filme, o crítico brasileiro foi taxativo: “A duração interna das cenas, no desejo de tensionar o olhar o bastante para atravessar a dimensão da observação a outro plano de experiência sensorial e espiritual, termina por, na falta de um melhor termo, ser somente chato. Um tédio magnificado pela duração épica de 212 minutos, apesar de não haver nada de épico, nem memorável em O Riso e a Faca”.

Discordo. O Riso e a Faca talvez seja realmente mais longo do que o necessário, mas é um filme imersivo que, pelas mãos de personagens instigantes, nos transporta para um outro mundo que fica a um oceano de distância, mas no qual, como brasileiros e como cidadãos do século 21, vamos reconhecer muitos cenários e muitas questões. A dica é se deixar levar e se permitir ao transe que algumas cenas podem provocar.

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