O cenário foi-se adensando nas últimas semanas, tal como já tinha acontecido noutros momentos do longo reinado de Pep Guardiola no Manchester City, mas desta vez é a valer. O treinador catalão, um dos melhores da história do futebol, encerra no domingo (dia da última jornada da Premier League) um ciclo de dez anos com quase duas dezenas de troféus invejáveis. Pep não redimensionou apenas o clube, reescreveu parte do futebol inglês.

Há um City antes e depois de Guardiola. Até à chegada do catalão, havia quatro campeonatos no palmarés do clube, agora há 10. Não havia nenhuma Liga dos Campeões. Agora há. Não havia nenhuma Supertaça Europeia. Agora há. Não havia nenhum Mundial de clubes. E, sim, agora há. E não havia uma equipa que tivesse sido tão dominadora no seu auge como a que Pep preparou na sua incubadora.

A nível interno, a dimensão do legado do antigo médio é particularmente visível na época 2017-18. Nessa temporada, o City não se limitou a ganhar, fê-lo atropelando adversários e recordes. Atingiu a fasquia dos 100 pontos na Premier League, com um número absurdo de golos marcados (106), de vitórias (32) e uma diferença inaudita de 19 pontos em relação ao segundo classificado, o rival citadino.

Em contextos como este, para os padrões de Pep, a Taça da Liga e a Taça de Inglaterra que conquistou em 2025-26 saberão sempre a pouco, mesmo tendo discutido o título até à penúltima jornada. Mas este é apenas um parágrafo numa longa história de sucesso continuado, com muitos dos melhores jogadores do planeta e um investimento colossal que transformou o City numa verdadeira potência europeia.

“Não me perguntem as razões pelas quais vou sair. Não há nenhuma razão, mas, no fundo, sei que é a minha hora. Nada é eterno, se fosse, eu ficaria aqui”, afirmou Guardiola, no vídeo de despedida. “Esta é uma cidade construída a partir do trabalho. Do esforço. Vê-se na cor dos tijolos. Trabalhámos. Sofremos. Lutámos. E fizemos as coisas à nossa maneira”.


Com Pep, deixará no fim-de-semana o City of Manchester também Bernardo Silva, um dos preferidos do técnico catalão, o que agrava ainda mais a ideia de fim de ciclo. O médio português foi uma peça decisiva no xadrez do estratega catalão e também a base do sucesso de uma equipa que aprendeu a reinventar-se e a descobrir novos caminhos para os triunfos.

“Se há algo mais difícil do que ganhar, é ganhar outra vez. Requer uma persistência, resiliência e humildade incríveis para recomeçar todos os anos, com a mesma energia, vezes sem conta. Foi isso que o Pep fez”, resumiu Ferran Soriano, CEO do clube, referindo-se ao treinador como “uma lenda”.

Mesmo que não tivesse os troféus e as medalhas para o provar, Pep Guardiola já teria lugar nos livros de história do Manchester City por outra via, a da longevidade. Quando terminar o jogo com o Aston Villa, no domingo, regressará a casa como o treinador com mais jogos ao leme dos “citizens”, concretamente 593.