Em 1984, a banda de new wave Animotion alertou sobre os perigos da fixação romântica. “Minha necessidade de possuir você consumiu minha alma”, advertiam eles em seu sucesso Obsession. “Minha vida está tremendo, não tenho controle.”
Mas e se quem fala pudesse ser tanto o cativo quanto o captor do amor? Essa é a pergunta curiosa feita, com resultados mistos, na fábula sobrenatural e ácida do roteirista e diretor Curry Barker, apropriadamente batizada de Obsessão.
Bear (Michael Johnston, perfeitamente frágil) há muito tempo nutre uma paixão por sua melhor amiga, Nikki (Inde Navarrette, totalmente destemida), mas ele é debilitantemente tímido e nunca teve coragem de confessar seus sentimentos a ela, muito menos de convidá-la para sair.
‘Obsessão’ estreou em 14 de maio nos cinemas brasileiros Foto: Focus Features/Blumhouse/Divulgação
Desesperado, Bear vai a uma boutique esotérica em busca de ajuda dos deuses do misticismo alternativo. Ele opta pelo “One Wish Willow” (Salgueiro do Desejo), uma bugiganga que dizem conceder um desejo depois de ser partida ao meio. Bear pede que Nikki o ame mais do que a qualquer pessoa, e ela o faz rapidamente, com devoção e uma sede sexual insaciável. Missão cumprida.
Mas o feitiço romântico de Bear traz consequências fáusticas terríveis e previsíveis. Em vez de sua doçura, Nikki se torna seu tormento — um monstro controlador, grudento e birrento. Os amigos do casal, incluindo Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless), ficam perplexos com a rapidez com que Bear e Nikki viajaram da friend zone para um lugar perturbador. Quando o comportamento estranho de Nikki se torna violento — amantes de animais, preparem-se —, o desejo de Bear se transforma em uma maldição.
Para o crédito de Barker, seu roteiro permite que Nikki emerja de relance de seu transe doentio, um lembrete de que, por trás da criatura assustadora, há uma mulher real sentindo uma dor real. Mas isso não é suficiente para fazer o filme parecer mais do que um estudo sobre a crueldade.
É difícil ter muita empatia por um homem adulto que fica tão paralisado por seus medos sexuais e inseguranças românticas que acaba prendendo a si mesmo e ao objeto de seu desejo em um impasse sobrenatural criado por ele mesmo, em vez de fazer o que deveria ter feito: arriscar a rejeição.
Inde Navarrette interpreta uma amaldiçoada Nikki em ‘Obsessão’ Foto: Focus Features/Blumhouse/Divulgação
A mensagem repetidamente enfatizada por Barker parece ser esta: para os caras heterossexuais com habilidades sociais lamentáveis, cuidado com o que desejam, porque a garota dos seus sonhos pode acabar se tornando a bola de ferro dos seus pesadelos.
Barker está no caminho certo; se as pesquisas estiverem corretas, a geração do TikTok está em pânico no que diz respeito a sexo, encontros e às supostas “garras” do casamento — um medo que impulsiona uma recente série da Netflix, Algo Muito Ruim Vai Acontecer. Se Obsessão for mais um presságio, o cinema de terror vai lutar com esses traumas por um bom tempo.
Assim como os irmãos Philippou (Faça Ela Voltar), Barker é um mestre das pegadinhas do YouTube que se tornou diretor de longa-metragem: ele e Tomlinson formam a dupla de comédia That’s a Bad Idea, cujo filme de terror found-footage de micro-orçamento Milk & Serial foi um sucesso viral dois anos atrás.
Barker mostra uma promessa real como contador de histórias de terror; seus instintos sobre quando recuar e quando investir são afiados como um bisturi. Quem dera a política sexual em jogo em Obsessão não parecesse tão imatura.
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