No documentário “The Crash”, lançado pela Netflix e intitulado no Brasil como “Colisão: Acidente ou Homicídio“, o diretor Gareth Johnson mergulha em um chocante caso criminal ocorrido nos Estados Unidos nos últimos anos. A produção, que estreou em 15 de maio, combina imagens de câmeras corporais, vídeos de vigilância, registros de redes sociais e entrevistas inéditas com familiares, investigadores e amigos das vítimas para reconstruir um episódio tido, a princípio, como acidente, mas que depois se revelou um caso de homicídio intencional.

Conforme informações da revista Time, ao longo de cerca de 90 minutos, a produção detalha o incidente, ocorrido em 2022, e explora o ambiente social e as emoções cercavam os envolvidos. À fonte, o diretor explicou como decidiu fazer esse trabalho. Segundo ele, tudo se deu por razões profundamente pessoais, já que, quando jovem, ele próprio sobreviveu a um grave acidente automobilístico que matou uma pessoa e deixou outras feridas.

Enquanto eu estava no hospital me recuperando, eu meio que via essa onda de choque surgindo desse incidente, afetando todas as pessoas ao meu redor, todas as pessoas que amo — minha família, meus amigos, as famílias das outras pessoas no carro”, disse Johnson.

Assim que soube da história de Mackenzie Shirilla, a jovem condenada pelo crime em questão, o diretor “quis virar de cabeça para baixo” sua própria experiência e “entender o trágico evento sob a perspectiva da família e amigos ao redor.”

Construindo o documentário

Para construir o documentário, Johnson e a produtora executiva Angharad Scott passaram meses conversando com familiares e amigos das vítimas e da própria Mackenzie. Segundo Scott, todos os envolvidos sentiam que ainda havia aspectos da história que jamais tinham sido realmente ouvidos.

A produção lembra que Shirilla, então estudante da Strongsville High School, mantinha um relacionamento de quatro anos com Dominic Russo. Segundo familiares, os dois eram inseparáveis e faziam planos de casamento. Enquanto isso, a jovem cultivava nas redes sociais uma imagem de influenciadora, publicando no TikTok vídeos de moda e lifestyle para milhares de seguidores.

No círculo de amizade do casal também estava Davion Flanagan, jovem jogador de futebol americano que sonhava em seguir carreira esportiva, mas que, após sofrer lesões graves no joelho e no ligamento do braço, viu seus planos universitários e profissionais desmoronarem.

Mackenzie Shirilla – Crédito: Divulgação/Netflix Colisão mortal

Tudo estaria perdido na madrugada de 31 de julho de 2022. Após participarem de uma festa de formatura em Strongsville, Mackenzie Shirilla, então com 17 anos, dirigia seu Toyota Camry levando Dominic Russo, de 20 anos, no banco do passageiro, e Davion Flanagan, de 19, no banco traseiro. Em determinado momento, ao entrar em um longo trecho de uma rua residencial, Mackenzie acelerou o carro até atingir aproximadamente 160 km/h antes de colidir violentamente contra um prédio de tijolos.

O impacto destruiu completamente o veículo. Quando os socorristas chegaram ao local, encontraram os três ocupantes inconscientes. Dominic e Davion morreram ainda no local, enquanto Mackenzie, gravemente ferida, precisou ser transportada de helicóptero para um hospital, onde passou por várias cirurgias. Parecia uma cena de acidente, mas, conforme as investigações avançaram, promotores passaram a suspeitar que a colisão havia sido intencional.

Investigações avançam

Durante o julgamento, realizado em 2023 no Condado de Cuyahoga, os investigadores apresentaram uma série de elementos considerados decisivos. Dados da caixa-preta do carro mostraram que o acelerador permaneceu pressionado a 100% durante vários segundos antes da colisão. Peritos também concluíram que não havia falhas mecânicas no veículo, descartando assim quaisquer problemas nos freios ou no acelerador.

Exames toxicológicos não identificaram álcool ou drogas no organismo de Mackenzie. Além disso, promotores afirmaram que o relacionamento entre ela e Dominic vinha enfrentando problemas meses antes do acidente. A mãe da vítima relatou episódios de tensão e alegou que o jovem já havia demonstrado medo da maneira como Shirilla dirigia. Segundo testemunhas, em uma discussão anterior, ela teria ameaçado “bater o carro”.

Outro ponto explorado pela acusação envolvia vídeos publicados nas redes sociais após a tragédia, nos quais Mackenzie aparentava pouca emoção diante da morte dos amigos. Para os promotores, esse comportamento reforçaria a hipótese de homicídio intencional.

A defesa, por outro lado, sustentou que Mackenzie sofria de POTS, uma síndrome relacionada à pressão arterial que pode provocar apagões momentâneos. Seus advogados alegaram que ela perdeu a consciência enquanto dirigia e que não possuía qualquer memória do acidente.

Mackenzie optou por não testemunhar durante o julgamento. Ainda assim, o juiz considerou que suas ações foram “controladas, deliberadas e intencionais”, rejeitando a tese da defesa.

Desfecho do caso

Em agosto de 2023, Mackenzie Shirilla foi condenada por múltiplas acusações de assassinato e homicídio veicular agravado. A sentença estabeleceu prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional após 15 anos. Decidida a condenação, Mackenzie divulgou um comunicado afirmando sentir profundo pesar pelas famílias das vítimas e insistindo que jamais provocaria o acidente de propósito.

No documentário, ela mantém a mesma versão: diz não se lembrar do momento da colisão e afirma que existe um “buraco negro” em sua memória daquela noite.


Giovanna Gomes

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.