No ano de 79 d.C., a violenta erupção do Monte Vesúvio sepultou abruptamente a próspera cidade romana de Pompeia sob uma espessa camada de cinzas e rochas vulcânicas. No entanto, o que se desenhou como uma das maiores catástrofes do mundo antigo acabou por criar o que hoje é um dos patrimônios históricos mais valiosos da humanidade.

Isso porque, ao isolar a localidade do oxigênio e da umidade por séculos, os detritos vulcânicos preservaram de forma intacta edifícios, afrescos, objetos cotidianos e até mesmo os contornos dos corpos de várias vítimas, deixando a cidade praticamente “congelada” no tempo.

Para historiadores e arqueólogos, Pompeia funciona como uma cápsula do tempo sem paralelos, oferecendo percepções detalhadas e realistas sobre a estrutura urbana, a economia, a cultura e a vida cotidiana dos antigos romanos. Caminhar por suas ruas escavadas permite compreender desde a opulência das elites até a rotina de trabalhadores comuns, transformando o sítio arqueológico em uma fonte inesgotável de conhecimento científico.

Mesmo hoje, quase dois milênios após a sua destruição, o solo de Pompeia continua a surpreender a ciência moderna. Longe de ser um capítulo encerrado, o local permanece como um campo de exploração ativo, impulsionado por novas tecnologias e escavações sistemáticas em áreas anteriormente intocadas. Confira a seguir 5 das descobertas arqueológicas mais recentes feitas em Pompeia:

Réplica em gesso de vítima do Vesúvio identificada como possível médico / Crédito: Divulgação/Parque Arqueológico de Pompeia

Uma análise recente de materiais recuperados em 1961 no Jardim dos Fugitivos, em Pompeia, identificou um provável médico romano entre as vítimas da erupção do Vesúvio em 79 d.C. O homem estava em um grupo de quatorze pessoas localizadas próximas à Porta Nocera, que morreram atingidas por uma nuvem piroclástica durante a tentativa de fuga. A nova conclusão foi possível graças ao estudo de um pequeno estojo que permaneceu décadas sem atenção, preservado dentro de um dos moldes de gesso que marcam a posição final dos corpos soterrados.

Especialistas do Parque Arqueológico de Pompeia encontraram no estojo de material orgânico e metal, além de uma bolsa de tecido com moedas, diversos instrumentos metálicos associados à prática médica. Para examinar o conteúdo sem danificar o molde, uma equipe multidisciplinar realizou radiografias e tomografias computadorizadas na Clínica Maria Rosaria. Os exames revelaram uma placa de ardósia, usada para misturas medicinais ou cosméticas, e ferramentas cirúrgicas semelhantes às utilizadas por profissionais da época, levando à hipótese de que a vítima era um medicus.

A varredura, apoiada por inteligência artificial e reconstruções tridimensionais, também detalhou um sofisticado sistema de fechamento por roda dentada no estojo. Segundo Gabriel Zuchtriegel, diretor do parque, o homem carregava as ferramentas porque pretendia continuar exercendo a profissão e ajudando pessoas após escapar do desastre. A descoberta é considerada rara, pois a maioria dos mortos em Pompeia permanece anônima e sem ocupação conhecida.

Incensário observado em estudo – Créditos: Johannes Eber

A primeira análise laboratorial de resíduos cinzentos encontrados em dois incensários de Pompeia, publicada na revista Antiquity, revelou detalhes inéditos sobre os rituais domésticos e as redes comerciais da cidade. Coordenado pelo arqueólogo Johannes Eber, o estudo identificou que os antigos romanos queimavam substâncias importadas de longas distâncias, além de vegetais locais, como oferendas aos deuses pouco antes da erupção de 79 d.C.

O primeiro queimador de incenso, em formato de cálice e desenterrado em 1954, continha restos de plantas lenhosas, como carvalho e louro, possivelmente usados como combustível para sacrifícios. Já o segundo artefato, uma tigela decorada com esculturas de três mulheres, apresentou vestígios de elemi — uma resina originária de florestas tropicais da África subsaariana ou da Ásia. Essa foi a primeira vez que a substância, associada à mumificação egípcia, foi registrada em um contexto romano.

O recipiente com elemi também continha biomarcadores de gordura e de uva, indicando a realização do praefatio, um ritual no qual vinho e incenso eram oferecidos simultaneamente para criar fumaça aromática e vaporização no altar. Segundo o coautor Philipp Wolfgang Stockhammer, o achado reforça que o Império Romano mantinha um comércio intenso e invisível com regiões distantes, como a Índia, voltado à importação de especiarias e resinas exóticas.

Marcas de possível máquina de guerra identificadas em Pompeia / Crédito: Van Buren, Silvia Bertacchi/Heritage

Um estudo publicado na revista científica Heritage revelou que algumas marcas encontradas em muralhas localizadas ao norte de Pompeia não possuem ligação com a erupção do Vesúvio, mas sim com um conflito militar ocorrido cerca de um século antes do desastre vulcânico. Investigadas por pesquisadoras italianas, as crateras de impacto apresentavam características incomuns: eram menores do que as provocadas por pedras de catapultas tradicionais e dispunham-se em formato de leque pelas paredes.

Anteriormente atribuídas ao desgaste geral de combates, as marcas foram associadas ao uso de uma políbole — uma antiga máquina de guerra semelhante a uma besta de grandes dimensões, considerada uma precursora da metralhadora por sua capacidade de disparar múltiplos projéteis em alta velocidade. Para chegar a essa conclusão, a equipe utilizou escaneamento a laser e fotogrametria para reproduzir os impactos em modelos 3D, analisando propriedades balísticas como profundidade, largura e formato dos danos.

Os dados tridimensionais foram comparados com projetos de engenharia gregos do século 3 a.C., coleções de museus e projéteis de outros sítios romanos. As dimensões coincidiram com catapultas automáticas do estilo escorpião. Segundo o estudo, o ataque radial provavelmente ocorreu durante o cerco comandado pelo general e ditador romano Lucius Cornelius Sulla; e as próprias cinzas vulcânicas que soterram a cidade foram as responsáveis por preservar esses vestígios bélicos intactos por quase dois mil anos.

Sacrário azul, em Pompeia / Crédito: Divulgação/Parque Arqueológico de Pompeia

A escavação de um sacrário — cômodo destinado a rituais sagrados — revelou o uso de um pigmento azul intenso em uma residência de alto padrão próxima ao centro de Pompeia. De acordo com um estudo publicado na revista Heritage Science, a decoração do pequeno espaço privado utilizou o chamado azul egípcio, um pigmento sintético cujo valor estimado representava uma soma expressiva para a economia da época, evidenciando o extremo luxo dos proprietários do imóvel.

Para dimensionar o investimento financeiro, cientistas utilizaram técnicas de microscopia de raios X e calcularam que foram empregadas entre 6 e 11 libras (entre 3 e 5 quilogramas) do material nas paredes. Com base nos registros de preços deixados pelo autor romano Plínio, o Velho, o custo total do mineral variou entre 93 e 168 denários. Considerando que um soldado romano recebia cerca de 187 denários por ano na época da erupção do Vesúvio, a estimativa conservadora aponta que o gasto com o pigmento correspondia a um intervalo entre 50% e 90% dessa renda anual.

Vale mencionar que o azul egípcio foi desenvolvido há cerca de 5 mil anos como alternativa ao lápis-lazúli, e demandava um processo de produção altamente sofisticado. Os pesquisadores calcularam que foram necessárias entre 31 e 56 horas de trabalho especializado apenas para moer a quantidade de insumo aplicada no aposento. Segundo o coautor Marco Nicola, da Universidade de Turim, a profusão da cor reflete uma tendência cultural da elite de Pompeia, na qual o azul funcionava como símbolo de riqueza e status social.

Pompeia vítimas capaMoldes petrificados de vítimas de Pompeia – Getty Images

Os moldes de gesso criados a partir das cavidades deixadas pelos corpos decompostos sob as cinzas de Pompeia também continuam a fornecer detalhes sobre os momentos finais da erupção do Monte Vesúvio. Desenvolvida no século 19 pelo arqueólogo Giuseppe Fiorelli, a técnica de preenchimento com gesso líquido revelou o formato exato das vítimas no momento da morte, preservando expressões faciais, mãos erguidas e corpos curvados que sugerem dor, desespero ou tentativa de fuga.

Durante muito tempo, essas posições dramáticas sustentaram a interpretação histórica de que os habitantes locais teriam agonizado lentamente por sufocamento. No entanto, investigações científicas recentes sobre os depósitos vulcânicos indicam que a morte da população pode ter sido ainda mais abrupta. Estudos sugerem que a cidade foi atingida por fluxos piroclásticos — ondas de gases extremamente quentes que podiam ultrapassar os 300 °C —, causando choque térmico quase imediato nas pessoas que permaneciam na localidade.

Apesar da rapidez do evento fatal, as posições contorcidas dos corpos ficaram registradas na cinza endurecida antes da decomposição dos tecidos orgânicos. As cavidades resultantes preservaram os contornos das vítimas por quase dois milênios, permitindo a reconstrução dos instantes finais do desastre. Atualmente, os moldes permanecem expostos no sítio arqueológico de Pompeia e em museus, consolidados como uma das imagens mais impactantes da arqueologia mundial.


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.